terça-feira, junho 09, 2026

A Mestria de Não Desistir

O último ano foi particularmente exigente para mim. Defini para mim próprio um conjunto variado e alargado de objetivos a alcançar em diferentes aspetos da minha vida e acabei por, em certos momentos, me sentir assoberbado e achar até que tinha arranjado areia a mais para a minha camioneta. Mas como em tudo na vida, o melhor que podemos fazer quando queremos alcançar algo (mesmo que nos pareça difícil ou “impossível”) é começar. Todo e qualquer caminho se percorre com um primeiro passo e, por vezes, somos nós quem cria os nossos próprios obstáculos que nos subjugam perante a inércia e a procrastinação, e que acabam por nos paralisar e impedir de avançar.

Há quase 20 anos fiz uma coisa que não costumo fazer muitas vezes. Desisti de algo. E sei-o porque as coisas das quais desisti ao longo da vida, conto-as pelos dedos de uma mão, mas estou bem ciente quais foram. Este “algo” a que me refiro agora, foi um exemplo, durante uma transição entre duas fases profissionais. Estava eu precisamente a meio de um curso de mestrado, tinha concluído toda a parte curricular com bom aproveitamento, tinha já redigido e publicado um artigo científico e apresentado o mesmo em conferência internacional. Estava por isso já dedicado à elaboração da tese final quando a exigência de um novo desafio profissional que decidi abraçar começou a ter um peso excessivo na minha vida. Muitas “noitadas” que me foram roubando lentamente o tempo e a energia, até ao momento em que percebi não iria conseguir conciliar as duas coisas. Na altura, senti que não seria capaz e… desisti. Talvez pudesse ter feito algo diferente, mas na altura, naquele contexto, foi o que aconteceu. E é por isso que, 20 anos depois, tem um sabor especial fazer (da estaca zero) aquilo que não consegui levar a cabo nessa altura.

Voltei a ser estudante. Levei o meu cérebro para caminhos que este já não estava habituado a percorrer, obrigando-o a exercitar-se tal qual um músculo que não trabalha durante algum tempo e de repente tem de acordar. Percebi que sou agora uma pessoa intelectualmente diferente, que faz as coisas de maneira distinta, não sendo necessariamente pior do que aquilo que era anteriormente. Uma espécie de compensação e equilíbrio entre maturidade e energia da juventude (aquilo que possa começar a faltar por um lado, compensa-se pelo outro).

Foi assim que percorri o meu caminho, novamente, ao longo do que foram pouco mais de dois anos. Tive aulas, estudei, fiz provas, trabalhos, apresentações, escrevi mais um artigo, elaborei a minha dissertação, defendi-a e posso considerar que fui bem-sucedido em tudo. Foi duro, porque mais uma vez a vida prega-nos sempre alguma partida, e novamente o contexto profissional afigurou-se como um obstáculo. Mas desta vez não levou a melhor. Persisti, resisti e terminei aquilo a que me propus. É por isto tudo que não posso deixar de me sentir orgulhoso. Não apenas porque alcancei um objetivo ou pela importância de um título académico (que nos dias que correm vale cada vez menos), mas sobretudo porque de alguma forma sinto que coloquei um risco sobre aquela desistência que mantinha na minha lista desde há 20 anos.

segunda-feira, junho 08, 2026

Reflexões de um Principiante...

 

Há nove anos comecei uma jornada, para chegar hoje ao que considero o início de um novo caminho a percorrer. Sem ter pensado muito nisso na altura, sobretudo para acompanhar o meu filho mais velho que à data tinha apenas 7 anos de idade na prática de uma atividade desportiva, inscrevi-nos aos dois no Kenpo. Uma arte marcial com as suas origens mais remotas na China, com um período de desenvolvimento Japão e com a sua mais recente evolução no Havai. Tal como esta arte marcial fez o seu longo caminho até aos dias de hoje, também eu, o meu filho mais velho e, entretanto, também o mais novo, fizemos o nosso próprio caminho. E com a felicidade e sorte que poucos têm de o percorrer assim, juntos e em família. São imensos momentos partilhados ao longo de vários anos, todas as semanas, muitas vezes aos fins-de-semana, por vezes ao longo de vários dias consecutivos. É um crescimento conjunto, partilhado, sentido, dentro de uma outra família. Uma “Ohana”, como dizem os havaianos, na qual evoluímos e fazemos os que estão à nossa volta evoluir connosco. Sempre através da partilha e entreajuda, uns com os outros, crescemos mental e fisicamente.

