segunda-feira, junho 08, 2026

Reflexões de um Principiante...

 

Há nove anos comecei uma jornada, para chegar hoje ao que considero o início de um novo caminho a percorrer. Sem ter pensado muito nisso na altura, sobretudo para acompanhar o meu filho mais velho que à data tinha apenas 7 anos de idade na prática de uma atividade desportiva, inscrevi-nos aos dois no Kenpo. Uma arte marcial com as suas origens mais remotas na China, com um período de desenvolvimento Japão e com a sua mais recente evolução no Havai. Tal como esta arte marcial fez o seu longo caminho até aos dias de hoje, também eu, o meu filho mais velho e, entretanto, também o mais novo, fizemos o nosso próprio caminho. E com a felicidade e sorte que poucos têm de o percorrer assim, juntos e em família. São imensos momentos partilhados ao longo de vários anos, todas as semanas, muitas vezes aos fins-de-semana, por vezes ao longo de vários dias consecutivos. É um crescimento conjunto, partilhado, sentido, dentro de uma outra família. Uma “Ohana”, como dizem os havaianos, na qual evoluímos e fazemos os que estão à nossa volta evoluir connosco. Sempre através da partilha e entreajuda, uns com os outros, crescemos mental e fisicamente.

Os últimos três dias foram intensos como sempre o são no final de cada época. Por um lado, o olhar escrutinador de vários mestres de diversas artes marciais, vindos de diferentes partes do mundo, que fazem cair sobre nós o peso da responsabilidade daquilo que fazemos. A intensidade de muitas horas de aprendizagem intensiva que testam a capacidade e resistência do nosso corpo. Por fim, a pressão que decorre da competição, naquilo que melhor carateriza esta arte marcial: a defesa pessoal. Foram três dias que representaram o culminar dos últimos nove enriquecedores anos de experiências partilhadas, de muito esforço, dedicação, treino, sangue (literalmente), suor e também algumas lágrimas. No final, em vez de simplesmente sentir que cumpri um objetivo, deparei-me com uma perceção diferente: a de quem tem um novo início pela frente. Um virar de página para encontrar um caderno em branco, onde terei a oportunidade de aprender o que não sei e corrigir aquilo que julgo saber.

O primeiro grau de um cinto negro, como aquele que agora alcancei, tem a habitual designação de “primeiro dan”, ou “shodan” (em japonês). Esta palavra significa literalmente “grau inicial/principiante”, o que eleva a responsabilidade de qualquer artista marcial chegado a este patamar da sua evolução. Esta graduação acarreta mais obrigações e responsabilidades do que qualquer um dos nove graus ou “kyus” anteriores. É o equivalente a aprender o básico, como ler e escrever, para agora sim conseguir estudar. E é por isso que, pessoalmente, a vejo como um novo ponto de partida, que obriga à humildade de reconhecer que só agora estou a começar o meu percurso. Espero estar à altura desta responsabilidade e espero que esta aventura seja tão ou mais enriquecedora como foi a que vivi até aqui.

Como nos ensina a filosofia do Kenpo, “uma viagem de mil milhas começa com um passo e quando chegarmos ao cimo da montanha… devemos continuar a subir”.

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