terça-feira, outubro 10, 2023

Estacionamento e a Importância do Zen

Nos últimos anos tenho sempre tentado fazer pender a minha abordagem em relação a tudo na vida para o lado mais zen das coisas... infelizmente não sou perfeito e por vezes essa filosofia escapa-me e não resisto a ter uma ou outra reação mais cáustica. Na realidade acho até que me proporciona um certo equilíbrio mental, pelo que em bom rigor... está bem assim.

Ontem foi o caso, quando alguém resolveu estacionar o seu carro junto ao meu, assim...

Entendo que no mundo egocêntrico em que várias pessoas vivem, fazer este tipo de estacionamento, virar costas e ir à sua vida (enquanto fica também a tapar metade da entrada das instalações de uma instituição social), possa ser razoável. Para mim não foi e admito que me fez subir a temperatura do sangue meio grau.

Como não sou um tipo violento, decidi usar o intelecto. Redigi uma carta endereçada ao estimado proprietário da viatura reunindo o máximo de dados possíveis, incluindo o nome da companhia de seguros e o número de apólice associada à matrícula do carro, que rezava mais ou menos o seguinte texto:


 

Exmo. Sr.,
Proprietário da viatura Marca Modelo (matrícula 00-XX-00),

Na sequência de estacionamento do veículo supracitado, na Rua X, no dia 9/10/2023 durante o período da manhã, venho contactá-lo face aos estragos provocados na minha viatura.

Disponibilizo assim os meus contactos (nome e telemóvel) para que possamos falar pessoalmente e proceder ao respetivo preenchimento de declaração para efeitos de envio à companhia de seguros, a par das fotos que tirei da ocorrência.

Em alternativa e caso prefira não entrar em contacto comigo por algum motivo, poderei se preferir estabelecer contacto direto com a sua seguradora (Fidelidade – Companhia de Seguros, S.A.) fazendo alusão ao seu número de apólice (XXXXXXXXX) para este efeito. Deixo assim ao seu critério a forma como podemos proceder, ficando a aguardar o seu contacto.

Com os melhores cumprimentos...


Na realidade não havia qualquer dano visível no meu carro, mas ainda assim achei que não devia deixar o assunto morrer sem qualquer tipo de consequência. Imprimi, assinei a carta e, ao chegar a casa, procurei a viatura (que entretanto já tinha mudado de poiso) colocando a minha missiva no para-brisas. Nesse mesmo dia, recebi o contacto do proprietário que, cheio de razão pois não tinha feito nada de errado e era impossível eu ter qualquer tipo de estragos no carro porque nem sequer lhe tinha tocado, ainda assim se disponibilizou para falar comigo.

Veio ter comigo acompanhado por guarda-costas (a esposa) e entrou logo na conversa a pés juntos, dizendo que o que eu dizia era impossível e que não tinha sequer tocado no meu carro (apesar de pelos vistos saber claramente de qual carro se tratava). Deixei-o falar um pouco, mostrei-lhe a fotografia e perguntei se o conceito de "tocar" dele era diferente do meu. A esposa quando viu a foto fez cara de bufa, e o senhor engoliu em seco. Na fase seguinte baixou o tom, disse que não era necessário "aquela carta..." e começou a justificar-se dada a dificuldade de estacionamento na rua. Perguntei-lhe (enquanto morador da mesma rua) se se importava então que todos os dias fosse encostar o meu carro ao dele, uma vez que é extremamente difícil de estacionar. O tom foi baixando e depois de lhe explicar que não tinha qualquer dano no carro, que só tinha redigido a carta porque queria chegar à fala com ele e fazer ver que não era correta a situação, a conversa acabou com um pedido de desculpas, um "passou bem" e um "adeusinho Sr. Marco".

Moral da história: por muito bom que seja ser zen, às vezes também sabe bem ser cáustico...

1 comentário:

mãe disse...

Aí está o que toda a gente deveria fazer.
Sem violência e com toda a diplomacia, fazer valer o correto.
Infelizmente, este não é o procedimentos que a maioria das pessoas considera normal.
Parabéns meu filho por seres o ser humano que és.
Beijinho
Mãe