domingo, junho 14, 2026

Um Exercício de Paciência

 

Nos últimos cinco meses convivi regularmente com dor física. É estranho constatar aquilo a que nos habituamos, mas no caso estava em crescendo e, ainda que num nível "tolerável" que não me impedia de funcionar, já começava a incomodar. Percebi que podia não ser apenas uma daquelas lesões desportivas passageiras, mas mais uma possível consequência dos maus tratos diversos e acumulados que tenho dado ao meu corpo ao longo dos anos, por isso fui ver do que se tratava. Estava certo: o diagnóstico foi uma rutura nos tendões supraespinhoso e subescapular do ombro esquerdo. Depois de receber os resultados dos exames pensei que teria alguma fisioterapia pela frente, mas o médico foi perentório ao dizer que, no meu caso, teria de ser alvo de cirurgia. Nas suas palavras, "os tendões não regeneram" e dada a minha idade e prognóstico, fazia sentido operar. Fui apanhado de surpresa e comecei logo a pensar de que forma isto teria impacto em tudo o que tinha para fazer no imediato e durante o período mais alargado de recuperação...

Entre atividades menos importantes como um passeio de mota agendado (do qual fui organizador), passando pelas artes marciais (cuja graduação tinha para fazer) e até considerando um conjunto de temas críticos do trabalho, tive de refletir e perceber como lidar com esta "bomboca". Quando perguntei ao médico se podia continuar a praticar desporto, respondeu-me um redondo "não", explicando que fazer isso seria a mesma coisa que "dar repetidamente com um martelo num dedo com uma unha negra". Disse-me ainda que "o desporto derruba os fortes e mata os fracos", o que me levou a decidir não voltar a falar com ele sobre este assunto. Confesso que não consegui abdicar de todo o tempo, esforço e dedicação e decidi que teria, pelo menos, de terminar esta temporada, mesmo que com cuidados redobrados para não agravar a minha situação. Ainda assim segui outros conselhos, como fazer fisioterapia antes da cirurgia. Não percebi muito bem qual o objetivo na altura, mas reconheço que foi uma benção. Além de ser benéfico para a cirurgia, a dor constante que era já minha companheira de todos os momentos desapareceu e passou a dar um ar da sua graça apenas quando fazia movimentos específicos. A condução diária de mota deixou de ser um desafio, ao ponto de conseguir fazer uma viagem de mais de mil quilómetros em três dias. Acabei por recuperar alguma qualidade de vida nas últimas semanas que antecederam a operação.

A vida não se planeia, acontece. Por mais planos que possamos fazer, ela pode ter planos diferentes e, muitas vezes, quando não paramos o nosso corpo, o nosso corpo para-nos. Por isso, depois da ginástica de encaixar da melhor forma possível as várias peças do puzzle da minha rotina e lista de afazeres, chegou a hora de tratar de mim. E assim foi. Esta semana (mais uma vez citando o meu médico) "fui levar um pontinho". Outra primeira experiência a acrescentar, já que nunca tinha sido operado. Foi tudo muito rápido: entrei no hospital quinta-feira de manhã, fui para o bloco ao início da tarde, a médica anestesista disse-me "até já" e depois disso só me lembro de acordar no recobro, passadas duas ou três horas. Pouco tempo depois estava no quarto, onde vi uma dezena de episódios de séries variadas, bebi chá, comi umas bolachas, jantei uma sopa, fiz chichi para uma garrafa de plástico e surpreendentemente consegui dormir qualquer coisa até ao dia seguinte. Outra primeira experiência: banho dado por uma enfermeira. Não podia ter sido mais diametralmente oposta ao cliché de algumas fantasias masculinas. Honestamente e mesmo com todas as dificuldades que sentia, preferia ter tomado aquela espécie de "banho" sozinho. Por fim, a breve conversa com o médico seguida de alta, e aqui estou, em casa, a escrever sobre o assunto (com um braço ao peito).

Enfrentarei agora o exercício de paciência de seis semanas de imobilização do ombro e cerca de seis meses até à recuperação total. Decidi não meter baixa, não só pela responsabilidade que sinto relativamente a alguns assuntos do trabalho que me preocupam, mas também para não sucumbir ao tédio de estar em casa sem fazer nada. Não posso conduzir, não posso fazer atividades físicas e as coisas simples como tomar banho, vestir-me, comer ou escrever são para já uma espécie de "jogo" no qual sinto que me estou a tornar proficiente apenas ao final de dois dias. Espero que a recuperação siga em nota positiva, acrescentando pontualmente uma coisa ou duas à minha rotina limitada, a começar pela fisioterapia! Mas algo me diz que este tema será o mote da escrita de mais um par de publicações, por aqui. Nem que seja para redigir um tutorial de como cortar bifes só com um braço.

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