quarta-feira, dezembro 11, 2013

Novelas Venezuelanas na MEO

Telenovela da MEO, vivida na primeira pessoa (longo, mas vale a pena ler...).

Início de Novembro:
Decido que o plano de dados para aceder à Internet, associado ao meu telemóvel M4O, é insuficiente (200mb) e resolvo pedir o plano de 1gb, que me permite obter de forma gratuita um cartão multi-sim (prémio produto do ano atribuído à PT). Contacto o apoio ao cliente para fazer o pedido. Indico o que pretendo (actualização do plano + cartão multi-sim). Durante a chamada obtenho confirmação da alteração do plano, bem como indicação de como receberia o cartão no prazo de 5 dias úteis. A chamada dura cerca de 20 minutos, tendo sido solicitado que "aguardasse por favor" umas 4/5 vezes.

Meados de Novembro:
Verifico que o plano de dados afinal não está actualizado conforme pedido (passou de 200mb para 500mb, e não 1gb). Contacto o apoio ao cliente, através do qual obtenho a confirmação de que tenho o plano actualizado... para os 500mb, e que não existe qualquer registo em como tinha sido solicitado o cartão multi-sim. Pedi para mudar dos 500mb para 1gb, mas obtive a explicação técnica de que o sistema só permitia uma alteração de plano por mês. Expliquei que não queria alterar o plano, mas sim o plano que tinha solicitado desde o início. A operadora não conseguia "operar" no sentido de mudar o que quer que fosse, e pediu-me para desligar e voltar a ligar para falar com outro operador mais "operacional". Cerca de 30 minutos de chamada, com cerca de 6/7 "aguarde por favor".

Chamada consecutiva em meados de Novembro:
Desligo e volto a ligar para o apoio ao cliente, sendo atendido por um novo operador mais prestável e "operacional". Explico a situação (de novo) e obtenho uma vez mais confirmação da actualização... para 500mb. Reitero que não era o que pretendia, expliquei as dificuldades sentidas até ao momento. O operador deu início ao processo de alteração, e solicitação do cartão multi-sim. Como o "sistema estava lento", indicou-me que poderia desligar e depois receberia uma SMS de confirmação da alteração do plano. Agradeci o facto de a chamada só ter durado cerca de 15 minutos, e de o operador só me ter pedido 3 vezes para "aguardar por favor".

Final de Novembro:
Não tendo recebido a SMS de confirmação de alteração do plano de dados, nem cartão multi-sim, contacto de novo o apoio ao cliente. O operador em questão confirmou que eu tinha o plano de 500mb (e não de 1gb) e verificou que não existia qualquer pedido de alteração de plano nem de envio de cartão multi-sim. Pedi para cancelar o meu contrato MEO na totalidade dos serviços, e disse que metessem a fidelização no cu. O operador pediu-me pela primeira vez para "aguardar por favor" enquanto direccionava a minha chamada para o departamento de retenção de clientes. 10 minutos de chamada e 1 "aguarde por favor".

Chamada consecutiva em final de Novembro:
Passada a chamada anterior para a retenção de clientes, expliquei pela quarta vez todo o histórico anterior. Obtive várias explicações possíveis para o sucedido. Nenhuma delas razoável. Após cerca de 30 minutos de chamada e cerca de 10 "aguarde por favor", foi-me proposto que seriam feitas as duas alterações que pedi inicialmente (1gb de plano de dados + cartão multi-sim) e ainda me fariam um desconto de 7,50 eur. na mensalidade durante dois anos. O plano ficaria activo no início do mês de Dezembro e o cartão seria enviado no prazo máximo de 5 dias úteis. Concordei.

Início de Dezembro:
Uma vez que continuava com um plano de 500mb, e ainda não tinha recebido o cartão multi-sim, contactei o serviço de apoio ao cliente. Foi-me indicado que efectivamente tinha o plano de 500mb, sendo que não existia nenhum pedido de alteração para 1gb, apesar de existir um pedido de emissão de cartão multi-sim. Perguntei como seria emitido o multi-sim sem ter o plano de 1gb, já que era a única forma de o obter gratuitamente. Explicaram-me que seriam cobrados mais 5 euros na factura mensal. Pedi para alterar o plano de 500mb para 1gb, o que foi feito na hora. Reiterei o pedido de envio de multi-sim (gratuito). Total de 20 minutos de chamada e 4/5 "aguarde por favor".

Hoje:
Já tenho 1gb de plano de dados. O multi-sim ainda não chegou. Contactei agora mesmo o serviço de apoio ao cliente, através do qual obtive confirmação em como não existe nenhum pedido de cartão multi-sim. Expliquei à operadora que a minha vida dava um filme indiano e pedi a emissão do cartão. Confirmou que receberei o mesmo num prazo máximo de 5 dias úteis. A conversa ficou-se por uns 5 minutos de chamada e apenas 1 "aguarde por favor".

To be continued...

Conclusões lógicas:
- todos os operadores da MEO sofrem de Alzheimer
- todos os operadores da MEO são mentirosos compulsivos
- o sistema informático da MEO corre em computadores 286 com 2mb de RAM
- o sistema informático da MEO é o Solitário
- na MEO, o conceito de dias úteis é subjectivo (aparentemente são todos inúteis)
- na MEO, o galardoado produto do ano da PT (cartão multi-sim) é um mito urbano
- mais um "aguarde por favor" e não há retenção de cliente que me retenha

quarta-feira, dezembro 04, 2013

Karma

E eis senão quando, apesar das minhas dúvidas existenciais sobre o rumo da minha vida, tudo corria bem (ou pelo menos de forma normal) profissionalmente falando... surge um pequeno revés. Para quem acredita em karma, eu posso muito bem ter sido a sua mais recente vítima, já que os astros parecem ter-se alinhado para eu regressar ao meu anterior local de trabalho... como consultor. A coisa ainda não está confirmada, mas parece que pode ser para durar.

Pontos negativos: vou ter de dividir a minha atenção e foco diário por mais uma tarefa; vou ter de me deslocar diariamente para mais do que um cliente (bye bye €€); vou ter de lidar com algumas pessoas que dispensava (hoje foi o primeiro dia e já pensava em contratar um "hitman" para tirar alguns "obstáculos" do caminho); a expectativa sobre o que eu possa vir (ou não) a fazer é tanta que nem sei muito bem como lidar com isso...

Pontos positivos: se volto, é porque me querem lá (pelo menos alguns); tenho lá bons amigos que tenho certeza gostaram tanto de me rever como eu a eles; independentemente do local, estar lá é sinal que tenho trabalho...

Na tentativa de ver o copo meio cheio em vez de meio vazio, vou tentar focar-me nos pontos positivos, mas espero sinceramente ter a paz interior, discernimento e raciocínio para lidar com isto da melhor forma. Nesta fase também não me apetece começar a chegar a casa todos os dias a esta hora, sobretudo com 3 pessoas que me amam e merecem realmente a minha atenção, à minha espera. Felizmente sei que tenho amigos que me vão ajudar em tudo o que for possível, e sinto também alguma confiança em mim para fazer o que é preciso da melhor forma.

Voltarei em breve para descrever os próximos capítulos...

quinta-feira, novembro 21, 2013

O Que Fazer?

Tenho passado os serões dos últimos dias a prepara uma formação. Algo que já não fazia há uns anos e que, apesar do trabalho que dá, tem em mim um efeito positivo. Percebo que é uma das coisas que gosto de fazer, e percebo o quão fácil é fazer algo difícil, quando se gosta. Um dos dilemas que vivo hoje em dia é não saber ao certo o que gostaria de fazer, nem ter bem a certeza se gosto realmente daquilo que faço. Acho que por vezes é simplesmente uma vontade de mudar. A perspectiva de que algo diferente nos pode fazer sentir melhor e mais realizados. O trabalho de consultor na prática não tem sido muito diferente do que fazia antes. As tarefas inerentes não têm sido propriamente mais entusiasmantes, ainda que eu as encare assim dando-lhes o benefício da dúvida que merecem, no sentido que a médio/longo prazo podem ter um retorno diferente, nem que seja no sentido de realização que podem proporcionar. Mas cá dentro... ah, o bichinho da inquietude e constante desejo de mais continua a roer-me! Alguns dias atrás o meu mentor (sim, agora tenho um mentor) perguntou-me o que eu queria estar a fazer daqui a dois anos. A resposta que me apeteceu dar-lhe foi "não sei", mas a que acabei por dar foi bastante diferente, e um pouco de improviso. A verdade é que eu próprio me faço essa pergunta todos os dias, e nem é preciso pensar num prazo a dois anos para ficar na mesma, não sabendo ao certo a resposta. O que é que eu gostaria de fazer?