Os últimos três dias foram intensos como sempre o são no final de cada época. Por um lado, o olhar escrutinador de vários mestres de diversas artes marciais, vindos de diferentes partes do mundo, que fazem cair sobre nós o peso da responsabilidade daquilo que fazemos. A intensidade de muitas horas de aprendizagem intensiva que testam a capacidade e resistência do nosso corpo. Por fim, a pressão que decorre da competição, naquilo que melhor carateriza esta arte marcial: a defesa pessoal. Foram três dias que representaram o culminar dos últimos nove enriquecedores anos de experiências partilhadas, de muito esforço, dedicação, treino, sangue (literalmente), suor e também algumas lágrimas. No final, em vez de simplesmente sentir que cumpri um objetivo, deparei-me com uma perceção diferente: a de quem tem um novo início pela frente. Um virar de página para encontrar um caderno em branco, onde terei a oportunidade de aprender o que não sei e corrigir aquilo que julgo saber.

O primeiro grau de um cinto negro, como aquele que agora alcancei, tem a habitual designação de “primeiro dan”, ou “shodan” (em japonês). Esta palavra significa literalmente “grau inicial/principiante”, o que eleva a responsabilidade de qualquer artista marcial chegado a este patamar da sua evolução. Esta graduação acarreta mais obrigações e responsabilidades do que qualquer um dos nove graus ou “kyus” anteriores. É o equivalente a aprender o básico, como ler e escrever, para agora sim conseguir estudar. E é por isso que, pessoalmente, a vejo como um novo ponto de partida, que obriga à humildade de reconhecer que só agora estou a começar o meu percurso. Espero estar à altura desta responsabilidade e espero que esta aventura seja tão ou mais enriquecedora como foi a que vivi até aqui.

Como nos ensina a filosofia do Kenpo, “uma viagem de mil milhas começa com um passo e quando chegarmos ao cimo da montanha… devemos continuar a subir”.

quarta-feira, junho 03, 2026

Viagem pela N222 - A Crónica (Dia #3)

O terceiro e último dia contava ainda com o grupo completo, e assim se manteria durante boa parte da manhã. O objetivo era irmos todos almoçar uma bela sandes serrana na Serra da Estrela, para depois a partir de aí o grupo se começar a dispersar. Assim, albardámos as motas, atámos as peças soltas das Honda com cintas e elásticos e, antes de nos fazermos à estrada, atravessámos os poucos metros que nos separavam da fronteira para abastecer a preço espanhol! Só então seguimos viagem.

 

O primeiro troço de estrada até à Guarda é bastante bom. O tempo ainda estava fresco, pelo que foi descontraidamente que serpenteámos por esses quilómetros até lá. Depois da Guarda, rumámos pela N18 até Belmonte, onde fizemos uma paragem junto ao castelo para a foto de grupo que se impunha, abancando naturalmente na esplanada mais próxima, do café O Brasão para mais dois dedos de conversa.

 

O sol brilhava e o dia estava convidativo para continuarmos a rolar. No entanto, alguns elementos tinham deveres familiares (que é como quem diz, perguntaram às respetivas esposas se ainda tinham vontade de andar mais um bocado de mota, e elas explicaram-lhes que não), pelo que o Sérgio e o Alfredo optaram por seguir caminho rumo às respetivas casas, enquanto os restantes percorriam as curvas que separam a Covilhã, da Torre. Chegados à Torre, fomos surpreendidos com uns resquícios de neve, que obrigaram a registo fotográfico.

 

Mas o que nos levava ali não era só vistas e neve… era a sandes serrana! Mal entrámos na loja do Centro Comercial da Torre já tínhamos uma fatia de bolo com queijo da serra nas nossas mãos, o que nos abriu imediatamente o apetite e despertou a sede. Mais uma dose de conversa, comida, bebida, e até houve quem aproveitasse para uma sesta ligeira!

