sábado, setembro 15, 2018

Ineficiências

Numa época em que tudo pode ser rápido e simples, instituições há que parecem continuar a prezar a ineficiência (para não dizer incompetência). No caso em particular refiro-me aos CTT. Estando eu habituado a fazer encomendas que me chegam por via de diferentes serviços e transportadoras, é lamentável que uma empresa como os CTT continue a ser das que pior serviço fornece. Foi o que aconteceu com a última encomenda que fiz, que infelizmente foi despachada por esta via em correio registado nacional. Algo que era suposto chegar ao destino num prazo máximo de 3 dias, demorou uma semana e meia. Isto porque a primeira tentativa de entrega no destino ocorreu precisamente no prazo máximo da entrega (os tais 3 dias). Como não estava ninguém em casa, ficou "pendente reagendamento de nova entrega", sendo que por "reagendamento" se deve entender "tentar entregar em data e hora aleatória sem questionar o destinatário sobre qual o melhor momento para o fazer". Após verificar que a encomenda se encontrava neste estado, tentei contactar os CTT para o dito reagendamento, já que ninguém o fez. Revelou-se uma tarefa impossível. O número geral 707 26 26 26 (serviço pago) nunca me permitiu chegar à fala com ninguém, ficando sempre pendurado entre 5 a 10 minutos a ouvir música. Eis senão quando passados outros 2 dias, nova tentativa "aleatória" de entrega, uma vez mais sem sucesso porque não estava ninguém em casa (que surpresa...). Mais uma vez tentei contactar o serviço de seguimento dos CTT, sem sucesso. Deixei o meu contacto para chamada de volta, que ainda hoje aguardo... Tentei ainda durante dois dias ligar para o balcão dos CTT responsável pela distribuição, e durante dois dias... ninguém atendeu o telefone. Pior: durante este tempo todo, nunca me foi dada a hipótese de recolha no balcão, já que não era deixado nenhum aviso na caixa de correio. Tal só veio a acontecer 2 dias após a última tentativa falhada. Portanto, em vez de me contactarem aquando da primeira tentativa de entrega ou terem deixado o aviso para levantamento no balcão, foram precisas 3 idas físicas à minha residência para perceber que não estava lá ninguém para receber a encomenda. Parabéns CTT, pelo brilhantismo na eficiência do vosso processo de entrega.

sexta-feira, setembro 07, 2018

Velho e Gasto, Mas...

Esta quarta-feira senti-me velho mas feliz por isso. Explico o porquê. Fui assistir a um concerto dos 30 Seconds to Mars (a segunda vez que o faço) e constatei as diferenças dos tempos relativamente à forma como decorrem os concertos em geral, como decorrem as atuações e até como as pessoas agem. O concerto foi bom, mas ficou aquém do último a que tinha assistido. A performance foi boa mas não muito mais do que isso. Ainda assim valeu a pena assistir, até mesmo naquele momento em que o Jared Leto chamou ao palco o célebre cantor português "Diego Pestana" (também conhecido por Diogo Piçarra). A produção foi também mediana, quando comparada com o anterior, muito mais "explosivo" visualmente. No início do concerto, e ainda relacionado com a produção, comentávamos que a magia dos espectáculos a que se assistia num estádio, à noite, algumas vezes debaixo de chuva, se perde completamente num ambiente assético e controlado como o de uma Altice Arena. Igualmente assético é o final do concerto, em que já não se dá sequer oportunidade para que um encore aconteça. Última música tocada, sai tudo do palco, acendem-se as luzes, e a malta dispersa de imediato. Até aqueles que estão na plateia, colados ao palco. Mas aquilo que me enervou, mas enervou mesmo solenemente neste concerto, foi a "maltinha" que estava no setor do balcão onde me encontrava. Antes do concerto começar tinha aquilo que parecia umas groupies à minha frente, que pensei fossem partir a loiça toda mal fossem tocados os primeiros acordes, mas que... nem se levantaram durante todo o concerto! Como é possível, um concerto em que todo um setor (infelizmente o meu) assistiu sentado (exceto dois ET's dos quais este vosso orgulhosamente fazia parte) como se estivessem no cinema! Efetivamente até pipocas e panquecas e fatias de piza se venderam, por isso começa a não ser muito diferente... Fiquei francamente desiludido por, no meio daquelas dezenas de pessoas e sendo talvez eu um dos mais velhos, ter sido também dos poucos que se levantaram e curtiram a coisa como deve ser. Enfim, valeu isso mesmo e aproveitar, assim como aproveitei a abertura, com uma banda para mim desconhecida mas que foi uma agradável surpresa (Xande). E a noite ainda acabou em beleza quando, para deixar o "rebanho" desopilar dali para fora, fomos beber um copo ao casino onde havia também música ao vivo. Resumindo, estou velho, mas acho que ainda me sei divertir.