terça-feira, novembro 19, 2013

Distracções

Num interregno que faço durante a preparação de uma acção de formação que vou dar esta semana (considerando que são 01h00 e ainda não terminei, está a correr bem...), reflicto um pouco sobre a quantidade de distracções que temos diariamente ao nosso alcance. Nomeadamente, enquanto dava uma voltinha pelo Facebook, verifiquei a quantidade abismal de publicações que por ali surgiram durante o dia de hoje, em detrimento de meia dúzia que lá foi colocada durante o fim-de-semana. Significa isto que, no fim-de-semana, enquanto estamos provavelmente concentrados em fazer coisas que nos dão prazer, a tendência para nos especarmos em frente ao computador a ler e escrever coisas com pouco significado é pouca. Já durante pleno dia de trabalho a conversa é diferente. Não me considero melhor nem pior que os outros mas, talvez por (de)formação profissional de vários anos, diversões como o Facebook são zona interdita para mim durante o horário de trabalho. E muito sinceramente, acho que no mínimo devíamos todos ser mais regrados quanto à utilização desta ferramenta que muito mérito e utilidade tem (se bem utilizada, com conta, peso e medida). Mas o tema deste post são as distracções, e não apenas o Facebook. Há quem se disperse a falar ao telemóvel, enviar mensagens, jogar, ver televisão, etc. A quantidade de objectos de distracção que nos rodeiam hoje em dia, seja em que circunstância for é excessiva, e raras são as vezes que não nos dispersamos com algo que simplesmente não deveria estar ao nosso alcance. O resultado? A falta de produtividade ou eficiência naquilo que nos tínhamos proposto fazer. Quer sejamos trabalhadores, estudantes ou outra coisa qualquer, se interrompemos o que estamos a fazer, sistematicamente, durante o dia, o resultado final não pode ser bom. Recordo-me que quando estudava, muitas vezes optava por sair de casa, e ir para a faculdade, para uma biblioteca ou outro local neutro onde as distracções não existissem ou pelo menos fossem mais reduzidas. Hoje em dia, a facilidade com que as ditas distracções vão atrás de nós, tornam tudo mais difícil. Somos uma cultura com um potencial enorme, dotadas de ferramentas incríveis que nos dão acesso a um mar de informação e fazem com que estejamos sempre contactáveis, mas... o resultado é bem diferente do que esse potencial poderia anunciar. Estando eu próprio, de alguma forma, a "cair" no paradigma da distracção ao escrever neste meu blog quando deveria estar a preparar a minha formação, vou minimizar o estrago dando por terminada a minha publicação de hoje, e voltando ao trabalho (que bem preciso). A reter? Num jogo (profissional, académico, pessoal...) em que as regras mudaram substancialmente nos últimos anos, talvez seja melhor sermos árbitros de nós próprios, para garantir que conseguimos alcançar algumas vitórias. Caso contrário, iremos conseguir pouco mais que alguns empates a 0...

sábado, novembro 16, 2013

Eu Quero Slow (and real) Food!

Faz mais ou menos um ano que atingi o auge... da minha mais baixa forma física de sempre. Lembro-me de fazer um passeio de cerca de 20 kms de bicicleta, durante o qual, mais ou menos a meio, senti estar esgotado fisicamente, e que acabou com um amigo a empurrar-me numa estrada com pouco mais que uma ligeira inclinação. Tomei uma decisão na altura e fiz algo em relação a isso. Passado um ano, carrego cerca de 10 kgs a menos comigo, corro, pedalo (no último mês fiz passeios de bicicleta de 60, 90 e 100 kms) e sinto-me fisicamente bem, como não me sentia há bastante tempo. Resolvida parte do problema (a do exercício físico, praticado agora com regularidade) a outra parte persiste e deparo-me com ela todos os dias. A alimentação. Ultimamente tenho feito um esforço bastante consciente por melhorar a minha alimentação. O problema é que quanto mais me preocupo com este aspecto, mais óbvios se tornam os obstáculos a quem, como eu, queira comer bem no seu dia-a-dia. Por comer bem, entenda-se comer adequadamente (e não muito). Qualquer centro comercial está recheado de restaurantes, onde se pode comer praticamente tudo... menos comida a sério. Pelo menos, que seja decente. Se pensarmos muito rapidamente nos locais que conhecemos, visualizamos McDonalds, Pizza Huts, H3, Woks, etc. Mesmo os supostos saudáveis (Vitaminas, Go Naturals, Capri, etc.) pouco mais oferecem que pratos recheados de carbohidratos com molho para disfarçar a falta de sabor do que vendem. Se pensarmos em cafés ou quiosques onde tomar um simples pequeno almoço, visualizamos folhados, salgados, bolos, doces, etc. Quando nos tentamos afastar dos centros comerciais, frequentamos habitualmente cozinhas temáticas, como restaurantes chineses, pizzarias, mexicanos, rodízios, etc. Certamente que qualquer pessoa que leia este texto se revê facilmente neste ciclo vicioso de facilitismo e frequência de locais que deveriam ser a excepção, e não a regra, da alimentação diária de qualquer pessoa. Obviamente que também conhecemos alguns (ainda que poucos) locais onde se pode comer realmente bem. A dificuldade? Conseguir aceder nessa mesma perspectiva diária e quotidiana a um local que ofereça outro tipo de alimentação. Um local que ofereça alimentação tradicional e saudável, com ingredientes que o nosso organismo conhece geneticamente e sabe processar, e que basicamente são o motivo pelo qual as gerações que nos antecederam não padeceram do mal da obesidade e doenças congéneres. Estou farto desta dificuldade. Não tenho mais paciência para comidas rápidas. Quando como, quero fazê-lo com calma. Comer é importante. Já diziam os antigos que saco vazio não se segura de pé. Pegando nesse velho ditado, digo que também não é enchendo o saco com bolinhas de esferovite que ele se vai segurar. Para mim, pode ser um pratinho de slow (and real) food, faxavor! Procura-se desesperadamente... num local perto de mim!

terça-feira, novembro 12, 2013

6 Meses...

O que dizer desta ausência? Penso que bati um recorde. Foram 6 meses sem escrever, e confesso que já estava a ressacar. Robin Sharma, um tipo que escreve umas coisas giras e que eu gosto de ler/ouvir, tem como uma das suas máximas "keep a journal". Pois, eu não tenho um diário no sentido lato da expressão, mas este cantinho funciona como tal. E a verdade é que quando eu "mantenho este diário" sinto-me sempre muito melhor. E não é a mesma coisa que escrever umas frases no Facebook!

O que aconteceu na minha vida desde a última vez que escrevi? Ora deixa cá ver por onde começar... Ah, já sei! Troquei de carro! Estava na altura de reformar o grande lambão S80 T5, que aparte o consumo exorbitante de gasolina (uns belos 13/100 num dia bom) vai deixar muitas saudades. Um Carro com C maiúsculo que nunca me deixou ficar mal. Ainda oiço o rugir dos 5 cilindros em linha a beber combustível como se fosse água. A substituta é uma bem mais modesta V50 a diesel, que ainda assim se porta bastante bem (e sai bastante mais barata).

Mais coisas? Mmm... Mudei de trabalho. Acho que é uma mudança relevante para ser comentada aqui. Leia-se no entanto que ainda só mudei de trabalho, e não de profissão. Penso que era algo que um dia gostaria de fazer, mas primeiro tenho de descobrir qual a alternativa certa àquilo que faço (o que ainda não descobri). Para já só me ocorrem coisas como viver numa ilha e passar o dia a pescar e apanhar fruta na praia, mas dizem que isso não dá muito dinheiro... Do emprego antigo despedi-me das tarefas menos interessantes, mas fiquei com alguns bons amigos! Para já o que interessa é que mudei de azul para verde, cor que a acompanhar uma mudança deste género só pode ser sinal de esperança (assim espero).

Já agora, e por falar em esperança, ocorre-me assim de repente uma outra novidade digna de nota: o Alex vai quebrar a sina do pai e da mãe, e vai deixar de ser filho único! Penso que também é uma novidade de relevo suficiente para ser aqui relatada. Vai ser um maninho, de seu nome Pedro (tal como o seu irmão mais velho, resolveu mostrar-se na ecografia para que dúvidas sobre o seu género não persistissem). Esta sim é "A" novidade.

Como se pode constatar, não escrevi durante os últimos meses, mas foi por uma boa razão: andei ocupado! A ver se o próximo post não é daqui a outros seis meses, até porque antecipo que agora que a coisa já acalmou um pouco, vou conseguir dar atenção a este blog (novamente) com alguma regularidade. Correndo o risco de estar a escrever para o boneco, despeço-me ainda assim com beijinhos e abraços.


quarta-feira, maio 22, 2013

Mau Tempo, Bons Resultados

Já diz o ditado que Deus escreve direito por linhas tortas, e que quando se fecha uma porta muitas vezes abre-se uma janela. Acho que qualquer uma das máximas anteriores se aplica ao volátil clima que temos vivido nos últimos tempos. Isto porque apesar de o balanço global de estar a chover em pleno mês de Maio ser obviamente mau, para não dizer uma grande merda, há pequenas coisas boas que resultam daí e que devem ser apreciadas pelos mais optimistas. Num destes exercícios de optimismo, acabei por me sentir grato, porque havia já algo que me incomodava há vários dias, cujo fim se deu graças a uma bela de uma chuvada. Refiro-me a uma "novela" com vários episódios, em que um vizinho brincalhão qualquer resolveu fazer do meu carro o seu livro em branco, para escrever a sua história. Novela é um nome exagerado, porque na realidade tudo se passou em três dias, o que corresponde no máximo a uma mini série. Aqui fica o relato:

1º Episódio:
O vizinho brincalhão dirige-se à viatura deste vosso incauto amigo, partindo de imediato para a agressão verbal: "Porco!". Ora se o carro poderia não estar nos seus melhores dias no que diz respeito ao resplendor da sua pintura metalizada, o properietário reserva-se o direito de ainda assim tomar banho, e não ser portanto enquadrável na classa da família animal dos bacorinhos, o que revela uma falta de rigor e até trabalho de investigação, na escrita do autor.

2º Episódio:
Não satisfeito com a agressão verbal inicial ("Porco!"), o autor revela-se agora egocêntrico e intolerante, redigindo uma segunda missiva onde claramente reclama das suas condições de trabalho: "Tenho os dedos sujos!". Não seria no entanto de esperar que o alvo da agressão inicial (eu) se importasse com quaisquer condições de trabalho, ou falta delas, para um autor tão pouco profissional e que de dia para dia revela uma faceta pessoal que muito deixa a desejar.

3º Episódio:
Nesta sua terceira e última missiva, o autor revela já alguma ansiedade, devido à falta de retorno quanto à escrita anterior: "Vê a parte de trás do carro!", suplica ele na superfície do capô, numa última tentativa desesperada de obter qualquer tipo de reacção da parte do proprietário da viatura, alvo de tamanha chacota e falta de respeito (eu). Mantive-me sereno e tentei antecipar se a próxima missiva seria na lateral esquerda ou direita, já que começava a faltar espaço livre para textos adicionais.