 

 

Dando por concluída a visita à Torre, o final da nossa rota avizinhava-se… ainda assim, decidimos seguir uns quantos em conjunto por mais uns quilómetros, passando pelo Fratel, Ponte de Sor, com paragem em Montargil para a despedida. O núcleo alentejano optou por seguir viagem. Parece que uma daquelas motas que Kem Tem Troca estava a querer dar um ar da sua graça, e também ainda havia dúvidas que as peças soltas da Honda chegassem ao seu destino, apesar das cintas e elásticos.

 

Por isso, o último núcleo do grupo despediu-se no Parque de Campismo de Montargil, com uma (ou duas) abaladiça(s) e a partir daí rumou-se a casa de forma mais dispersa, mas ainda com as lembranças daqueles 3 dias de convívio passados em excelente companhia na estrada, à mesa ou numa qualquer esplanada.

 

terça-feira, junho 02, 2026

Viagem pela N222 - A Crónica (Dia #2)

Quando referi “começar pela fresquinha” não tinha em mente um dia de inverno, mas assim se apresentou a manhã seguinte. Céu encoberto e com uma ligeira chuvinha a fazer-se sentir. Nem no restaurante panorâmico do hotel onde tomámos o pequeno-almoço se conseguiu ter uma vista decente de toda aquela zona lindíssima, próxima da foz do Douro. Mas também não foi isso que nos desmotivou!

 

O Douro era precisamente o mote que nos levava ali. O objetivo era percorrer a N222 ao longo do dia, com o seu traçado serpenteante tantas vezes próximo do rio ou pelo meio da região vinhateira. O primeiro abastecimento do dia teve lugar à saída de Gaia, o que me levou logo a fazer as contas de cabeça ao tempo médio de abastecimento, para o resto da viagem, para um “grupinho” de 13 motas…

 

Os primeiros quilómetros da N222 à saída de Gaia não são particularmente interessantes. Além disso, os vários pontos de paragem que tinha definido mentalmente afiguraram-se-me ambiciosos, pelo que fiz alguns ajustes de forma a permitir um convívio tranquilo, sem stresses nem horas muito rígidas para chegar aqui ou ali. Assim, a primeira paragem digna de nota foi no bar do Cais do Porto de Abrigo. E em boa hora, porque, entretanto, as nuvens desapareceram, o sol surgiu e o calor obrigava a mais hidratação.

 

 

Logo a seguir fizemo-nos à estrada cujo traçado nesta fase acompanhava mais frequentemente a margem do rio Douro, chegando a uma das partes que mais me agrada, junto ao Pinhão.  Mas viagem que se preze não é digna desse nome sem um engano ou desvio, e foi precisamente isso que aconteceu quando apanhámos um corte de estrada, acredite-se ou não ainda consequência da tempestade Kristin, que nos levou a percorrer alguns quilómetros extra por uma serra que até acabou por nos proporcionar belas vistas!
Retomada a N222, pouco tempo depois estaríamos perto do Pinhão. Seria aqui que iríamos atravessar o rio em busca de local para almoçar. Um ligeiro percalço quando, precisamente no cruzamento antes da ponte, um pequeno grupo se separou e seguiu em frente. Mas como ninguém fica para trás, rapidamente comuniquei com o Fernando M., e armei-me em “batedor” saindo em busca do grupo perdido.

 

Essa minha saída revelou-se desnecessária pois o grupo regressou sozinho ao Pinhão. Rapidamente estaríamos todos juntos, sentados à mesa do Restaurante Churrasqueira do Pinhão por sugestão excelente do Nuno M., prontos para mais uma bela refeição nutritiva.

 

Degustação concluída para nós e, antes da saída do Pinhão, abastecimento para as motas. Seria gasolina bem gasta, já que da parte da tarde foram percorridos os melhores quilómetros de estrada (na minha opinião) que fazem parte da N222. O dia continuava a aquecer mais que o desejável, pelo que foram necessárias várias paragens para hidratação ao longo do percurso… o Diogo que se juntou a nós pela primeira vez, parecia bastante impressionado com as caraterísticas de dromedário que a maioria dos elementos do grupo demonstrava.

 

Concluída a N222 (seguíamos tão “embalados” que até nos esquecemos de tirar foto ao célebre Marco, tendo o Vítor P. que ir lá sozinho para registar o momento…), o objetivo final seria rumar a sul em direção a Vilar Formoso. O local da pernoita seria o Hotel Lusitano. Apesar de estarmos mais ou menos dentro do plano previsto, reservei restaurante para podermos estar à vontade com as horas, o que nos deu a oportunidade de fazer os últimos quilómetros mais tranquilamente, apreciando a paisagem e a temperatura que já se fazia sentir mais amena.