quinta-feira, setembro 06, 2018

Curiosidades Sanitárias

Quando uma ação que visa evitar o desperdício e minimizar a pegada ecológica, e que acaba por fazer exatamente o oposto, acontece, importa dar visibilidade a tal fato. Foi o caso da empresa que faz a manutenção das instalações sanitárias do meu mais recente local de trabalho, que foi no mínimo brilhante.

Mais concretamente, e começando pelo ponto do desperdício da água, importa consciencializar as pessoas para evitarem o mesmo. Recomenda-se assim, conforme cartaz afixado, que as pessoas usem a água estritamente necessária e que em momento algum se esqueçam das torneiras abertas:


Pena que todas as torneiras em questão sejam automáticas. Ocorre-me portanto que o único cenário em que tal possa acontecer, seja o caso de alguém com uma prótese que, ao lavar as mãos, se esqueça da mesma dentro do lavatório, ativando assim indeterminadamente o sensor que abre a água da torneira...


Outra recomendação importante é a de não deitar papéis para dentro dos urinóis (???) ou das sanitas, e em vez disso depositá-los nos recipientes e caixotes destinados ao efeito:


Pena que esses recipientes ou caixotes não existam, senão seria certamente uma recomendação importante.


De qualquer forma, 5/10 pontos pela intenção. Pena o desperdício de tempo, dinheiro, tinta, papel e plástico na elaboração e disseminação dos cartazes com utilidade zero.

segunda-feira, setembro 03, 2018

Novo Início

Chegou o momento. Após o final de um ciclo e de umas retemperantes férias de verão em família, é altura de arregaçar as mangas e começar de novo. Dispo uma camisola verde para vestir uma laranja. Por um lado uma novidade, por outro o rever de muitas caras conhecidas. A familiaridade de um local que me dá algum conforto, o facto de não ser "novato" neste tipo de mudança, mas ainda assim aquele nervoso miudinho de quem se "manda novamente para fora de pé". Um sentimento maior de responsabilidade vai-se fazendo notar conforme os anos passam e estas coisas acontecem. Para com as instituições, para com a família que de mim depende, para comigo próprio que tenho de ser mais e mais exigente com aquilo que faço. Tudo somado, estou animado por este recomeço, por esta oportunidade de me reinventar e por tudo o que possa vir por aí. Vamos a isto!

segunda-feira, agosto 27, 2018

Jornalismo de Qualidade

Dei por mim hoje a rir de tristeza quando li uma estranha notícia que me levou a percorrer uma série de jornais online, só para tirar nabos da púcara. Havia ali algo de estranho, que me levou a querer saber mais...


Rezavam assim os seguintes jornais:

Público:
Um grupo de cerca de 40 pessoas esteve envolvido em desacatos, agressões a agentes da polícia e destruiu materiais num supermercado em Estremoz, distrito de Évora, causando prejuízos no estabelecimento, revelou fonte da polícia neste sábado.

Jornal I:
Um grupo de cerca de 40 pessoas obrigou à intervenção da polícia num supermercado em Estremoz.

Observador:
Grupo de cerca de 40 pessoas esteve envolvido em desacatos, agressões a agentes da polícia e destruiu materiais num supermercado em Estremoz, distrito de Évora, causando prejuízos no estabelecimento.

Jornal de Notícias:
Agentes da PSP foram atacados num supermercado de Estremoz, distrito de Évora, por familiares de jovens identificados por suspeita de roubo. Lançaram cadeiras, malas de viagem... Prejuízos rondam os cinco mil euros.

SIC Notícias:
Um grupo de cerca de 40 pessoas esteve este sábado envolvido em desacatos e agressões a agentes da polícia. Foram destruídos materiais num supermercado em Estremoz, distrito de Évora, causando prejuízos no estabelecimento, revelou fonte da polícia.