4º Episódio:
Numa reviravolta inesperada, choveu. Terminou assim uma mini série que se estava a transformar num filme de terror para mim, que já dificilmente suportava o suspense quanto ao que me esperaria no meu próprio automóvel, no dia seguinte. Estava até a pensar desfazer-me da viatura, tendo observado com algum interesse uma outra publicação literária (sim, eu sei que o meu carro parece a Bertrand...) que entretanto me foi deixada no limpa pára brisas, sugerindo fazer negócio com alguém que desconfio (não sei bem explicar porquê) ser de raça cigana...

Obrigado São Pedro!

domingo, maio 05, 2013

Realização Mesmo Aqui ao Lado

Descobri recentemente um prazer que não fazia ideia poder ter, sobretudo a um alcance tão curto. Correr. Digo "descobrir" porque correr todos nós corremos. Uns correm para o trabalho, outros correm para casa... e alguns poucos felizes afortunados como eu, algures no decorrer da vida, descobrem que é possível correr por gosto. E não me refiro ao chavão de "quem corre por gosto não cansa", que se aplica como metáfora a várias situações do dia-a-dia de muitas pessoas. Refiro-me simplesmente a isso mesmo: correr, por gosto. Imagino que outras pessoas consigam ter o mesmo tipo de prazer e realização com outro tipo de exercício físico, mas este, talvez pela simplicidade, tem o seu quê de especial. Nada mais básico do que uma pessoa fazer aquilo que simplesmente o seu corpo lhe permite, sem necessidade (pelo menos obrigatória) de dispositivos e acessórios. A mim, agrada-me sobretudo o factor libertador da mente de sentir o chão debaixo dos meus pés, nele assentes com uma passada forte, com um rumo e um destino traçado. Naquele momento sou apenas eu, o chão que piso, e o meu destino. Nada mais me passa pela mente... o trabalho fica onde estava, as preocupações também. No final, para além deste período de meditação que o exercício em causa me permite usufruir, tenho o prazer e a realização de me ter proposto fazer algo, e ter chegado ao objectivo final. Parece-me uma metáfora para a vida muito melhor que o chavão do "correr por gosto". Hoje tive o prazer de me reunir a outras tantas pessoas com o mesmo ponto de vista que eu, e fazer 14 kms pela cidade das sete colinas. Muita subida... muita descida... muita alegria e realização no final. Vou tentar repetir sempre que puder e os meus joelhos permitirem.

quarta-feira, abril 24, 2013

Good Mood...

Começo finalmente a colocar as coisas em perspectiva... a ganhar tempo e disposição para mim próprio. O poder que uma simples decisão pode ter no rumo e na vida de uma pessoa é absolutamente impressionante. Muda a nossa forma se ser e estar, e consequentemente muda o nosso próprio dia-a-dia. A combinação explosiva de boa disposição com uma véspera de feriado é mais que suficiente para transformar um dia merdoso num dia bestial. Tudo parece bem, tudo está bem. O feriado vai ser excelente, a sexta-feira será no mínimo boa e o fim-de-semana vai ser bestial, com direito a miminhos dos sogros que é como quem diz ir de viagem para a terra de "não fazer nenhum-2...

Quanto a objectivos próximos: o primeiro (já iniciado) foi o de regressar à incompleta tese do mestrado. Parece no entanto que antes de Julho não posso fazer muita coisa, mas coincidência das coincidências, Julho é o mês do "milagre". Como diria o Paulo Bento, é aguardar com tranquilidade. O segundo: actualizar o meu CV; tentei no outro dia entre as 00h00 e as 02h00 e o resultado não podia obviamente ultrapassar o razoável. Sei que posso dar mais e melhor, e mostrar mais e melhor de mim, por escrito (sobretudo se gosto de escrever, que melhor assunto que eu próprio???). O terceiro (e psicologicamente o mais difícil): começar a estudar a sério... o pendente PMI tem de cá morar, custe o que custar, e já que larguei as notas para o curso, há que aproveitar a oportunidade de certificação! O quarto: ir à luta, mas mesmo, mesmo a sério! Apresentar-me de forma inspiradora a toda e qualquer oportunidade que se adeqúe à minha pessoa e esperar pelo melhor!

Posto o acima exposto, se ainda assim a coisa correr menos bem ou de forma mais lenta, depois de Julho terei sempre umas belas e merecidas férias para esquecer o(s) assunto(s) durante uns tempos, e depois voltar à luta novamente já com baterias recarregadas. Até lá e durante, é só manter a mesma (ou melhor) disposição de hoje. Beijinhos e abraços!

segunda-feira, abril 22, 2013

Um Milagre, em Julho

Apesar de estar a roubar o nome de uma série, é a única expressão que me ocorre pensar neste preciso momento em que a minha vida e futuro ganharam contornos mais definidos. Após um mês de ausência de informação relativamente ao meu pedido, a minha actual situação profissional tem um fim à vista (que como se poderá calcular pelo título e imagem deste post é em Julho), sendo que mais forte do que a palavra "fim", será a palavra "início". Início de quê, poderão questionar-se algumas pessoas mais desocupadas que têm tempo de ler este blog ocasionalmente? Início de outra coisa qualquer, diferente, melhor ou pior... para já não interessa. Interessa-me mais o diferente, porque o igual já cansa. O risco é grande, é verdade, mas o potencial é enorme e não pode ser desperdiçado. Hoje a minha visão tornou-se mais clara, e o meu percurso ganhou uma meta para uma etapa, bem definida. Agora é começar a trabalhar, e muito. É começar a limar arestas de alguns planos e começar a pô-los em prática. É começar a fazer acontecer, já que a ausência de acontecimentos dos últimos tempos se estava a tornar insuportável. É altura de focar a minha atenção nas coisas importantes, e viver. Mais. Melhor. Espero conseguir. Sei que vou conseguir. Para já, sei uma coisa: o mais tardar em Julho, um milagre vai acontecer.

segunda-feira, abril 08, 2013

Recarregar Baterias

Vencida a inércia resultante de uma "onda" menos positiva, regresso à escrita passados uns dias. Acho que deixei recarregar as minhas baterias com um fim de semana de "relax", sobretudo dedicado ao espírito "motard". Primeiro foi uma incursão pelo regresso há muito esperado da FIL motos, denominada este ano Motoshow 2013. Excelente regresso, com direito a três stands em grande: 1º lugar para Yamaha (pela dimensão e show off), 2º lugar (para minha agradável surpresa) para Kawasaki (pela notável presença) e terceiro lugar para a Honda (sobretudo graças aos excelentes novos modelos de 2013). As bancadas com comes e (muitos) bebes, bem como o palco com música ao vivo, foram retoques bem dados a esta feira que nunca devia ter sido interrompida e cujo regresso era bastante desejado. Bastou ver a afluência ao certame. No dia a seguir, voltinha dominical em duas rodas, com partida de Lisboa em direcção à Malveira, seguida de passeio pelas curvas do Bombarral e almoçarada em Rio Maior. As Salinas Naturais de Rio Maior são tudo menos aquilo que eu esperava encontrar em tal localização. Umas surpreendentes salinas numa paisagem invulgar, ainda bastante afastadas do mar, com uma surpreendente configuração de casas em madeira em seu redor com restaurantes, lojas de velharias, etc. Um local mágico, que vale a pena visitar em passeio, de carro ou mota. O franguinho no churrasco e a mousse de chocolate caseira são sem dúvida para repetir! O regresso pelo mesmo caminho foi inevitável (para nova apreciação das curvas), apesar do ritmo imposto por um compincha carinhosamente apelidado de "roda presa", que ao fim de duas semanas de carta resolveu fazer connosco o seu passeio inaugural numa Hayabusa 1300, a uma velocidade em autoestrada nunca superior a 90 kms/h. A minha velhinha e veterana ZZR não fez nada má figura no meio de todos aqueles "canhões", e o balanço final do passeio foi muito positivo. Há algo de libertador em andar de mota, por isso espero que as quedas frequentes me dêem algum descanso, para eu poder apreciar estes momentos sublimes, que vão muito além da condução no trânsito do dia-a-dia...

segunda-feira, abril 01, 2013

Paradoxo da Vida

Por vezes acontecem situações na nossa vida que nos fazem pensar naquilo que andamos cá a fazer. Não falo de pensamentos existenciais ou filosóficos profundos, mas sim de objectivos práticos daquilo em que transformamos a nossa vida. Por vezes acontece pensarmos que andamos a fazer tudo errado. Hoje é um desses dias. Acho que falhei individualmente e que falhei colectivamente na perspectiva da sociedade em que me insiro. Não significa isto que esteja com uma perspectiva derrotista e depressiva da vida, mas simplesmente o meu cérebro reposicionou-se e está direccionado num sentido diferente daquele que estava há dois ou três dias atrás. O falhanço a que me refiro? Pensem no seguinte: passamos actualmente grande parte, ou reformulando, a maior parte da nossa vida a trabalhar (é certo que uns mais, e outros menos). Falando por mim, diria que dispenso algo como 70 a 80% do tempo que passo acordado a trabalhar, sendo que por vezes o meu cérebro arrasta alguns temas que deveriam ficar fechadinhos à chave nestes 80% para os outros 20%, o que só agrava a situação. O objectivo inicial das pessoas que como eu conduzem a sua vida neste sentido, é o de criar condições materiais que cumpram com aquilo que são os requisitos do que consideramos ser uma boa qualidade de vida. Isto passa por ter dinheiro para fazer várias coisas, para adquirir várias coisas ou para ter a segurança de poder subsistir a uma qualquer eventualidade ou acontecimento imprevisto. O engraçado é que este nosso esforço contribui na prática para o oposto. Isto é, ao ocupar 80% ou mais do nosso tempo com trabalho, e não podendo isto ser algo que simplesmente optemos por não fazer neste ou naquele dia, semana ou mês, está criada uma dependência cíclica em que trabalhamos mais e mais, deixando cada vez menos tempo para tudo o resto. Delegamos assim sistematicamente a responsabilidade de criar e educar os nossos filhos em estranhos, que serão pagos com o resultado desse nosso hercúleo esforço. Delegamos assim a responsabilidade de cuidar dos nossos pais ou avós noutros estranhos, que serão igualmente pagos com o resultado do mesmo esforço. E um dia chegará o momento em que nós próprios estaremos fadados ao mesmo destino, quando os nossos filhos seguirem as nossas pisadas e uma vez embrenhados nesta cultura e sociedade esclavagista moderna, fizerem exactamente o mesmo tipo de esforço hercúleo por nós... O triste no que acabo de descrever é que todos percebemos que as coisas são assim. Pais, filhos, netos... todos têm uma consciência resignada deste círculo vicioso sem aparente resultado ou solução à vista. Como não sou melhor nem pior que ninguém, incluo-me a mim próprio nesta sociedade, nesta cultura e neste círculo vicioso. Uma coisa sei no entanto: agora e aqui, tenho uma consciência muito clara disso. Agora e aqui, não sei o que fazer. Gostava que o agora e aqui fossem mais tarde, para eu ter mais tempo para pensar. Gostava de ter pensado nisto antes, porque achei que não pensar nisso faria magicamente com que isso não acontecesse... mas como acredito que as coisas podem ser diferentes, vou pensar nisso a partir de hoje. E se tenho já uma lista que comecei a escrever há alguns meses, com várias coisas que quero e vou fazer, esta passará a ser uma delas. Comecei este texto a falar de falhanço, mas algumas das mentes mais iluminadas que conheço actualmente, dizem em coro que os falhanços não existem, existem apenas resultados. E se o resultado das coisas que fazemos não é o que queremos, só temos de fazer coisas diferentes para obter resultados diferentes.