 

Chegados ao hotel, fizemos o check-in nos quartos. Houve quem não gostasse das instalações que cuidadosamente reservei de acordo com as preferências individuais de cada um (sinceramente… não percebo qual era o problema da malta com as camas de casal…), pelo que ainda se fizeram alguns ajustes nesse sentido. Check-in feito e já de banhinho tomado, ainda deu para um belo convívio na esplanada do hotel onde foram deitados abaixo mais alguns finos e algumas minis.

 

Mas a noite já se fazia sentir, pelo que percorremos a pé os cerca de 100 metros que nos separavam do Restaurante O Turismo, mesmo colado à fronteira, onde teríamos a felicidade de ser atendidos por um daqueles empregados à moda antiga, que ainda se preocupa em servir bem a malta e nos fez uma sugestão de partilha de pratos de carne que foi muito bem recebida por todos.

 

O jantar foi mais uma oportunidade de fazer a algazarra do costume com conversa de motas e não só. Até porque houve quem teimasse em falar de corta-relvas (vá-se lá entender porquê…). Mais um excelente convívio regado com boa disposição, algum vinho e cerveja, que se prolongaria no regresso ao hotel por nova paragem na esplanada, antes de darmos a noite por concluída.

segunda-feira, junho 01, 2026

Viagem pela N222 - A Crónica (Dia #1)

No passado dia 29 de maio fiz aquele que será talvez o meu único passeio de mota deste ano, digno desse nome, ao longo daquilo que seriam 3 dias de boa disposição, bom convívio, alguns comes e bebes e muitos quilómetros partilhados. Dia 29 foi uma sexta-feira, por isso o objetivo comum era chegar a Vila Nova de Gaia ao final do dia, sendo o caminho percorrido até lá mais ou menos livre de acordo com as circunstâncias e ponto de partida de cada um. 

Uns quantos já levavam alguns dias de estrada percorrida sobretudo por terras de “nuestros hermanos”… outros tiraram o dia para fazer a viagem com mais calma e tranquilidade… outros saíram do trabalho e simplesmente fizeram o caminho até lá em modo papa-léguas (nos quais eu me incluo, assim como o meu companheiro Vitor Z., com quem combinei ponto de encontro na AE de Santarém).

 

O Sérgio estava com tanta pressa de se juntar ao Alfredo, Diogo, Fernando M. e Nuno, que até perdeu as solas dos sapatos.

 

Primeiro momento de hidratação completo, e lá seguimos viagem para parar pouco tempo depois num corte de estrada devido a acidente. Uns quantos quilómetros a filtrar debaixo de algum calor, mas felizmente assim que chegámos ao local onde a BT estava a cortar o trânsito, o mesmo reabriu e pudemos seguir viagem sem grandes atrasos.

Finalmente chegámos (eu e o Vitor Z.) a Vila Nova de Gaia, onde alguns companheiros do núcleo alentejano do grupo (Fernando, Nuno, Vitor P. e Ana) já se haviam instalado no Hotel Black Tulip, não sem antes criar algum alvoroço de forma a garantir estacionamento para todas as motas, que não seriam poucas, no parque privado do hotel (obrigado Fernando R.!). O Bruno não queria ser visto com mal vestidos por isso optou por ficar no Hotel B&B para não haver cá misturas!

 

O resto da malta foi chegando a pouco e pouco, mas como tínhamos hora marcada no Restaurante Ar de Rio no cais de Gaia, fizemo-nos ao caminho (que era curto). O Paulo, o tripeiro do grupo, foi ter connosco ao restaurante diretamente, montado na sua Ducati e com o seu capacete BMW. Chegados ao cais ainda tivemos a oportunidade de ver o Douro e a ponte D. Luis com a luz do dia, enquanto o sol se ia pondo.

 

A conversa animou rapidamente como de costume, e degustadas já umas belas francesinhas, a malta ainda estava com sede, pelo que atravessámos o rio e fomos até ao Cais da Ribeira em busca de uns finos para arrematar a noite. 

 

Mais um alvoroço numa esplanada em que não tinham vontade de atender clientes, e lá descobrimos outra mais adiante no Cais da Estiva, no Wine Quay Bar, onde os finos chegaram rapidamente e fomos mais bem tratados (obrigado outra vez Fernando R.!).