Podia continuar...

Comecei a estranhar o que podia ter causado esta histeria coletiva a um "grupo de 40 pessoas", dentro de um supermercado. Revolta pelo preço da sardinha estar tão alto? Um desconto mal assinalado em produtos de higiene pessoal? Ou seria simplesmente algum químico no ar a causar tamanha confusão?

Finalmente descobri a causa do problema num vídeo publicado no YouTube... e as minhas suspeitas confirmaram-se. Sabem em quantas destas publicações online que referi é referida a palavra "ciganos"? Nenhuma! É este o país em que vivemos, em que o politicamente correto não tem limites nem vergonha, e leva TODA a comunicação social a desinformar em vez de informar, a bem de evitar conotações entre raças e atos criminosos. Um bando de 40 ciganos que assalta um supermercado é "um grupo de 40 pessoas que se envolve em desacatos", tal como um gangue de pretos a fazer car jacking é um "grupo de jovens envolvidos em roubo automóvel", tal como um grupo de romenos que pontapeia e agride alguém violentamente são "indivíduos envolvidos em confrontos". É caso para dizer que as os jornalistas que redigiram estes textos podem ser também de forma politicamente correta apelidados de descendentes diretos de meretrizes ou rameiras, mas no final do dia não passam de uns filhos da puta. Vergonha na cara, senhores jornalistas... vergonha na cara.

segunda-feira, agosto 13, 2018

Por Baixo da Superfície...

Alguns dias depois de o incêndio de Monchique ter sido dado como controlado, o chorrilho de disparates proferidos pelos nossos (des)governantes é ainda difícil de digerir. Palavras como "sucesso" e "vitória" associadas a uma catástrofe com o tamanho de 28000 hectares e 10 milhões de euros em prejuízos são difíceis de entender, seja lá qual for o "contexto" de que se possam retirar. Parece-me que a estupidez é um fogo que continua a arder abaixo da superfície, qual vista aérea do incêndio por quem está acima das nuvens, como retratado brilhantemente por um dos pilotos de Canadair que combateram as chamas durante a passada semana...


quinta-feira, agosto 09, 2018

Falta de Inteligência

Há um par de dias atrás, ouvi uma das poucas coisas acertadas que se dizem nos meios de comunicação social, acerca do flagelo dos incêndios que (infelizmente, como eu esperava, uma vez mais) assolam o país. 6 dias passaram desde que deflagrou um incêndio grave em Monchique, no Algarve, e as chamas continuam a lavrar descontroladamente num país que se julgava ter ardido quase por completo no ano anterior, desaparecendo assim mais uma fatia significativa do pouco que restava de verde neste "jardim à beira mar plantado".


Esta situação deveria fazer sobressair a incompetência, a inépcia e a estupidez de todos aqueles cuja função deveria ser a de assegurar que a tragédia do ano anterior não se repetia. Mas como estamos em Portugal, não é o caso. Como estamos em Portugal, uma tragédia destas pode voltar a acontecer de forma inconsequente, sem que ninguém seja responsabilizado, ficando as culpas por atribuir (apesar de existirem óbvios culpados, desde o poder governativo até a alguns ditos "operacionais" entre os quais se inclui a Proteção Civil, organismo que sistematicamente se tem revelado tão útil como uma viola num enterro). Como estamos em Portugal, o Primeiro Pinistro pode vir a público dizer que um incêndio que lavra há mais de 6 dias, com um dispositivo nunca antes visto (cerca de 1500 bombeiros, centenas de viaturas e dezenas de meios aéreos), é a "exceção que confirma o sucesso". Sucesso? Sucesso exatamente em quê, Sr. Primeiro Ministro? Dizer que o resto do país não arde graças a algum tipo de ação governativa é só estúpido, dado que o resto do país... já tinha sido consumido no ano anterior, tendo sido atingindo um record de área ardida de mais de 500 mil hectares! Dizer que uma das poucas áreas florestais não ardidas no ano anterior está agora a ser consumida na sua totalidade, porque nada se aprendeu com as lições do passado, já seria mais inteligente. Mas este tipo de análise (que teima sistematicamente em falhar nos órgãos de comunicação social) significaria que não estaríamos em Portugal.