Sei que não me lêem, mas este texto deve ser interpretado como um beijo e um abraço muito especial para os meus queridos avós, que vivem o momento mais duro e difícil de todas as suas vidas, contando apenas um com o outro e com a ajuda possível que nós, filhos e netos, lhes podemos dar e que é infinitamente pequena comparada com aquilo que nos foi dado durante uma vida inteira. Deve ser igualmente interpretado como um beijo e um abraço (e, muito importante, NUNCA como uma crítica!) para os restantes filhos e netos, que tal como eu, do fundo do seu coração, estão realmente a dar o seu melhor... ainda que nos pareça infinitamente insuficiente.

Avô, avó... amo-vos muito.

terça-feira, março 26, 2013

Encruzilhada - A Decisão.

Oficializada ontem!

domingo, março 24, 2013

Encruzilhada - As Opções...

A um dia da decisão...

sábado, março 23, 2013

Encruzilhada - A Meditação...

O fim de semana vai ser assim...

sexta-feira, março 22, 2013

Usados e Abusados...

Volta e meia dou uma vista de olhos pelo Standvirtual e OLX (passo a publicidade) para espreitar eventuais negócios interessantes ou pechinchas que possam aparecer (sim, que eu tenho um jeito do caraças para escolher carros usados). Se este é o objectivo principal, acabo por me perder um pouco na linguística utilizada por grande parte dos vendedores. É que fico verdadeiramente fascinado com a criatividade dos autores de textos dignos de verdadeiras obras literárias, e acabo por perder horas a admirar os diferentes estilos de prosa aplicados. Não acreditam? Acham ridículo referir-me a tal coisa de tal forma? Então passo a demonstrar aquilo a que me refiro.

Exemplo: Opel Corsa
Texto (ipsis verbis): "carro de retoma vendo conforme esta com espeção até 2014 motor muito bom pintura razuavel pequena mossa no capom entriores bons apenas banco do condutor un bacado descusido o carro esta muito bom desafio a ver o carro".

Ignorando a pontuação (ou falta dela) ocorre-me comentar:
1. O que significa "vendo conforme esta"? Será que existem outras pessoas que vendem os carros, mas indicando que no momento da compra o veículo estará cor-de-rosa em vez de preto? Ou que o motor será a diesel em vez de gasolina?
2. O que é uma "espeção"? Admiro o esforço pela tentativa de adesão ao acordo ortográfico, com a retirada estratégica do "c" antes do "ç", mas a palavra "espeção" em si, o que significa?
3. O que é uma pintura "razuavel"?
4. O que é um "capom"?
5. O que são "entriores"?
6. O que é um banco um "bacado descusido"?
7. Com isto tudo, realmente será um desafio ver o carro, porque pela descrição textual, é um bocado difícil perceber o estado em que o mesmo se encontra.

Outro exemplo: Honda CRX
Texto (ipsis verbis): "bom para recuperar com decumentos mudança de nome na hora nao aceito trocas sem jantes".

Uma vez mais, ignorando a pontuação:
1. O que significa "com decumentos"?
2. O que significa "não aceito trocas sem jantes"?
3. "Bom para recuperar" parece-me um sinónimo de "o carro 'tá todo lixado".

Terceiro exemplo: Lancia Y10
Texto (ipsis verbis): "lancia y elefantino,esta a andar, descobri que tem a junta da cabeça queimada,anda normal so aquece se falta agua ou se fica naquele para aranca. preço é o minimo, nao faço por menos, por favor so interesados, nao aceito proposta".

Comentários:
1. "Descobri que tem a junta da cabeça queimada": ora aí está uma coisa importante de se saber, sobretudo porque a temperatura no vermelho e o fumo a sair do motor podem ser indicadores de que algo está mal...
2. "So aquece se falta agua ou se fica naquele para aranca": efectivamente, o consumo de água num carro com a junta da cabeça queimada é frequente... o que acontece numa situação de "aranca" não sei dizer.
3. "Por favor so interesados": assumindo que "interesados" significa "interessados", então é realmente importante distinguir o trigo do joio, e avisar as pessoas a quem o negócio não interessa, que não devem ligar ao senhor.
4. "Não aceito proposta": ora aí está uma coisa importante para quem está a vender algo - não aceitar propostas. Até porque torna tudo muito mais fácil.

Quarto exemplo: Fiat Punto
Texto (ipsis verbis): "Boas vendo fiat punto 55. O carro esta a precisar de levar ponteira de transmicao do lado direto e junta das valvulas e ten umas pequenas mocas...para mais infurmacoes disponha... Mando mais fotos por mail".

Comentários:
1. O que é uma "transmicao"? E qual é o lado "direto" de um carro?
2. O que significa "ten umas pequenas mocas"? Serão dez mocas de Rio Maior? Estarão no porta luvas?
3. O que são "infurmacoes"?

Quinto e último exemplo, que apelidei carinhosamente de "o anúncio disléxico": Opel Corsa
Texto (ipsis veris): "o Revizao Pois DE Esta Parado JA Uns Tem A Que 6MESES,Ser Subistituida Bomba Oleo A DE".

Comentários:
1. Hã?

quinta-feira, março 21, 2013

Encruzilhada

As grandes decisões nunca são fáceis. Isto porque as apelidamos de "grandes", e normalmente porque quanto "maior" for o apelido, "maior" é o risco que lhes associamos e maior é o receio de tomar essa decisão. Muito concretamente e sem qualquer espécie de mistério, o meu dilema actual passa por aproveitar uma oportunidade que a minha entidade empregadora me dá, de deixar o meu trabalho com algumas regalias e contrapartidas interessantes, versus o "downside" de não ter para já outro emprego à vista no qual me "apoiar". A sociedade de hoje em dia conspira para nos incutir o medo da mudança, mas ao mesmo tempo que sinto vontade de arriscar, e alguma confiança em como me poderia dar bem, imagino que poderia também simplesmente continuar o meu exercício de mudar de atitude diariamente em relação ao que faço, encarar simplesmente a coisa de forma mais positiva, e viver bem mesmo assim. Por outro lado, acontecimentos e pequenas ocorrências e pessoas fazem-me questionar quase todos os dias o que raio estou a fazer e em que direcção estou a caminhar. É mau quando sentimos que não sabemos isto. Acho que sob essa perspectiva é mais feliz um tipo a virar hamburgers no restaurante de "fast food" do que alguém que procure um significado e objectivo mais concreto e elaborado daquilo que faz no seu dia-a-dia. A sensação de fazermos parte da banda que toca, sem perceber se o barco está a afundar ou não, também não é das melhores... Enfim, só sei que se nos próximos dois ou três dias me aparecesse uma oportunidade de trabalho minimamente interessante, a minha decisão estaria provavelmente tomada. No entanto o facto de ter de fazer equilíbrio sem rede, faz-me ver as coisas de maneira diferente, sobretudo quando outros tantos objectivos individuais (e alguns outros colectivos) se envolvem nesta amálgama de pensamentos, conjecturas e dúvidas. Resta-me o conforto de poder sempre recorrer a uma moeda e fazer o jogo da cara ou coroa. Antes de chegar a esse ponto, no entanto, optarei por um fim de semana de "retiro espiritual" e meditação sobre o assunto. Provavelmente na segunda-feira decidirei o sim ou sopas sobre esta matéria, mas acredito que qualquer que seja a minha decisão, as dúvidas e incertezas sobre o futuro permanecerão. Se calhar temos todos de aprender a viver mesmo assim, e pronto.

segunda-feira, março 18, 2013

Pai

Sei que hoje é véspera, mas apetece-me escrever agora sobre o meu Pai...

