terça-feira, maio 20, 2008

Revolta Contra Massas Anónimas

Somos frequentemente tentados a apontar as nossas frustrações contra massas anónimas cinzentas, que ninguém consegue identificar muito bem, mas que todos usamos como escape para o stress acumulado. Recuso-me a isso. Quando oiço frases como "o estado isto...", ou "o governo aquilo", ou "a empresa aqueloutro...", tento, sempre que tal se justifique, lembrar quem me rodeia que somos todos nós, enquanto indivíduos, que geramos a percepção do colectivo. Embora muitos de nós não tenham essa noção, é um facto que quase todos pertencemos a uma equipa. Eu, por exemplo, faço parte de um povo - o português - portanto também sou responsável por aquilo que se passa em Portugal. Adicionalmente, sou de Lisboa, pelo que na qualidade de lisboeta sou também responsável pelo que se passa na cidade. Considero-me jovem, pelo que aquilo que faço se repercute na imagem da juventude. No meu trabalho, sou responsável pelos resultados da equipa que integro. A minha família é também uma equipa, pelo que sou igualmente responsável neste âmbito. Assim, como se pode constatar, existe uma série de "massas anónimas" em que a percepção que os outros têm das mesmas está directamente relacionada com acções individuais. Assim, eu posso - e devo - continuar a ser responsabilizado - positiva ou negativamente - enquanto indivíduo, por algo que faço enquanto parte de um grupo. Esta responsabilização não deve no entanto ser vista como um apontar de dedo, mas sim um incentivo a que cada um dê o seu melhor, e que não seja indiferente a quem depende de si (por muito insignificante que possa parecer essa dependência), escudando-se por detrás da tal "massa anónima". É nosso dever dar o nosso melhor em toda e qualquer circunstância, pelo que uma resposta desinteressada ou uma reacção descompensada não podem de forma alguma passar sem uma reacção correspondente ou compensatória. O empregado que serve um café, o funcionário das finanças que nos esclarece uma dúvida, o operador de "call center" que nos dá uma resposta, o taxista que nos leva ao nosso destino... são todos parte de uma qualquer massa, e acabam por fazer todos parte do nosso quotidiano, e em última análise, da nossa vida. Eu também os sirvo, por isso vou dar o meu melhor por eles... só posso assim esperar o mesmo e nada menos que isso. Segundo me recordo, é a isto que se chama "viver em sociedade", ou estarei errado?

1 comentário:

Gonçalo disse...

...um pensamento destes só podia vir de ti...parabéns, é um dos teus melhores posts...abraço