 

Com isto tudo já se fazia tarde, pelo que coloquei o chapéu de organizador e comecei a imaginar o pessoal a deixar-se dormir na manhã seguinte (o Paulo pode confirmar que não seria algo inédito…) ou começar a rolar ainda com os olhos cheios de ramelas, o que representa um perigo para a condução, por isso sugeri que fossemos descansar para começar o dia seguinte pela fresquinha. Além disso o Vitor Z. estava com curiosidade de conhecer o Pedro, o seu companheiro de quarto, que optou por ir diretamente para o hotel e dormir na hora recomendada pelo Vitinho…

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

Se a Vida te Dá Limões...

Numa deslocação recente a Espanha, na sequência de um atraso no voo de partida (situação infelizmente mais recorrente do que o desejável), assisti à rápida degradação do estado de espírito de vários passageiros que, como eu, aguardaram algumas horas para poder finalmente embarcar no voo que nos levaria a todos ao nosso destino. Era visível no rosto de todas as pessoas o cansaço e a falta de paciência, mesmo após finalmente conseguirmos estar sentados no avião, aguardando a partida. E foi aqui que assisti a algo que ainda não tinha assistido antes, neste tipo de situação. Um dos assistentes de bordo iniciou as comunicações do costume, aos passageiros, mas em vez de debitar as habituais informações acerca do voo, temperatura e horário nos locais de partida e chegada, etc., recorreu à sua criatividade para desmontar o ar sisudo dos passageiros e colocar a todos um ligeiro sorriso no rosto.
 

Começou com:
“Bem-vindos a bordo deste voo, com duração prevista de 10 horas, rumo às Bahamas…”
 

Recordo que se tratava de um voo “low cost” de curta duração com destino ao país de “nuestros hermanos”. Durante o voo, continuou a dar largas à imaginação:
“Estamos sensivelmente a meio do nosso voo, pelo que vamos dar início ao serviço de jantar, que hoje conta com dois pratos principais: lagosta e cordeiro assado no forno…”
 

Mais perto do fim, concluiu:
“Senhores passageiros, vamos iniciar a descida. Se durante a vossa estadia decidirem degustar uma paelha acompanhada de ‘una cerveza’, estarei à vossa disposição. Aproveito para referir que, para aqueles que necessitarem de viatura de aluguer, no nosso site podem encontrar Ferraris a 1 euro por dia.”
 

Ao longo da viagem presenteou-nos com várias deixas do mesmo género, estas são apenas alguns exemplos. E fê-lo sempre traduzindo em 3 idiomas, no tom formal habitual destas comunicações, o que só tornou a situação ainda mais caricata. Isto fez-me lembrar a velha expressão que diz que “se a vida te dá limões, faz uma limonada”. De facto, nem sempre as situações com que lidamos diariamente, tanto em contexto profissional como pessoal, correspondem às expectativas que geramos quando acordamos, sobre o dia que temos pela frente. Ainda assim, não somos meros expectadores passivos daquilo que nos acontece. Temos uma palavra a dizer sobre a forma como lidamos com aquilo que nos acontece, e isso faz toda a diferença. Pessoalmente, fiquei a desejar ser capaz de fazer limonadas como a que este senhor fez perante uma situação menos positiva.