Pai, acontece-me frequentemente pensar em ti, naquilo que foste e tens sido ao longo destes meus 32 anos, durante os quais por cá tenho andado. Penso nos vários momentos importantes e marcantes ao longo da minha vida, e em simultâneo recordo breves momentos ou curtos instantes em que me fizeste sentir imensamente feliz. Sinto-me um felizardo por esse sentimento positivo ser uma constante quando faço este meu exercício voluntário ou involuntário de memória. Penso na quantidade de pessoas que não tem a mesma felicidade de poder recordar e interagir diariamente com o seu Pai da mesma forma que eu. Mas imagino que isso seja porque na realidade só têm um pai, enquanto que eu tenho um Pai. É diferente. Eu sei que tenho um Pai, não simplesmente porque me fizeste, mas porque fizeste de mim o que sou hoje. Eu sei que tenho um Pai, porque vejo nos teus olhos o orgulho e satisfação quando me dou bem, e o carinho, compreensão e compaixão quando me dou mal. Eu sei que tenho um Pai porque és capaz de me agarrar e elevar bem alto quando atinjo os meus objectivos, mas também porque és capaz de me puxar do fundo do buraco quando caio ao tentar alcançá-los. Eu sei que tenho um Pai porque quando nada nem ninguém mais me resta, simplesmente existes e estás no local e na hora onde eu preciso que estejas. Sei muito bem que nem tu nem eu somos perfeitos individualmente, mas como Pai e Filho, sinto que somos. Tu e eu temos as nossas idiossincrasias, as nossas pancadas, os nossos amuos, até mesmo alguns momentos em que não pensamos da mesma forma ou nem sequer no entendemos. No entanto, o entendimento verdadeiro é implícito, e não obriga a uma concordância. Porque concordamos em ser diferentes, em ser como somos, e em nos aceitarmos um ao outro assim mesmo. Quando tudo no mundo falhar, isto continuará a ser assim. Quando a harmonia parecer não existir, bastará um olhar entre nós parar nos percebermos e entendermos, e um alinhamento cósmico dar-nos-á de novo esperança e fôlego para prosseguir. Espero que confies em mim da mesma forma que eu confio em ti. Espero que contes comigo da mesma forma que eu conto contigo. Espero que gostes de mim da mesma forma que eu gosto de ti. Se assim for, saberei que independentemente de tudo o resto és feliz, porque a mim isso chega-me. Um beijo e um abraço muito apertado para ti, Pai. Espero ser para ti também um Filho, e não apenas um filho.

sexta-feira, março 15, 2013

Ai, Caneco...

Segurem-me... senão eu vou lá!

quarta-feira, março 13, 2013

Quero Voltar Para a Índia!

Três dias após o meu regresso, só penso no quanto me sentia bem na Índia. Se por um lado estou feliz por estar de volta, no seio da minha família e amigos, as dificuldades e problemas com que me deparava no meu dia-a-dia de trabalho em Pune eram situações práticas e - mal ou bem - resolúveis. Por cá, tudo está pior do que eu deixei. A insatisfação generalizada e a moral em baixo das pessoas com quem trabalho... a contínua falta de liderança, caminho, sentido e estratégia que cada vez se torna mais óbvia... a chefia baseada no grito e na falta de respeito... tudo parece agora ampliado e demasiado negativo para que possa ser minimamente tolerável (pelo menos por muito mais tempo). Sinto que a qualquer momento sou capaz de explodir e descarregar a acumulação da insatisfação e descontentamento que há em mim. Já pensei para comigo escrever uma carta a quem mais contribui para esta minha insatisfação. Algo pensado, com tempo, onde poderia expor e detalhar exactamente o que considero errado, e tentar até talvez (muito provavelmente em vão) sugerir caminhos alternativos. Depois, um dia, quando o descontentamento e instatisfação se tornarem de tal forma insuportáveis, daria a conhecer essa carta como um desabafo final antes de dar o derradeiro passo em direcção ao abismo. Seria certamente um sentimento, no mínimo, libertador. Mas por enquanto, e durante o tempo que a minha "mariquice" durar, por cá continuarei a aturar malucos, contando pelo meio com umas recargas de boa disposição dos amigos e colegas que apesar de tudo fazem o meu dia parecer menos difícil, e com a expectativa diária do regresso a casa para ver quem mais conta no meio disto tudo. Desculpem lá qualquer coisinha, mas hoje precisava mesmo de desabafar em qualquer lado... calhou ser aqui, e convosco (julgavam que era só ler coisas giras, não?). Abraço a todos!

terça-feira, março 12, 2013

Pune - Diário de Bordo - Dia 17

Se no último dia em que na prática ainda estive em Pune, não fui capaz de escrever imediatamente após o regresso, aproveito agora o momento em que com algumas forças já recuperadas, consigo finalmente fazer o capítulo final desta aventura. O dia 16 não teve um fim e o dia 17 não teve um princípio. Fundiram-se como se de um só momento se tratassem, e os primeiros minutos do dia foram de espera em relação à partida agendada para as 5h30 da manhã. Últimos preparativos, arrumações, leitura, escrita e muita espera. Chegada a hora de deixar o hotel, um pequeno e único percalço desde que cheguei, com a conta apresentada maior do que o suposto (o pagamento antecipado da estadia não parecia estar registado). Esclarecido em menos de dois minutos, deu direito a mais um desconto e toca a seguir viagem para o aeroporto, que já se fazia cedo.

No aeroporto, espera. Primeiro as medidas de segurança, excessivas. Militares armados até aos dentes a perguntarem onde vamos, porque vamos e o que pretendemos. Segurança do aeroporto a obrigar toda a gente a desfazer malas, mochilas e sacos de viagem, tirando tudo para fora, explicando o que cada objecto estranho ou invulgar é, etc. etc. etc. Voltar a fazer a mala, mochila ou saco, e seguir para o obstáculo seguinte. Mais espera, até entrar no avião. Depois de entrar no avião, finalmente algum conforto (obrigado Lufthansa por tornarem minimamente cómoda uma viagem de 8 horas, mesmo para quem vai em classe económica). Filmes, séries, livros e nenhum descanso para quem - como eu - não consegue dormir em aviões, mesmo em viagens de longo curso. Uma escala técnica a mais do que o previsto, em Bucarest, fazendo uma viagem de 8 horas passar a demorar 10 horas.

Mudada a tripulação, finalmente rumo a Frankfurt, onde se andam literalmente quilómetros (a pé e de metro) até chegar à porta de embarque indicada. Durante a espera para o voo de ligação a Lisboa, surgem os primeiros sinais de Portugal. Eis que o voo da TAP se atrasa. Depois do atraso, a estranha pergunta nos altifalantes, questionando quem não se importaria de viajar noutro voo
às 19h. Quando questionados porquê, "de momento é só uma pergunta"... A intranquilidade surge e fica toda a gente de pé em frente à porta de embarque, mesmo sem esta estar ainda aberta... Finalmente abre, com quase uma hora de atraso. Entrada no avião da Star Alliance, sem vestígio nenhum dos confortos do voo da Lufthansa, e com membros da tripulação (de um voo internacional) que não sabem falar inglês. Definitivamente, sinais de Portugal. Descolagem e aterragem más (pelo menos evitaram as tradicionais salvas de palmas). Acabei de ler o meu livro.

Depois de aterrar, mais sinais de Portugal. Demora nos tapetes das bagagens e um cadeado rebentado. Felizmente a mala não aparentava ter sido aberta, e nada faltava no interior. Apesar do anteriormente mencionado, a minha boa disposição mantinha-se com a expectativa do reencontro. A expectativa foi largamente ultrapassada. A alegria indisfarçável do meu filho de 3 anos, quando se agarrou ao meu pescoço, foi muito superior a tudo o que pudesse imaginar, deixando-me emocionado até agora. Trouxe-lhe a prenda mais engraçada de todas: um tuctuc de brincar! O reencontro com quem me esperava foi tudo o que eu próprio esperava, e muito mais. Esta viagem foi feita por mim, de várias formas, em vários sentidos, com várias pessoas. Só posso sentir-me grato por tudo, desde as aventuras que vivi, o orgulho no que fiz, as pessoas que conheci, os sítios que visitei e até os pequenos grandes desconfortos das viagens de ida e volta. Obrigado a todos por me acompanharem. Desculpem o texto menos bem conseguido, mas é porque o escrevo já com alguma saudade e nostalgia.

The End

sábado, março 09, 2013

Pune - Diário de Bordo - Dia 16

Acordei mais cedo do que precisava, mas depois de um sono bem dormido e recuperador do dia anterior (estava a precisar). Fiz tudo calmamente e de forma descontraída, e deixei-me ser mimado pelos funcionários do hotel durante o pequeno almoço, que sabendo da minha partida me resolveram presentear com umas panquecas cheias de coisas boas como chocolate, banana, mel, açúcar em pó, doce de frutos silvestres e chantili. Depois da frutinha do costume e de me lambuzar todo com esta bomba calórica, estava pronto para enfrentar a minha manhã, combinada de véspera com o prestável Sayant. O interesse e antecipação só não era maior porque devo ser o único português no mundo que não sabe regatear, talvez porque o meu nível de paciência para fazer compras é muito reduzido. Ainda assim, achei que passadas duas semanas, era altura de sair mais uma vez da minha zona de conforto e meter mãos à obra.

Já com os meus objectivos mais ou menos traçados, lá deixei o hotel (desta vez sem ser de tuctuc) com o Sayant, em direcção à MG Road (não me recordo se já expliquei anteriormente que MG se refere a Mahatma Gandhi). Antes de nos dirigirmos ao nosso destino, e tal como tinha dito no dia anterior, fez questão de me levar a sua casa, onde vive com a mãe, o irmão, a esposa e os seus dois filhos. Foi emocionante ver uma família inteira receber na sua casa um perfeito desconhecido, com alguns dos maiores sorrisos que já vi. Os filhos dele pareciam estar cheios de curiosidade em observar aquela estranha criatura (eu) que ali estava à sua frente, e não deixaram de esboçar um sorriso durante o tempo todo que ali permaneci. Explicou-me que a casa onde mora é um anexo de uma casa principal construída pelos ingleses durante a sua ocupação, da qual toma conta para o seu proprietário que só visita o país uma vez por ano. Percebi que acumula vários trabalhos, uma vez que segundo me explicou, o seu salário mensal como condutor são cerca de 6000 rupias (não chega a 100 euros). Ainda não tinha acabado de perguntar se podia tirar uma fotografia com ele e com a família e já tinha reunido a maioria do clã no quintal, para que eu pudesse guardar esta recordação.

