Os últimos três dias foram intensos como sempre o são no final de cada época. Por um lado, o olhar escrutinador de vários mestres de diversas artes marciais, vindos de diferentes partes do mundo, que fazem cair sobre nós o peso da responsabilidade daquilo que fazemos. A intensidade de muitas horas de aprendizagem intensiva que testam a capacidade e resistência do nosso corpo. Por fim, a pressão que decorre da competição, naquilo que melhor carateriza esta arte marcial: a defesa pessoal. Foram três dias que representaram o culminar dos últimos nove enriquecedores anos de experiências partilhadas, de muito esforço, dedicação, treino, sangue (literalmente), suor e também algumas lágrimas. No final, em vez de simplesmente sentir que cumpri um objetivo, deparei-me com uma perceção diferente: a de quem tem um novo início pela frente. Um virar de página para encontrar um caderno em branco, onde terei a oportunidade de aprender o que não sei e corrigir aquilo que julgo saber.
O primeiro grau de um cinto negro, como aquele que agora alcancei, tem a habitual designação de “primeiro dan”, ou “shodan” (em japonês). Esta palavra significa literalmente “grau inicial/principiante”, o que eleva a responsabilidade de qualquer artista marcial chegado a este patamar da sua evolução. Esta graduação acarreta mais obrigações e responsabilidades do que qualquer um dos nove graus ou “kyus” anteriores. É o equivalente a aprender o básico, como ler e escrever, para agora sim conseguir estudar. E é por isso que, pessoalmente, a vejo como um novo ponto de partida, que obriga à humildade de reconhecer que só agora estou a começar o meu percurso. Espero estar à altura desta responsabilidade e espero que esta aventura seja tão ou mais enriquecedora como foi a que vivi até aqui.
Como nos ensina a filosofia do Kenpo, “uma viagem de mil milhas começa com um passo e quando chegarmos ao cimo da montanha… devemos continuar a subir”.
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