Mas estar em Portugal tem as suas vantagens, não é só coisas más. Senão, vejamos:
  1. Uma das vantagens de estar em Portugal, é que se o nosso trabalho for a defesa da população, mesmo que falhemos sistematicamente, não temos de nos demitir (noutros países como a Grécia tal já não acontece, conforme se constatou após o incêndio de há umas semanas atrás);
  2. Uma das vantagens de estar em Portugal, é que atrás de uma grande tragédia, vem sempre o crescimento económico... pelo menos para alguns; no ano passado a indústria da madeira e pasta de papel teve a sua oportunidade, e parece-me que o setor da construção civil começa a ver aqui também uma oportunidade para o seu pequeno balão de oxigénio;
  3. Uma das vantagens de estar em Portugal, é que mesmo quando as coisas correm mal, há sempre formas de "pintar o quadro" pela positiva, conforme se pode constatar pela frase supracitada do Sr. Primeiro Ministro;
  4. Uma das vantagens de estar em Portugal, é que quando não sabemos resolver um problema, podemos sempre contorná-lo, conforme se pode constatar pela nova política do "deixa arder" que está cada vez mais em vigor; com o devido respeito que partilho pela vida humana, parecendo-me no entanto óbvio que o número de mortes ocorridas no ano passado foi o ponto mais chocante do que sucedeu, este ano sempre que surge um foco de incêndio, simplesmente opta-se por arrancar as pessoas das suas casa e deixam-se as mesmas ser consumidas sem apelo nem agravo pelas chamas;


Pegando no último ponto do "deixa arder", na qualidade de alguém que já viu o que é seu ser consumido pelas chamas (e que passado quase um ano continua a viver as consequências disso), de alguém que se lembra, assistiu e participou no combate a alguns incêndios em que frequentemente eram as populações os principais agentes na defesa daquilo que era seu (quando os bombeiros pouco ou nada conseguiam fazer), de alguém que reconhece nas gentes do seu país pessoas trabalhadoras que deram o que tinham e não tinham para ter a sua casa e os seus meios de subsistência vulneravelmente ao alcance de uma chama... custa-me ver tamanho desprezo por tudo isso, apenas porque (citando a tal frase acertada que ouvi há um par de dias)... "falta inteligência"!


Falta inteligência para perceber que os fogos não se combatem durante o mês de agosto, com milhares de bombeiros e centenas de meios, mas sim numa ação continuada ao longo do(s) ano(s) - alguém sabe, por exemplo, o que é que o GIPS (Grupo de Intervenção de Proteção e Socorro, da GNR, que conta com mais de 1000 efetivos) faz nos outros 10 ou 11 meses do ano?
Falta inteligência para perceber que é urgente organizar devidamente a floresta de acordo com um plano nacional que saia do papel, com coordenação local pela parte das autarquias.
Falta inteligência para saber responsabilizar as pessoas de uma forma justa e sem cair no extremo da perseguição a quem não tem acesso a informação ou meios para proceder a limpezas de terrenos - e já agora, dar o exemplo naquilo que é a responsabilidade das próprias autarquias, como por exemplo na criação e manutenção de estradas corta-fogo.
Falta inteligência para perceber que é tempo de deixar de camuflar as reais causas e os interesses por detrás dos incêndios, perseguindo aqueles que os levam a cabo.
Falta inteligência para saber educar as populações de uma forma efetiva quanto à prevenção e combate dos incêndios.
Falta inteligência para perceber que a situação é demasiado grave para ser utilizada como mais uma forma de promover os tradicionais caciques, que são no mínimo uma ofensa grave a todos nós.
Falta inteligência para ajudar os bombeiros (e os militares) a fazerem corretamente o seu trabalho, sem deixar interferir as atrapalhações políticas e os interesses privados - continua sem explicação a decisão de não utilizar a Força Aérea no combate aos incêndios, assim como forças de intervenção terrestre compostas por elementos dos vários ramos das forças armadas.
Em suma, falta inteligência para saber o que fazer e dizer, e o muito que se tem dito (e pouco que se tem acertado) é a clara prova disso.


Sou um grande adepto da velha máxima que diz que "quando não temos nada de jeito para dizer, vale mais ficarmos calados", mas neste caso, ao fim de tantos anos de inépcia, incompetência, irresponsabilidade e desrespeito para com todos nós, para quem de direito, ficar calado já não é opção, assim como o não é a falta de ação como aquela a que temos assistido num crescendo de violência, a cada época estival que passa.