De volta à estrada, pelo caminho cometi o único erro do dia. O Sayant parou numa loja onde me deixou sozinho por alguns minutos, enquanto foi estacionar o carro, e eu comecei logo a comprar algumas coisas. Saí da loja muito contente porque tinha regateado e conseguido baixar o preço inicial quase para metade, mas ele explicou-me que o objectivo era só eu ver os preços para ter uma base de negociação nas lojas onde realmente devia fazer as compras, sendo que ali era tudo mais caro. O meu orgulho nos "belos" negócios que tinha feito transformou-se de imediato em frustração, e senti-me muito estúpido por ter gasto dinheiro desnecessariamente. O resto da manhã correu no entanto de melhor feição, e consegui fazer alguns bons negócios. Os tamanhos de roupa foram realmente um problema, ou porque não existia muita variedade (ex.: dois tamanhos apenas, para pessoas normais e gordas), ou porque as medidas não batem certo (ex.: a roupa de uma criança de 3 anos de aqui, devia servir ao meu filho quando ele tinha 1 ou 2...). Ter ido previamente tirar as medidas à mulher do Sayant também não ajudou... Enfim, se for necessário algum trabalho posterior de costura, seja! Em nenhum dos sítios onde fui, felizmente, foram muito chatos, pelo que consegui manter a minha paciência e tranquilidade até ao fim e creio ter comprado tudo o que queria (e algumas coisas que não queria). Senti-me no entanto um pouco desconfortável, porque o Sayant andou comigo pelas ruas durante toda a manhã, vestido de uniforme, não me deixando carregar nenhum saco das minhas compras, o que me fez sentir um bocado "colonialista". Ainda assim, só lhe tenho a agradecer, uma vez que fez muito mais do que era a sua obrigação.

Já de volta ao hotel, despedi-me do Sayant dando-lhe o que considerei ser uma boa gratificação. Agradeceu-me e partiu, uma vez que o chefe já o tinha convocado para ir até Mumbai (ou Bombaim) durante a tarde. Mais tarde respondeu a uma SMS que lhe enviei como agradecimento, da seguinte forma: "sir thanx a lot u appreciate my service i will be greatfull to serve u better n its my pleasure sir once again thanx for ur appreciation. thank you verymuch sir". Entrei no hotel, e depois de descarregar a tralha no quarto, fui almoçar à beira da piscina, gozando por uma última vez o calor seco que aqui se sente e a frescura de da sombra na esplanada. Vários funcionários fizeram questão de se vir despedir de mim, e um deles - Rahul - que já me contactou no Facebook, pediu para tirarmos uma fotografia juntos. Assim fiz, com a promessa que a publicarei e manteremos contacto durante a aventura que ele próprio vai seguir, uma vez que está a acabar o seu mestrado e daqui a um mês ou dois vai trabalhar para a Nova Zelândia, em busca de melhores condições de vida. Foi a pessoa que me deu as dicas mais úteis enquanto estive por aqui, e que mais se esforçou para que a minha experiência gastronómica local durante os jantares fosse positiva. No final quando pedi a conta, explicou-me que era por conta do hotel. Agradeci, e fui até ao meu quarto, para começar a fazer a minha mala.

Depois da mala feita e após algum descanso e leitura, fui malhar um bocadinho para ir mais "macio" para casa. Quando saí do ginásio vi que o sol se estava quase a por, então tomei uma banhoca rápida e fui apreciar pela última vez a vista privilegiada do por-do-sol em Pune, com as muitas águias a rasar literalmente a minha cabeça, e com uma Kingfisher bem fresquinha à minha frente. Assim que entrei no "lounge", tive uma recepção quase em coro de todos os funcionários "Hey! Mr. Marco!". Troquei uns dedos de conversa, bebi a minha cerveja acompanhada dos aperitivos (extremamente) picantes e prometi voltar mais tarde para me despedir (e eventualmente beber outra Kingfisher), o que fazer agora mesmo que terminei de jantar. Vou depois descansar mais um bocado durante os momentos que antecedem uma penosa viagem de um total de cerca de 15 horas, com paragem em Bucareste e Frankfurt, antes de chegar a casa. O meu próximo post já será feito a partir de Portugal. Espero que aqueles que por aqui foram acompanhando a minha pequena aventura tenham conseguido viver um bocadinho que seja do que eu próprio vivi por cá. Já terá certamente valido a pena perderem alguns minutos a ler as baboseiras que fui escrevendo. Beijinhos, abraços, e até ao meu regresso!

sexta-feira, março 08, 2013

Pune - Diário de Bordo - Dia 15

Último dia (de trabalho) aqui em Pune, e saí do escritório já com uma estranha sensação de nostalgia. Toda a gente teve a atenção de se vir despedir de mim. Até mesmo durante a minha estadia houve pessoas que, já as conhecendo de outros projectos enquanto estiveram em Portugal, se deram ao trabalho de vir ter comigo só para dizer olá. Posso dizer que me senti realmente bem recebido, e sinto que as pessoas com quem trabalhei gostariam sinceramente que ficasse mais algum tempo, o que sabe sempre bem. Foi o que valeu, num dia que graças à inaptidão dos níveis de chefia superiores da organização em que me enquadro, foi sem dúvidas o pior que aqui passei. Valeu no final o bom humor do meu chefe para me por na linha, e a despedida mais do que amistosa do pessoal todo com quem tive o prazer de trabalhar durante as últimas duas semanas. Tive direito até a um sentido aperto de... pescoço, imediatamente antes da despedida!

De regresso ao hotel, combinei os preparativos com o prestável Sayant para as voltinhas do dia de amanhã. Ficou mais do que satisfeito por eu ter feito o pedido para ser ele o condutor designado. Expliquei-lhe que gostaria de comprar algumas coisas para levar para a minha mulher e o meu filho. Sugeriu-me oferecer um punjabi, o que me pareceu uma boa ideia. Mas disse-me que era imperativo eu saber o tamanho que devia comprar. Devido a possíveis diferenças das unidades métricas entre países, disse que me iria levar a casa dele, para eu ver o tamanho da sua esposa, e que depois faria o comparativo a partir daí! Disse-lhe que não era necessário, que sabia o tamanho a comprar, mas ele insistiu. Resultado, amanhã vou tirar as medidas à mulher do Sayant (isto dito assim soa um bocado à trolha). Estou para ver como vai correr isto!

Depois de um dia que se dividiu entre o especial (pelos motivos da despedida) e o ranhoso (pelos motivos de quem manda não saber mandar) resolvi que era altura de me presentear pelo meu excelente trabalho a aturar malucos. Como tal, fui jantar ao "lounge" e pedi o que de melhor comi até agora: repeti o Pomfret Tandoori, acompanhado de um Onion Naan e regado com uma Hoegaarden. No fim, para rematar, bebi uma caipiroska (depois de me garantirem que o gelo utilizado era purificado). Se amanhã estiver a cagar fininho, é porque era mentira, mas que soube muito bem, soube. E assim termino o meu dia com a rotina da escrita, na expectativa do dia de amanhã, que será o meu último dia em Pune.

PS: como hoje é dia da mulher, deixo um beijinho especial a todas as que me possam ler, e um em particular para a que me lê mesmo quando não escrevo.

quinta-feira, março 07, 2013

Pune - Diário de Bordo - Dia 14

"Are you happy with me, sir?", perguntava-me hoje o Sayant, acerca da sua prestação enquanto motorista. "I am very happy with you.", respondi-lhe, enquanto ele rasgava um sorriso maior do que o seu bigode pontiagudo. E foi assim que fez a introdução para me dizer que se eu quisesse ir fazer umas compras antes de ir embora, podia pedir à empresa que lhe atribuísse essa tarefa, no próximo sábado. Concordei, até porque vai saber bem dispensar os tuctucs e as motorizadas no meu último dia por aqui. Por falar em motorizadas, para além de só existirem aqui motas de cilindrada baixa (100cc, 150cc) praticamente nenhum modelo me é familiar. Como tal, perguntei ao Sayant que marca/modelo tinha e respondeu-me: uma "Hero Honda Passion Pro", igual à da imagem, e aparentemente uma das motas mais comuns cá do sítio. As motos de cilindrada mais elevada são raras, e não vão além dos 250cc. Existem depois alguns modelos mais a dar para "chopper" que são de uma marca local chamada "Royal Enfield".

No trabalho tudo vai relativamente bem, mas a andar muito devagarinho. Acho que enquanto estou por aqui estou meio abstraído do facto de, o progresso que devia ter sido atingido e que era um dos motivos da minha viagem, estar longe de ser alcançado. Quando regressar certamente vou sofrer um bocado. Mas como se costuma dizer, enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. E ainda: bater não batem, ralhar não dói. Por isso, quando chegar a Lisboa logo lido com a situação. Agora resta-me apenas mais um dia por aqui, e vou dar o meu melhor para o fazer render ao máximo, como aliás tenho feito sempre. O resto, que se lixe. Amanhã vou tentar convencer os meus colegas a tirar umas fotografias de grupo, já que foram a minha "família" por estas bandas, e acolheram-me muito bem. Espero um dia poder retribuir-lhes a forma como me trataram e receberam.

