sábado, dezembro 27, 2025

Leitura das Gordas

Começar por clarificar que as "gordas" não são moças anafadas, senão uma alusão aos títulos da imprensa nacional. Este trocadilho é ele próprio um exemplo daquilo que pretendo mencionar, nomeadamente, a distância que vai de ler meia dúzia de palavras que constam num título de um texto, a ler o texto em si. Hoje em dia, os guerreiros do teclado e os especialistas de coisas não hesitam em alimentar-se apenas destas "gordas" para verter a sua sabedoria de mesa de café, e deixar o resto (leia-se a informação) a quem tiver paciência para isso. Exemplos recentes são a retirada de contexto da afirmação do primeiro-ministro no seu discurso de Natal, quando referiu que o país devia assumir uma mentalidade à Cristiano Ronald, ou do ministro da educação quando referiu que a utilização do SNS pelas classes mais pobres é o que leva à degradação do mesmo. Qualquer uma das duas afirmações (retirada do seu contexto) pode dar aso a múltiplas interpretações, sendo que os previamente mencionados guerreiros do teclado ou especialistas de coisas, regra geral, têm a propensão para se afastar do significado original o mais longe possível e na direção diametralmente oposta do significado original, desde que isso lhes permita brilhar e obter algum tempo de antena.
Quanto à alusão ao Cristiano Ronaldo do PM, as críticas assumiram alarvidades como defender que o atleta não podia ser dado como exemplo, uma vez que este defende regimes ditatoriais (alusão à sua recente viagem aos Estados Unidos numa comitiva da Arábia Saudita). No caso do ministro da educação, a afirmação foi de imediato vista como altamente discriminatória e até racista, insinuando que eram os utentes que deteriorava os serviços em questão. Independentemente de o conteúdo real poder ele próprio ser naturalmente alvo de críticas (os guerreiros do teclado e os especialistas de coisas não discriminam), em nenhum dos casos houve o cuidado de uma leitura mais direta, simples e contextualizada das palavras de quem as proferiu, nomeadamente um incentivo e motivação ao alto rendimento (ao estilo de atletas de alta competição como o é o CR7) ou uma autocrítica ao modelo de gestão do SNS que privilegia pouco o investimento em serviços públicos usados por classes mais baixas.
Não faço esta leitura por ser particularmente admirador ou defensor do primeiro-ministro ou do ministro da educação. Na realidade dá-me igual serem estes ou outros os intervenientes, servem apenas como um exemplo de um sintoma, que revela que a sociedade dos dias de hoje prefere o negativo ao positivo, a crítica destrutiva à construtiva, a antipatia à empatia, o ódio ao amor. E é por isso que, de algum forma, estamos todos condenados enquanto não descobrirmos uma forma de evoluir enquanto sociedade. Porque o caminho que estamos a seguir, não nos leva a bom porto.

sexta-feira, dezembro 12, 2025

Dois Anos...

Hoje vim aqui parar não sei muito bem porquê... e apercebi-me de que já não escrevia há mais de dois anos. Dois anos sem fazer uma coisa de que gosto e, nem sei explicar muito bem porquê. Porque não faz muito sentido deixar de fazer algo de que se gosta, só porque temos de dispensar algum do nosso tempo para fazê-lo. Por essa ordem de ideias faz mais sentido evitar perder tempo com coisas supérfluas ou desnecessárias (já para não falar naquelas que não gostamos mas somos "obrigados" a fazer).

O exercício de escrever esta breve publicação foi uma demonstração que decidi fazer a mim próprio, que mesmo a meio de um dia de trabalho, enquanto se faz uma pausa para o café, um par de minutos é suficiente para o efeito. E foi. E soube bem aplicar (mais uma vez) o desfibrilhador a este tasco das letras que tantas vezes me ajudou ao longo dos últimos 20 anos. Sim, faz na próxima semana 20 anos que publiquei um texto pela primeira vez neste blogue, quando os blogues eram algo na moda, coisa que agora já não acontece. Nunca fui muito de seguir tendências por isso vejo-me perfeitamente a continuar a escrever, aqui ou noutro lado qualquer, desde que vá fazendo a mim próprio recordatórios como este, para não me esquecer da importância da escrita para a minha saúde mental.

A ver se me disciplino o suficiente para recuperar este (bom) hábito.