sábado, dezembro 27, 2025

Leitura das Gordas

Começar por clarificar que as "gordas" não são moças anafadas, senão uma alusão aos títulos da imprensa nacional. Este trocadilho é ele próprio um exemplo daquilo que pretendo mencionar, nomeadamente, a distância que vai de ler meia dúzia de palavras que constam num título de um texto, a ler o texto em si. Hoje em dia, os guerreiros do teclado e os especialistas de coisas não hesitam em alimentar-se apenas destas "gordas" para verter a sua sabedoria de mesa de café, e deixar o resto (leia-se a informação) a quem tiver paciência para isso. Exemplos recentes são a retirada de contexto da afirmação do primeiro-ministro no seu discurso de Natal, quando referiu que o país devia assumir uma mentalidade à Cristiano Ronald, ou do ministro da educação quando referiu que a utilização do SNS pelas classes mais pobres é o que leva à degradação do mesmo. Qualquer uma das duas afirmações (retirada do seu contexto) pode dar aso a múltiplas interpretações, sendo que os previamente mencionados guerreiros do teclado ou especialistas de coisas, regra geral, têm a propensão para se afastar do significado original o mais longe possível e na direção diametralmente oposta do significado original, desde que isso lhes permita brilhar e obter algum tempo de antena.
Quanto à alusão ao Cristiano Ronaldo do PM, as críticas assumiram alarvidades como defender que o atleta não podia ser dado como exemplo, uma vez que este defende regimes ditatoriais (alusão à sua recente viagem aos Estados Unidos numa comitiva da Arábia Saudita). No caso do ministro da educação, a afirmação foi de imediato vista como altamente discriminatória e até racista, insinuando que eram os utentes que deteriorava os serviços em questão. Independentemente de o conteúdo real poder ele próprio ser naturalmente alvo de críticas (os guerreiros do teclado e os especialistas de coisas não discriminam), em nenhum dos casos houve o cuidado de uma leitura mais direta, simples e contextualizada das palavras de quem as proferiu, nomeadamente um incentivo e motivação ao alto rendimento (ao estilo de atletas de alta competição como o é o CR7) ou uma autocrítica ao modelo de gestão do SNS que privilegia pouco o investimento em serviços públicos usados por classes mais baixas.
Não faço esta leitura por ser particularmente admirador ou defensor do primeiro-ministro ou do ministro da educação. Na realidade dá-me igual serem estes ou outros os intervenientes, servem apenas como um exemplo de um sintoma, que revela que a sociedade dos dias de hoje prefere o negativo ao positivo, a crítica destrutiva à construtiva, a antipatia à empatia, o ódio ao amor. E é por isso que, de algum forma, estamos todos condenados enquanto não descobrirmos uma forma de evoluir enquanto sociedade. Porque o caminho que estamos a seguir, não nos leva a bom porto.

sexta-feira, dezembro 12, 2025

Dois Anos...

Hoje vim aqui parar não sei muito bem porquê... e apercebi-me de que já não escrevia há mais de dois anos. Dois anos sem fazer uma coisa de que gosto e, nem sei explicar muito bem porquê. Porque não faz muito sentido deixar de fazer algo de que se gosta, só porque temos de dispensar algum do nosso tempo para fazê-lo. Por essa ordem de ideias faz mais sentido evitar perder tempo com coisas supérfluas ou desnecessárias (já para não falar naquelas que não gostamos mas somos "obrigados" a fazer).

O exercício de escrever esta breve publicação foi uma demonstração que decidi fazer a mim próprio, que mesmo a meio de um dia de trabalho, enquanto se faz uma pausa para o café, um par de minutos é suficiente para o efeito. E foi. E soube bem aplicar (mais uma vez) o desfibrilhador a este tasco das letras que tantas vezes me ajudou ao longo dos últimos 20 anos. Sim, faz na próxima semana 20 anos que publiquei um texto pela primeira vez neste blogue, quando os blogues eram algo na moda, coisa que agora já não acontece. Nunca fui muito de seguir tendências por isso vejo-me perfeitamente a continuar a escrever, aqui ou noutro lado qualquer, desde que vá fazendo a mim próprio recordatórios como este, para não me esquecer da importância da escrita para a minha saúde mental.

A ver se me disciplino o suficiente para recuperar este (bom) hábito.

terça-feira, outubro 10, 2023

Estacionamento e a Importância do Zen

Nos últimos anos tenho sempre tentado fazer pender a minha abordagem em relação a tudo na vida para o lado mais zen das coisas... infelizmente não sou perfeito e por vezes essa filosofia escapa-me e não resisto a ter uma ou outra reação mais cáustica. Na realidade acho até que me proporciona um certo equilíbrio mental, pelo que em bom rigor... está bem assim.

Ontem foi o caso, quando alguém resolveu estacionar o seu carro junto ao meu, assim...

Entendo que no mundo egocêntrico em que várias pessoas vivem, fazer este tipo de estacionamento, virar costas e ir à sua vida (enquanto fica também a tapar metade da entrada das instalações de uma instituição social), possa ser razoável. Para mim não foi e admito que me fez subir a temperatura do sangue meio grau.