No caminho de volta ao hotel, aconteceu hoje um episódio caricato. No meio da estrada agrícola que faz parte do atalho que costumo percorrer, um tractor estava parado, impossibilitando a passagem de carros em qualquer sentido. Há uns dias o Sayant tinha-me explicado que as pessoas que vivem nas quintas à beira daquela estrada, não gostam que os carros ali passem, e que se puderem fazer algo para lhes dificultar a vida, não hesitam. Parecia ser o caso. O tipo do tractor não parecia minimamente preocupado com o facto de estar a parar o trânsito há uns bons 15 minutos, sem razão aparente. De repente o tipo que estava no carro à minha frente sai, agarra num punhado de canas de açúcar que o tractor transportava e começa a agredir violentamente o condutor do tractor! O tipo tenta-se defender como pode, mas sem sucesso, e arranca de forma desgovernada, saindo finalmente da frente e fazendo uma razia ao meu carro. Problema resolvido. Seguimos viagem. Mais à frente, tentei tirar uma foto (que conforme se vê ficou com qualidade 3D) a um templo que tem estado sempre iluminado à noite, nos últimos três dias, devido a uma qualquer celebração que ali se faz. O Sayant explicou-me que junto à ponte onde aquele templo se encontra, existe também um local onde, quando alguém morre, fazem uma espécie de velório/funeral. Levam para ali o corpo, junto ao rio, e deitam-lhe fogo. Depois as pessoas que assistem, cortam bocados do seu cabelo, que ali depositam como uma oferta. Não consegui deixar de ficar pasmado com a descrição que fez, pensando que nos dias de hoje, só imaginaria ver algo semelhante num filme do Indiana Jones...

PS: já que falei em motas neste post, acabei de ver um email que me enviou o tipo da oficina onde deixei a minha querida ZZR, que me encarreguei de escavacar na segunda circular antes de me vir embora. Diz assim o senhor: "envio-lhe fotos da sua mota que está novamente nova". Além de apreciar o "novamente nova", entretive-me a ver o álbum com umas 10 fotografias que me enviou, mostrando a qualidade do trabalho. Mal posso esperar para lhe voltar a por as unhas em cima! Estou capaz no entanto de lhe pedir para acrescentar uns rodízios...

quarta-feira, março 06, 2013

Pune - Diário de Bordo - Dia 13


Mais um dia que passa, e agora já começo a sentir a contagem decrescente para o meu regresso. Estou dividido algures no meio do prazer que tenho sentido em estar aqui, a fazer aquilo que tenho feito (apesar de todas as dificuldades que sinto diariamente, e que traduzem um pouco o que a equipa passa por aqui), em conhecer as pessoas que conheci, e a saudade enorme que tenho de casa, dos meus amigos e sobretudo da minha família. Por um lado gostava de ficar mais algum tempo, poder ajudar e participar em algo cujo resultado do nosso esforço é visível, palpável. Por outro lado estou já mentalizado para rever as pessoas que mais gosto em breve, e egoisticamente não me apetece abdicar disso. Por mais interessante ou fascinante que seja um país como este, seja lá porque motivo for, a sensação de voltar a casa é sempre muito boa (pelo menos para mim).

Não há um dia que passe que não veja uma pequena coisa que me desperte a atenção. O próprio percurso para o trabalho que tantas vezes amaldiçoei antecipadamente e sem conhecimento de causa, antes de vir para cá, por saber que representaria uma larga fatia do meu tempo, revela-se uma descoberta de rostos, pessoas, costumes, dificuldades, etc. Não deixo de me admirar quando vejo as pessoas a dirigirem-se ao único sítio num espaço de hectares, onde existe água potável, para se abastecerem eventualmente para o dia inteiro. Não deixo de me admirar quando vejo uma mãe ou um pai dar banho ao seu filho pequeno numa bacia, à porta de sua casa. Não deixo de me admirar com as crianças a brincarem alegremente descalças e esfarrapadas, no meio da rua. Não deixo de me admirar com este país tão diferente, com tantos problemas e dificuldades, em que aparentemente as pessoas não teriam grande motivo para serem felizes, mas onde paradigmaticamente enfrentam o dia com um sorriso no rosto e com a determinação de quem segue algum caminho (não sei bem qual, nem se eles próprios sabem).

Nas conversas que tenho, as mais simples e pequenas coisas ou costumes e tradições, são as maiores diferenças possíveis entre culturas. Hoje, por exemplo, o prestável Sayant começou a falar da família dele, e a certa altura perguntou-me se o meu casamento tinha sido "arranjado". Respondi-lhe que não, e quando lhe disse que em Portugal actualmente isso já não existia, olhou-me como se fosse um extra terrestre. Na Índia hoje em dia cerca de 80% dos casamentos ainda são arranjados pelos pais, tal como foi o caso dele. O que é certo é que quem o houve falar, não detecta qualquer ressentimento ou problema em relação a isso, e fica com a sensação de que gosta realmente da mulher. Durante a viagem de regresso estava todo satisfeito porque lhe ia fazer uma surpresa: como ela tinha o telemóvel avariado, comprou-lhe um novo que fez questão de me mostrar. Era do tamanho de um porta-chaves, mas segundo ele tinha todas as funcionalidades possíveis e imaginárias, pelo que ela ficaria muito contente. A sensação que tenho é que aqui ainda se vive muito das pequenas coisas, e como disse uma vez Pepe Mujica, presidente do Uruguai: "pobre não é aquele que tem pouco, mas sim aquele que necessita infinitamente muito". Não estou no Uruguai, mas na Índia esta máxima parece-me mais do que aplicável.

terça-feira, março 05, 2013

Pune - Diário de Bordo - Dia 12

Se ontem de manhã me vieram chamar enquanto tomava o pequeno almoço, para me dizer que o substituto do Mr. Sushant e do Gaikwad estava à minha espera, hoje ligaram-me para o quarto, ainda estava eu na casa de banho... Como ainda era cedo, desci calmamente para tomar o pequeno almoço, e depois então dirigi-me ao meu transporte. Desta feita já consegui cumprimentar a minha nova companhia matinal, o prestável Sayant, ainda que com alguma desconfiança devido à situação do dia anterior. Lá tive mais uma hora de conversa (confesso que às vezes já sinto falta do silêncio do Mr. Sushant, mas não se pode ter tudo), durante a qual aproveitei para perguntar se, no regresso ao final do dia, me poderia deixar num dos restaurantes que me tinha mostrado na MG Road. Disse logo que sim e começou-me a fazer perguntas sobre as minhas preferências em termos de comida, para me fazer uma recomendação. Pelo caminho vi um enorme camião de transporte de cana de açúcar capotado à beira da estrada agrícola do atalho que costumamos percorrer. Aparentemente saltou uma roda e o carro tinha-se virado. Várias pessoas à volta encarregavam-se de recolher as canas e colocá-las num tractor.

Chegado ao escritório, começou a rotina do costume. Trabalho produtivo e sem stress durante a manhã, conference calls e azáfama durante a tarde e frustração geral durante o dia inteiro. Excepção do dia: o meu chefe deu-me uma "palmadinha nas costas" que é como quem diz um "well done". Apesar do meu trabalho não resultar em praticamente nada, vi o meu esforço ser louvado. Também o pessoal aqui parece gostar de mim, já que todos me estão a pedir para ficar mais uma semana. Menos mal... mas não vou ficar. E para voltar terei de assegurar primeiro algum planeamento e suporte à minha estadia. Para "encher chouriços", fico em Lisboa. Durante o almoço de hoje, sem me aperceber, dei nas vistas. Desci com os meus colegas, e sem lhes perguntar ou dizer nada, dirigi-me a um balcão e pedi um já conhecido Veg Thali, que me foi apresentado pelo meu colega Vinod. Sentei-me com eles e olharam-me todos surpreendidos a perguntar se eu já tinha comido aquilo e se gostava, uma vez que era bastante picante. Disse-lhes que sim, expliquei que não estava maluco, e de seguida quiseram tirar uma fotografia minha a comer a minha refeição. Acedi. Mandaram-na depois para os meus colegas em Lisboa, com o título: "Marco enjoying (mostly) indian thali".

Ao final do dia, já de regresso, a preocupação do Sayant mantinha-se, relativamente ao restaurante a que me iria levar. Disse-lhe que não era esquisito, que podia comer vegetariano ou não vegetariano, que não se preocupasse e me levasse ao que achasse melhor. De repente perguntou-me como é que eu faria para regressar ao hotel, ao que respondi despreocupadamente que apanharia um tuctuc (seria para aí o vigésimo desde que estou aqui). Disse que não, que nem pensar e pediu para lhe ligar quando acabasse de jantar. Tentei convencê-lo que não era necessário, que a MG Road era relativamente perto do hotel, mas o tipo não se demoveu e fez-me prometer que lhe ligava. Levou-me então a um sítio chamado Thousand Oaks. Um restaurante como uma atmosfera bem porreira, à excepção das buzinas constantes que se ouvem da estrada. A refeição foi uma das melhores que já comi. Um Shahi Murg Korma acompanhado com Garlic Naan (pão de alho) que de tão bom que era mereceu duas Kingfisher a acompanhar. Foi tudo espectacular, até à parte em que pedi um expresso e me trouxeram literalmente um galão. Fiquei a olhar para aquilo, afastei-o para o lado e pedi a conta.