Não consigo lidar muito bem com a frustração e o sentimento de impotência perante uma situação sem fim à vista, mas assumo o voto de lutar com todas as armas que tenho, intervindo em todas as situações que possa (por mínimas que sejam) para fazer a minha parte. Resta-me esperar que conforme esta situação se agrava, mais pessoas assumam a mesma postura e forma de pensar, atuando sobre aquilo que está diretamente ao seu alcance. Talvez assim um dia cheguemos a algum lado...

sábado, julho 21, 2018

Millenials e o Velho do Restelo

Não querendo parecer um velho do restelo, considerando o tema sobre o qual vou aqui dissertar, aviso desde já que vou ser politicamente incorreto. Esse tema são os millenials ou geração Y, e a forma como encaram a vida em geral e o trabalho em particular. Escuto com frequência chavões e frases feitas, afirmações de como esta geração está muito mais bem preparada que as anteriores em todos os sentidos e como todas as gerações anteriores são, portanto, obsoletas na sua forma de ser, pensar e estar. Gostaria de começar por isso por responder que esta última depreciação das gerações que antecederam os millenials é uma generalização e, portanto, inevitavelmente injusta. Mas seguindo no tom dessa injustiça que é própria das generalizações, há que responder na mesma moeda, referindo que os millenials também não têm essa "bola toda". Pegando numa imagem que me chegou via LinkedIn (rede social em que - ainda - tenho uma presença) e que muito prontamente foi aplaudida e elogiada por todos, permito-me dissecar cada afirmação nela constante, individualmente.


"Não queremos um emprego para a vida."
Os empregos para a vida já não existem há muito tempo, se é que alguma vez existiram. Não ter a ilusão de que se vai trabalhar para sempre no primeiro emprego que nos aparecer é uma coisa, outra é assumir a postura de "salta pocinhas" entre empregos. Na minha atividade lido com bastante recrutamento, e com frequência aparecem pessoas com 3 ou 4 anos de experiência, que já passaram por 3 ou 4 locais de trabalho (ou mais). Salvo raras exceções, isso significa que essas pessoas não souberam lidar com o que quer que lhes tenha sido apresentado e simplesmente desistiram. "Desistente" não é um adjetivo muito "sexy" para se colocar num CV. Será que não tem mais valor alguém que é capaz de gerir situações adversas para alcançar os seus objetivos, do que alguém que "não está para se chatear" e só porque o mercado (ou a carteira dos pais) assim o permite, sai porta fora?

"O worklife balance é importante para nós."
Assim como o é para toda a gente. No entanto, o trabalho não tem de ser visto como algo negativo cujo contraponto da felicidade é o que se faz fora dele. Será que sendo o trabalho uma fonte de realização (ou no limite um meio para chegar a um fim), não será portanto sinónimo de satisfação? Será que se andarmos satisfeitos, não seremos também melhores pais, filhos, maridos, irmãos…? Será que temos de pensar de forma tão isolada entre o "work" e o "life", como dois pratos distintos de uma balança, cujo equilíbrio tem de ser mantido de forma quase nazi? Posso ser velho do restelo nesta linha de raciocínio geral que aqui exponho, mas aos modernos millenials há que alertar a existência de um termo mais recente que o "worklife balance": o "worklife blend". Sim, é verdade, não somos robôs, pelo que as duas coisas misturam-se. É possível termos amigos com quem convivemos dentro e fora do local de trabalho, assim como é possível executar uma ou duas tarefas relacionadas com o nosso trabalho enquanto estamos em casa, sem que a ordem mundial seja afetada por isso.