Como não sou um tipo violento, decidi usar o intelecto. Redigi uma carta endereçada ao estimado proprietário da viatura reunindo o máximo de dados possíveis, incluindo o nome da companhia de seguros e o número de apólice associada à matrícula do carro, que rezava mais ou menos o seguinte texto:


 

Exmo. Sr.,
Proprietário da viatura Marca Modelo (matrícula 00-XX-00),

Na sequência de estacionamento do veículo supracitado, na Rua X, no dia 9/10/2023 durante o período da manhã, venho contactá-lo face aos estragos provocados na minha viatura.

Disponibilizo assim os meus contactos (nome e telemóvel) para que possamos falar pessoalmente e proceder ao respetivo preenchimento de declaração para efeitos de envio à companhia de seguros, a par das fotos que tirei da ocorrência.

Em alternativa e caso prefira não entrar em contacto comigo por algum motivo, poderei se preferir estabelecer contacto direto com a sua seguradora (Fidelidade – Companhia de Seguros, S.A.) fazendo alusão ao seu número de apólice (XXXXXXXXX) para este efeito. Deixo assim ao seu critério a forma como podemos proceder, ficando a aguardar o seu contacto.

Com os melhores cumprimentos...


Na realidade não havia qualquer dano visível no meu carro, mas ainda assim achei que não devia deixar o assunto morrer sem qualquer tipo de consequência. Imprimi, assinei a carta e, ao chegar a casa, procurei a viatura (que entretanto já tinha mudado de poiso) colocando a minha missiva no para-brisas. Nesse mesmo dia, recebi o contacto do proprietário que, cheio de razão pois não tinha feito nada de errado e era impossível eu ter qualquer tipo de estragos no carro porque nem sequer lhe tinha tocado, ainda assim se disponibilizou para falar comigo.

Veio ter comigo acompanhado por guarda-costas (a esposa) e entrou logo na conversa a pés juntos, dizendo que o que eu dizia era impossível e que não tinha sequer tocado no meu carro (apesar de pelos vistos saber claramente de qual carro se tratava). Deixei-o falar um pouco, mostrei-lhe a fotografia e perguntei se o conceito de "tocar" dele era diferente do meu. A esposa quando viu a foto fez cara de bufa, e o senhor engoliu em seco. Na fase seguinte baixou o tom, disse que não era necessário "aquela carta..." e começou a justificar-se dada a dificuldade de estacionamento na rua. Perguntei-lhe (enquanto morador da mesma rua) se se importava então que todos os dias fosse encostar o meu carro ao dele, uma vez que é extremamente difícil de estacionar. O tom foi baixando e depois de lhe explicar que não tinha qualquer dano no carro, que só tinha redigido a carta porque queria chegar à fala com ele e fazer ver que não era correta a situação, a conversa acabou com um pedido de desculpas, um "passou bem" e um "adeusinho Sr. Marco".

Moral da história: por muito bom que seja ser zen, às vezes também sabe bem ser cáustico...

domingo, setembro 17, 2023

Viagem Alternativa pelas Serras do Centro - Dia #3

Dia #3 - A sorte protege os audazes...

O terceiro e último dia ainda nos reservava um percurso interessante, que nos apresentava alguns quilómetros interessantes de passeio antes do regresso a casa.



Apesar de o dia ter amanhecido com o sol (quase) a brilhar...



... havia no entanto um conjunto de previsões pouco animadoras, como tal... houve quem achasse melhor desertar. Com base nestas perspetivas meteorológicas, o Velasquez e o Bosco decidiram assim comer a bucha matinal e fugir à chuva fazendo o percurso mais direto para casa. A brigada do reumático (leia-se eu e o Sat_on_fire) persistiu e insistiu em fazer o resto do percurso traçado até decidirmos que seria altura de deixar de o fazer.

Mais tarde e ao longo do dia provar-se-ia mais uma vez que a sorte protege os audazes, pelo que houve quem apanhasse molha a caminho de casa, mas não fui nem eu nem o Sat_on_fire...

A saída do Sabugal foi antecedida pelo abastecimento matinal e despedida da malta que iria regressar mais cedo a casa. Já de cafezinho tomado, apontámos o azimute em direção à Covilhã, observando as nuvens ameaçadoras que se iam formando em nosso redor... Mais próximo da Covilhã, apanhámos estrada molhada, mas nada de intempérie. A determinada altura, constatámos que literalmente estávamos a passar nos intervalos da chuva!