Ainda antes de sair vi que tinha uma SMS do Sayant que dizia "hi sir now i am free when u finish u can sms to me i will be there thanx". Devolvi-lhe a mensagem dizendo que já tinha acabado, e pouco depois de sair do restaurante eis que aparece ele... de motorizada. Depois de uma breve hesitação, lá me sentei à pendura (não me lembro da última vez que andei de mota sem ser a conduzir) pensando no entanto que aquela era das ideias mais infelizes que tive nos últimos tempos. Num local onde não arriscaria conduzir um carro, andar à pendura de mota, no meio do trânsito caótico, com um tipo que não conheço de lado nenhum, sem capacete nem qualquer outra protecção, não foi das coisas mais inteligentes que fiz até hoje. Mas para a frente é que é caminho e lá vim à boleia com o tipo, de volta até ao hotel. Chegados, tentei oferecer-lhe uma cerveja ou dar-lhe uma gratificação mas não quis aceitar, dizendo que não precisava e que lhe poderia retribuir noutra altura. Despediu-se de mim a sorrir, com um até amanhã. É impressionante, mas passados mais de 10 dias aqui, não há um único que passe que não deixe de me surpreender de alguma forma...

segunda-feira, março 04, 2013

Pune - Diário de Bordo - Dia 11

Apercebi-me que desde que cheguei aqui há pouco mais de uma semana, mudei os meus hábitos muito mais além do que o simples afastamento de casa poderia significar. Há mais de uma semana que não vejo televisão e o meu tempo, apesar de totalmente preenchido, parece chegar para tudo o que quero realmente fazer. Levanto-me bem cedo para conseguir estar no escritório pelas 8h30. O dia passa a correr até às 19h30, hora em que o meu transporte de regresso me aguarda para me trazer de volta ao hotel. Pelo meio paro apenas cerca de 20 minutos para almoçar e tomo um ou dois cafés. À noite, tenho tempo para ir ao ginásio, jantar, conversar, "skypar" para casa, ler e escrever (e infelizmente também trabalhar). Faço tudo isto e chego ao fim do meu dia muito menos cansado do estou habituado em Lisboa. Penso que se trata de uma mistura entre o facto de estar afastado do meu local de trabalho habitual, estar fora da minha zona de conforto com uma atitude positiva, mas sobretudo pelo facto de sentir que estou a fazer as coisas de maneira diferente. Acredito sinceramente que esta viagem, apesar de ser feita em trabalho, vai ser uma experiência que me vai modificar bastante. Tenho tido contacto com muitas pessoas, falado com muita gente (excepto com o silencioso Sushant) posto muitas coisas em perspectiva, e daqui para a frente vou encarar tudo de forma diferente. O escasso conhecimento dos hábitos e da cultura daqui que entretanto adquiri já é por si modificador da forma como alguém habituado a algo totalmente diferente encara a vida. Isto porque tem sempre mais impacto ouvir este tipo de histórias e experiências na primeira pessoa.

Para minha surpresa hoje de manhã não me aguardava nem o Sushant nem o Gaikwad. Estava eu a tomar o pequeno almoço quando me vieram avisar que o carro já estava à minha espera lá fora. Ainda era cedo, mas como já tinha acabado de comer, lá fui ao encontro do meu transporte. Quando chego à rua, nem sinal do condutor. O funcionário do hotel foi à procura dele: estava na casa de banho e veio a correr ter comigo. Quando estendi a mão para o cumprimentar recusou respeitosamente porque não tinha lavado as mãos (calha bem que eu nem tinha pensado nisso). Este tipo era muito simpático. O transporte do hotel para o escritório decorreu como se de uma visita guiada por Pune se tratasse: "E aqui, sir, à sua esquerda fica o posto dos correios. À sua direita fica a maior universidade de Pune. Em frente, um templo...". A determinada altura lá começamos a conversar de coisas mais interessantes mas sempre ia dando uma achega quando via um qualquer edifício que achasse interessante eu saber do que se tratava. No regresso falou ainda mais à vontade, e contou-me como todos os motoristas da empresa preferiam transportar estrangeiros do que locais. Segundo ele os locais maltratam-nos bastante. Mal lhes dirigem palavra e podem deixá-los até 2 ou 3 horas à espera, sem lhes dizer nada. Aparentemente os estrangeiros respeitam-nos mais. No meu caso em particular referiu que tenho a particularidade de ir sempre no banco da frente, o que eles consideram porreiro. Contou-me que hoje, na hora do chá na empresa, comentou com o Sushant e com o Gaikwad que me estava a transportar, e ambos lhe disseram: "Ele senta-se sempre na frente, não é?". Deixei-me rir por dentro com este pormenor tão insignificante mas que é capaz de fazer diferença na percepção que alguém tem de nós. Antes de me levar ao hotel, como tinha comentado que ainda gostava de fazer algumas compras antes de ir embora, levou-me a um sítio chamado MG Road que é uma espécie de baixa da cidade, recheada de lojas e restaurantes. Se tiver tempo, ainda voltarei ali antes de me ir embora... Ofereceu-se para me ajudar a fazer as compras, e a dar-me conselhos para regatear.

Durante o jantar, um funcionário com quem tinha comentado que tinha ido ao Katraj Snake Park perguntou-me se lhe podia mostrar as fotografias. Ficou impressionado com as excelentes fotos que eu tinha tirado daquele medíocre parque (grande parte delas desfocadas), e ficou admirado pelo facto de ter conseguido ver os animais todos, já que sempre que lá foi andavam meio escondidos nos espaços onde estão confinados. Ficou ainda mais admirado quando lhe contei que também tínhamos tigres brancos no Zoo de Lisboa, que ficava dentro da cidade, e onde até já tinham nascido três crias. Antes da refeição acabar estiquei-me excepcionalmente nos doces, que são sempre muito, mas mesmo muito bons, e lá regressei ao meu descanso, com não sei quantos sorrisos pelo caminho e outros tantos "good evening, sir". Amanhã vou tentar a minha sorte num restaurante da MG Road. Depois conto como correu.

domingo, março 03, 2013

Pune - Diário de Bordo - Dia 10


Hoje acordei determinado a ter um dia livre de trabalho. Podia ter dormido um pouco mais, não fossem os meus vizinhos barulhentos que resolveram ter uma discussão às 9h da manhã, mas ainda assim descansei. Estava determinado a retomar a banhoca na piscina interrompida abruptamente no dia anterior por motivos profissionais, e assim fiz. As águias eram a minha única companhia. A determinada altura dei-me por feliz pelo facto de só conhecer histórias de pessoas que levaram com cagadelas de pombo ou eventualmente de gaivota em cima, e de não ter conhecimento de casos reportados com águias. Mesmo que tal acontecesse, sempre ficava com uma história inédita para contar. Coloquei os óculos de sol, como protecção. Por ali fiquei pela manhã, intercalando banhos com leitura e descanso. Quando já estava de barriguinha cheia de banhoca, fui até ao quarto pesquisar um pouco na net o meu destino agendado para a parte da tarde.

Hoje tive direito a um "brunch" em vez de um almoço tradicional, aqui no hotel. Tinham algumas iguarias e também umas águas de coco porreiras. Almocei calmamente antes de me fazer à estrada. Como no dia anterior tinha recusado uma oferta que fez o desdentado Gaikwad, enviando-me uma SMS que dizia "hi sir it is gaikwad do u requre car for tommorow for site sean" (o que com algum esforço entendi como uma oferta de transporte para ir passear), lá fui eu à procura de um tuctuc. Desta vez a comunicação foi impossível. Mesmo com o endereço do local (que é até bastante conhecido) escrito num papel, o tipo não conseguia entender. Quando estava quase a desistir, o tipo sai do tuctuc já meio enervado, arranca-me o papel da mão, pára um tipo que vinha a passar numa mota e pede-lhe para lhe explicar onde raios eu queria ir! O tipo da mota explicou, o motorista disse-me "wan fiti" e eu fiz um fixe com o meu polegar, em sinal de acordo. Lá nos pusemos a caminho, enquanto eu rezava para chegar ao destino desejado sem necessidade de comunicação adicional. Desta vez, talvez por me ter afastado mais da cidade, já vi as célebres vacas a passear no meio da estrada. No entanto não consegui tirar uma foto a nenhuma. Apanhei apenas um camelo que estava estacionado junto a umas motas. Para meu descanso, finalmente chegamos ao destino (certo). Dei um pouco mais do que as "wan fiti" rupias e despedi-me do motorista.

O local em questão, Katraj Snake Park, tinha-me sido mencionado por algumas pessoas e estava com alguma curiosidade de o visitar. Na qualidade de estrangeiro, paguei 25 rupias para entrar. Sabia que a principal atracção eram as várias cobras que ali estão em exposição, em fossos com uma altura que raia a capacidade das mesmas se esgueirarem por ali acima. Existem até uns sinais a recomendar às pessoas para não se debruçarem nas extremidades. O parque em si, que se intitula de Rajiv Gandhi Zoological Park, está mediocramente mantido, apesar das várias regras que por ali impõem. Pelo facto de levar uma garrafa na mão, tive de fazer um depósito à entrada de 10 rupias, que se desejasse reaver teria pedir à saída, mediante apresentação da mesma garrafa. O objectivo é que ninguém deite lixo no parque (e tendo em consideração o estado das ruas, percebo porquê). Lá vi a secção das cobras e outros répteis (crocodilos, iguanas, etc.) com mediano interesse, e acabei por ver a minha atenção mais desperta pela outra parte do parque, onde existiam outros animais. Entre eles encontrava-se um tigre branco lindíssimo, cuja primeira imagem que vi se mantém na minha mente até agora: deitado na relva com o sol a reflectir no pelo branquíssimo. É um animal realmente admirável. Depois de vários quilómetros percorridos a pé ao longo do parque (parece mais um safari do que um zoo) que contorna uma enorme lago, debaixo do sol e do calor do costume, resolvi voltar. Recolhi as minhas 10 rupias da garrafa de água e lá fui eu.

Apanhei outro tuctuc e a viagem de regresso decorreu sem percalços. A determinada altura vi que o motorista procurava algo pelo caminho, o que estranhei. De repente encostou e foi a correr em direcção a uma casa de banho pública, fazendo-me sinal que já voltava. Depois de regressar seguimos caminho. Num dos cruzamentos onde parámos, uma velhinha abordou-me no tuctuc pedindo esmola. Dei-lhe as rupias que trazia no bolso. A velhinha continuava no entanto a apontar e pedir algo, que eu não percebia o que era. De repente compreendi que estava a pedir a minha garrafa de água. Dei-lha, esboçou um sorriso e desapareceu no meio dos carros e motas. É realmente impressionante o nível de pobreza, dificuldades e falta de coisas básicas como água e comida, que este país ainda tem em pleno século XXI. Lembrei-me do desdentado Gaikwad dizer que achava uma afronta as pessoas usarem dois e três baldes de água para lavar os seus carros no centro da cidade, quando nas zonas limítrofes há quem não a tenha para beber! Engoli em seco ao pensar no meu país e no nível de vida que até mesmo os mais pobres estão habituados. Chegado ao hotel, retomei as minhas rotinas diárias de exercício, leitura (terminei o Cândido), escrita e jantar. Segue-se o descanso que amanhã há trabalho para fazer. Abraço a todos!