terça-feira, junho 09, 2026

A Mestria de Não Desistir

O último ano foi particularmente exigente para mim. Defini para mim próprio um conjunto variado e alargado de objetivos a alcançar em diferentes aspetos da minha vida e acabei por, em certos momentos, me sentir assoberbado e achar até que tinha arranjado areia a mais para a minha camioneta. Mas como em tudo na vida, o melhor que podemos fazer quando queremos alcançar algo (mesmo que nos pareça difícil ou “impossível”) é começar. Todo e qualquer caminho se percorre com um primeiro passo e, por vezes, somos nós quem cria os nossos próprios obstáculos que nos subjugam perante a inércia e a procrastinação, e que acabam por nos paralisar e impedir de avançar.

Há quase 20 anos fiz uma coisa que não costumo fazer muitas vezes. Desisti de algo. E sei-o porque as coisas das quais desisti ao longo da vida, conto-as pelos dedos de uma mão, mas estou bem ciente quais foram. Este “algo” a que me refiro agora, foi um exemplo, durante uma transição entre duas fases profissionais. Estava eu precisamente a meio de um curso de mestrado, tinha concluído toda a parte curricular com bom aproveitamento, tinha já redigido e publicado um artigo científico e apresentado o mesmo em conferência internacional. Estava por isso já dedicado à elaboração da tese final quando a exigência de um novo desafio profissional que decidi abraçar começou a ter um peso excessivo na minha vida. Muitas “noitadas” que me foram roubando lentamente o tempo e a energia, até ao momento em que percebi não iria conseguir conciliar as duas coisas. Na altura, senti que não seria capaz e… desisti. Talvez pudesse ter feito algo diferente, mas na altura, naquele contexto, foi o que aconteceu. E é por isso que, 20 anos depois, tem um sabor especial fazer (da estaca zero) aquilo que não consegui levar a cabo nessa altura.

Voltei a ser estudante. Levei o meu cérebro para caminhos que este já não estava habituado a percorrer, obrigando-o a exercitar-se tal qual um músculo que não trabalha durante algum tempo e de repente tem de acordar. Percebi que sou agora uma pessoa intelectualmente diferente, que faz as coisas de maneira distinta, não sendo necessariamente pior do que aquilo que era anteriormente. Uma espécie de compensação e equilíbrio entre maturidade e energia da juventude (aquilo que possa começar a faltar por um lado, compensa-se pelo outro).

Foi assim que percorri o meu caminho, novamente, ao longo do que foram pouco mais de dois anos. Tive aulas, estudei, fiz provas, trabalhos, apresentações, escrevi mais um artigo, elaborei a minha dissertação, defendi-a e posso considerar que fui bem-sucedido em tudo. Foi duro, porque mais uma vez a vida prega-nos sempre alguma partida, e novamente o contexto profissional afigurou-se como um obstáculo. Mas desta vez não levou a melhor. Persisti, resisti e terminei aquilo a que me propus. É por isto tudo que não posso deixar de me sentir orgulhoso. Não apenas porque alcancei um objetivo ou pela importância de um título académico (que nos dias que correm vale cada vez menos), mas sobretudo porque de alguma forma sinto que coloquei um risco sobre aquela desistência que mantinha na minha lista desde há 20 anos.

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