E assim foi. Seguimos em direção a Unhais da Serra onde, quando chegámos, fazia um lindo dia de sol.





O dia estava realmente bom, e aproveitámos para fazer a primeira hidratação do dia precisamente em Unhais da Serra, no bar Quiosque 3 (onde ainda que de forma meio inesperada, até deu para lavar as vistas).

Antes de seguir viagem, ocorreu-nos que na Ponte das Três Entradas um dos acessos estava cortado, o que nos poderia dar dores de cabeça para manter o percurso planeado. Optámos assim por fazer uma correção ao plano original, fazendo antes uma passagem pelo Piódão e retomando mais à frente o percurso traçado (o que se revelou uma excelente opção).

Seguimos assim em direção a Vide, virando depois em direção ao Piódão por um caminho que já merecia um tapete de alcatrão em condições (diz que é para o ano...).





Uma vez chegados ao Piódão, o Sat_on_fire decidiu fazer as compras turísticas de queijo, licor e mel, enquanto fazíamos nova reidratação. Eu fiquei-me pela cevada. No final ainda recebemos uns "tóclantes" para colar nas motas, coisa que naturalmente não fizemos. Acabámos as "mines" e seguimos viagem.



Depois de chegar ao alto da serra e já começando a descer em direção a Fajão, deu para perceber que tinha havido por ali temporal do bom, já que as estradas, apesar de secas, estavam cheias de lixo arrastado pela água das chuvas. Mais à frente a própria Ponte de Fajão estava completamente atascada de lama, que deu lugar à escassa meia dúzia de metros de TT de toda a viagem...



Entretanto chegámos a Fajão onde contávamos almoçar no Pascoal. No entanto o restaurante estava fechado, pelo que nos dirigimos ao local onde anteriormente ficava o restaurante (na altura chamado Juiz de Fajão), onde dá sempre para desenrascar algum petisco. Mais uma vez, a sorte continuava a proteger os audazes. Perguntando se dava para petiscar alguma coisa, foram-nos oferecidos uns bitoques, não sem antes degustar um queijinho com marmelada.





Não sendo a melhor, foi sem dúvida a refeição mais bem servida e mais económica da viagem, tendo sido atendidos com a boa vontade de quem tinha acabado de limpar a água e lama que inundaram o restaurante na noite anterior, ao ponto de rebentar com o quadro elétrico. Mais do que satisfeitos, agradecemos a refeição e o atendimento e seguimos viagem. Também a boa vontade do S. Pedro se continuava a fazer sentir, passando incólumes pelos intervalos da chuva. Era de aproveitar.

Rumámos em direção ao Casal da Lapa, virando depois em direção à Pampilhosa onde não chegaríamos a entrar. Subimos antes em direção ao Cabeço da Urra onde fizemos uma paragem no miradouro para apreciar aquela paisagem. Fiquei surpreendido com a plantação de ervideiros que ali nasceu... bom sinal para a produção de aguardente de medronho da região!





A paragem seguinte seria em mais um local da praxe... o velho café da Picha, onde hidratámos novamente e onde tive a oportunidade de constatar que já rodava praticamente com pneus slick. Para o que faltava do caminho, já não seria grande preocupação, até porque o tempo se mantinha seco à nossa frente. A borracha seria suficiente para ainda curtir nas curvinhas rápidas em direção a Vila de Rei.



A partir daí o objetivo seria chegar a casa, fazendo os últimos quilómetros do dia por AE. Abastecimento e despedida feita em Santarém e entrámos na A1 para o troço final. Conseguimos chegar ao fim do dia sem dar uso ao equipamento de chuva e com mais uma barrigada de quilómetros por boas estradas e locais.



Um grande bem haja aos meus companheiros de viagem, pela companhia, convívio e camaradagem em mais uma aventura assim a modos que improvisada, mas que permitiu o controlo de estragos pelo facto de não termos conseguido cumprir com o nosso plano original. Tal como costumo dizer, mais vale um mau dia de férias do que um bom dia de trabalho, assim como mais vale uma viagem modesta do que nenhuma viagem. E ficaram mais uns quilómetros de estrada (no meu caso cerca de 1200...) partilhados com algumas histórias contadas e outras para contar.



Venha a próxima (... que o plano original não ficou esquecido).




PS: a borracha acabou assim...