"Gostaríamos de ter mais oportunidades para crescer."
Concordo. É algo que muita gente (ainda que nem toda a gente) quer. E esse querer e ambição devem ser equilibrados e acompanhados por moderação, tolerância e alguma paciência. Uma vez mais e de acordo com a minha experiência pessoal ao nível de recrutamento, o que vejo são pessoas que saíram das universidades há 3 ou 4 anos (depois de um curso com uma duração inferior aos chamados "pré bolonha") e que ambicionam auferir o ordenado (e já agora a função) de alguém que trabalha há 15 ou 20 anos no mesmo negócio ou função. Não vou discutir o tema das ferramentas e capacidades que essas pessoas possuem, nem da ambição que carregam, mas… e a equidade? Onde é suposto ficar? Alinhar com estas pretensões dos mais novos, não será também tratar como lixo e passar um atestado de incompetência aos mais antigos? No que diz respeito ao crescimento pessoal e profissional de cada um, os millenials deveriam interiorizar um adjetivo que muito gostam de referir (e exigir) sobre as organizações que os acolhem: "sustentável".

"Dêem-nos oportunidades para sermos líderes."
Claro que sim! Simplesmente pode não ser já amanhã. Porque é que alguém que só agora chegou ao mercado de trabalho, tem de ter a oportunidade de ser um líder no dia seguinte? Existem líderes natos, é certo, mas para se ser um bom líder, é também preciso ter primeiro uma boa aprendizagem sobre o que isso implica. É preciso observar outros bons líderes levarem a cabo a tarefa de liderar e aprender com eles. É preciso ver os erros que cometem e as coisas boas que fazem. É preciso definir e interiorizar bem o conceito de se ser líder, para depois tentar aplicá-lo, tendo a consciência de que também se pode (e irá) falhar. E ter a preparação para isso, sabendo levantar depois de cair, sabendo voltar a tentar. A liderança não é um prémio, muito pelo contrário, pode até ser um fardo. E se for levada a cabo levianamente pode ter consequências desastrosas, não só para quem lidera, mas sobretudo para quem é liderado (e no limite, para as suas famílias). Já liderei e posso dizer que perdi muitas noites de sono à conta disso. Por isso só consigo pensar que esta vontade urgente e irracional de se ser líder sem saber o que isso representa ao certo, pode ser um sinal preocupante de irresponsabilidade.

"Decidimos de acordo com os nossos valores pessoais."
Uma frase bonita para se colocar num autocolante. Não quer dizer absolutamente nada. Obviamente que todos nós decidimos de acordo com os nossos valores pessoais. Simplesmente nem todos teremos os mesmos valores. Esta é uma das falácias da injustiça da generalização. Não obstante a geração a que pertencemos, somos todos pessoas diferentes. Crescemos de maneira diferente, expostos a realidades distintas, e o nosso caráter foi definido de acordo com a experiência individual de cada um. As empresas têm os seus valores, assim como as pessoas que nelas trabalham. O alinhamento entre ambos é importante, mas a vontade individual de cada um prevalecerá sempre, quer seja no sentido de aplicar os valores da organização, ou decidindo não o fazer e aplicando em detrimento disso os seus próprios (para o bem e para o mal).

"Achamos que o foco das empresas deve ir para além do lucro."
Concordo. O foco das empresas deve ir (e hoje em dia assim é na maioria dos casos) para além do lucro. O que vemos hoje em dia são empresas que se preocupam com as pessoas que nela trabalham, com a sua pegada ecológica, com a sua intervenção social, entre outros. Se pensarmos na evolução das empresas de há 100 anos para cá, essa evolução torna-se clara e óbvia. Esse caminho foi e continua a ser percorrido, essa orientação é cada vez mais um pressuposto do que uma opção e… que eu saiba… não foi algo que os millenials tenham inventado, mas sim algo que foi colocado em marcha muitos anos e gerações antes de estes aparecerem. Ah, mas importa referir que, sem lucro, as empresas não existem. Sem lucro, as empresas não podem ir além de pagar o salário aos seus colaboradores, criando mais e melhores condições para alcançar as muitas exigências que os millenials colocam. Sem lucro as empresas não crescem, e não crescendo, afundam-se. Uma vez mais, neste como em tantos outros chavões, a virtude encontra-se algures no meio.

"Valorizamos a sustentabilidade nas organizações."
Ainda que (de uma forma egoísta) isso possa parecer pouco relevante para alguém que não pensa em empregos para a vida, e que pouco mais que um ano se dedica a cada organização por onde passa. É mais uma vez óbvio que a sustentabilidade das organizações é algo a valorizar, dizer o oposto seria simplesmente estúpido. Mas e a sustentabilidade relativa às pessoas que trabalham nessas organizações? É sustentável para uma organização ter de recrutar dezenas ou centenas de pessoas, todos os anos, porque as que lá estão "não querem empregos para a vida", ou perante a primeira adversidade batem com a porta? É sustentável ter que mudar uma pessoa de funções de um dia para o outro, porque se não o fizer essa pessoa vai-se embora? É sustentável criar falhas na equidade das organizações, porque "aquela" pessoa é mesmo necessária para uma determinada tarefa e se não lhe dermos o que ela quer, não vem? É sustentável criar cada vez mais e mais regalias para pessoas que cada vez menos lhes dão valor? Cada vez temos empresas que tentam ser sustentáveis, à custa de pessoas insustentáveis, o que se revela inevitavelmente um paradoxo, cujo resultado a longo prazo é para mim incerto. À luz dos dias de hoje, sou velho, pelo que poderei nem sequer assistir a um desfecho sobre esta matéria.

Dos poucos leitores que este texto possa ter, certamente uma parte significativa não gostará do que lê (se não a maioria). Ou porque o vão rotular de politicamente incorreto, ou desprovido de visão, ou preso a uma forma de estar e de ser que pertence ao passado. No entanto (e assumindo claramente que talvez por estar eu próprio a envelhecer) a cada ano que passa este sentimento é mais forte em mim (apesar da confiança que tenho nas minhas próprias capacidades). Se é resultado de algum receio de ser eu próprio visto como obsoleto? Sim, já o vi acontecer no passado a pessoas que me são próximas, e quando se nos apresenta à frente é um caminho difícil e duro de percorrer. Se essa é a principal razão do meu sentir? Não, porque mais do que a injustiça de imaginar que quem percorreu e percorre atualmente o seu caminho (de uma forma completamente válida) no mercado de trabalho dos dias de hoje possa ver o seu prazo expirar compulsivamente, aborrece-me a injustiça de isso acontecer porque quem vem aí pode não saber aproveitar estas pessoas, o seu conhecimento e a sua experiência, para construir o seu próprio caminho de uma forma sustentável, crescendo sem saltar degraus na escada da sua evolução pessoal e profissional, só porque isso (como tantas outras coisas nos dias de hoje) é moda e aparentemente fácil. Uma última nota a todos os millenials: a geração seguinte dos centennials (ou Z) está aí e depois dessa virá outra, pelo que a obsolescência tocará inevitavelmente a qualquer um, a uma velocidade cada vez maior…

terça-feira, julho 17, 2018

Um Tesourinho...

Tropecei há alguns dias nesta imagem, e resolvi partilhar. Alguns pormenores interessantes nesta "Carta Chorographica" de Portugal, como a região de "Alemtejo", ou "Traz-os-Montes", assim como os cerca de 5 milhões de habitantes no continente. Nostalgia de um tempo que já não vivi.


segunda-feira, julho 16, 2018

Um Novo Ciclo

Decisão tomada. Depois de cerca de 5 anos no mundo da consultoria (subtraindo um curto período de 6 meses pelo meio em que resolvi experimentar outras andanças), é tempo de mudar novamente de vida (leia-se, de trabalho). Não era algo que procurasse ativamente, mas foi um convite que recebi bem, ainda que com as devidas preocupações e apreensões que fazem parte deste tipo de tomada de decisão… A oportunidade de mudar de ares é sempre apelativa. Uma página em branco, na qual nos podemos reescrever e por isso redefinir. A perspetiva de evitar alguns erros que nos reconhecemos no passado, trabalhando no sentido de criarmos uma versão melhor de nós próprios. A isso aliada a possibilidade de rever e trabalhar com pessoas com quem já tive o privilégio de o fazer no passado, foi esta a lista dos motivos que me levaram a tomar a minha decisão final. Deixo para trás um trabalho que julgo ter feito com alguma competência e dignidade, um grupo de colegas e amigos dos quais terei saudades e o sentimento de dever cumprido. Não terei sido perfeito, mas julgo que ninguém o será. Agora é tempo de começar a viver o "phase out" de uma casa pintada de verde, e começar a preparar a entrada noutra casa desta feita pintada de laranja. São já algumas as cores pelas quais passei, mas acredito e espero sempre que a seguinte seja a que me fica melhor, e desta feita não é exceção. Resta-me aguardar algumas semanas, já com uma certa ansiedade. As férias pelo meio irão ajudar.