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terça-feira, agosto 02, 2022

Adeus Avozinho...

"Olh'ó meu netinho!!!"

Era assim que o meu avô atendia o telefone sempre que eu lhe ligava... foi assim que o fez no passado dia dos avós quando em boa hora fui lembrado que era uma boa ocasião para lhe dar um telefonema... era assim que me saudava e que agora nunca mais voltará a saudar com essa alegria que ia buscar mesmo quando as forças para tudo o resto lhe pareciam faltar. Bendito último telefonema em que falámos só disto e daquilo (até de medronho) mas que serviu para alegrar um pouco o seu dia (e consequentemente o meu). Mal sabia eu que seria a última vez que conversaríamos... Ainda bem que liguei. Dois dias depois a sua luz apagou-se de forma rápida e sem aparente sofrimento, sem necessidade de hospitais ou aquele prolongar de sofrimento mais que desnecessário.

Na semana anterior e depois de um episódio que o fez ir passar quase 24h nas urgências de um hospital, comentava comigo que estava cansado. Ele, que até então dizia sempre que o único problema que tinha eram as pernas... reconhecia que o "motor" como ele lhe chamava começava a falhar. Lá lhe escapou num breve momento de desânimo que achava que estava quase a partir, mas eu respondi-lhe que não somos nós que decidimos o momento, ao que concordou comigo e seguiu em frente com a conversa, buscando algumas memórias longínquas que me fizeram estremecer por dentro por serem as minhas também. Existe qualquer coisa na constatação que alguns dos melhores momentos da minha vida foram também os dele. Coisas simples, pequenas, mas que ficaram na memória de ambos e que tinham relevância para os dois.

As brincadeiras no relvado das traseiras na casa da Quinta do Morgado, a aproveitar o fresco do final da tarde...
O toque dos pedaços de madeira e das ferramentas arrumadas na cave onde fazia alguns trabalhos...
O cheiro das sardinhas que assava no quintal ou do franguinho que ocasionalmente trazia para casa...
A minha chegada de surpresa quando resolvia ir ter com ele, de expresso, para passar as férias de verão na terra...
As brincadeiras e gargalhadas quando dormíamos todos no chão da sala nas noites mais quentes de verão...
A satisfação que sentia quando o ajudava numa qualquer tarefa como semear batatas, cortar lenha ou fazer a vindima...
O orgulho que sempre demonstrou pelos pequenos objetivos que eu fui alcançando ao longo da minha vida e que vivia quase mais intensamente do que eu...

Enquanto percorria as várias centenas de quilómetros que me levariam ao derradeiro local da despedida do meu avô (a sua terra, para onde sempre quis voltar), consegui percorrer também durante várias horas um conjunto de memórias e lembranças que nunca se repetiram nem sobrepuseram, e sempre tiveram um denominador comum: o amor que sentíamos e sentimos um pelo outro.

Nos últimos tempos e apesar da saúde não abundar, andava feliz, a saborear as pequenas coisas, com uma certa "leveza". E por estranho que possa parecer, essa "leveza" (já tentei mas não consigo explicar melhor ou por outras palavras aquilo a que me refiro) fez-se sentir ao longo de dia duro... difícil... muito difícil... mas que parecia estar presente nas conversas que as muitas pessoas (mais do que aquelas que eu imaginava ver num funeral marcado de um dia para o outro, longe da metrópole e no seu último regresso à terra, durante um dia de semana e em período de férias para muitos) tiveram ao relembrar as memórias que tinham do Ti Zé Custódio. Só pode significar o óbvio que é a natureza do ser humano que partiu e que com a sua partida nos deixou a todos verdadeiramente mais pobres.

Esta pessoa que, não o dizendo apenas por ser meu avô, era um modelo de como devia ser toda a espécie humana... alguém que exalava bondade, simpatia, empatia e amor pelo próximo... alguém que passou a vida a ajudar os outros muito mais do que a ajudar-se a si próprio... alguém que nunca teve uma atitude negativa para com ninguém, a que se possa apontar o dedo... era o ser humano mais simples e ao mesmo tempo mais complexo que conheci. Uma vida inteira de trabalho, sacrifício, dedicação aos outros, amor extremo por toda a sua família e cujo maior desejo e prazer era ver reunida em seu redor, concederam-lhe o direito mais que legítimo a alguma teimosia que refinadamente desenvolveu ao longo dos últimos anos, mas da qual agora sentiremos todos a falta. "Partiu o nosso teimoso", disseram alguns com pesar... e é isso mesmo que dói: a partida e não a teimosia - essa até podia ficar se nos permitisse poder estar com ele mais algum tempo.

90 anos são ainda assim uma vida longa, pelo que - por muito que seja difícil de o ver agora - o sentimento que aqueles que cá ficam devem ter é o de gratidão mais do que o de perda ou mágoa. Gratidão por ter podido conviver com alguém assim, num contacto tão próximo e que invariavelmente marca e toca as vidas de todos aqueles com quem esteve em contacto. Se isto é algo que para aqueles mais próximos como a irmã, os filhos, os netos e até os bisnetos é mais do que óbvio, tornou-se óbvio também nas palavras daqueles que sendo menos próximos ainda assim o testemunharam neste último adeus.

Da minha parte e nos dias que se seguiram a um adeus meio difícil e complicado de fazer, continuo diariamente a viver na minha cabeça acontecimentos, histórias, lembranças, palavras ou meras imagens, que me fazem sentir triste e feliz ao mesmo tempo, uma dualidade de sentimentos que só a pessoa simples mais complexa do mundo poderia provocar em alguém. Fica para já a saudade, muita saudade do meu Avô Custódio, que consigo ver mentalmente a cada segundo a fazer as coisas mais mundanas e elaboradas (mais uma dualidade...) como sair de madrugada pelo meio do nevoeiro com uma serapilheira a fazer de casaco para ir apanhar medronhos... no topo de uma escada a apanhar azeitonas para um cesto de verga... a levantar a tampa da dorna para mexer um pouco mais a uva a fermentar... a construir um muro, um telhado ou até mesmo uma casa com as suas próprias mãos e a força dos seus braços... a dosear a intensidade do lume das torgas no alambique para não queimar a aguardente... sentado à porta de casa a fazer festas aos seus grandes e fiéis amigos canídeos... a observar silenciosamente e com um sorriso nos lábios a família em seu redor à mesa da refeição na maior das algazarras... a roubar um beijo à sua Conceição, a Mulher (com M grande) da sua vida, que por entre os ralhetes e alguns elogios, as zangas e as alegrias, no meio da saúde e da doença, nos momentos de tristeza e nos momentos de festa, à qual sempre se dedicou ao longo de uma vida feita de altos e baixos, superáveis apenas e graças ao amor que construíram e nutriram ao longo de décadas, um pelo outro. Sentia muito a sua falta, era sabido e certo. Agora está com ela, possivelmente a soltar uma graçola qualquer enquanto ela ralha com ele só por ralhar, para logo a seguir olharem os dois cá para baixo, com um sorriso nos lábios, para aqueles que cá ficaram e que sentem muito... mas mesmo muito... a sua falta.

Adeus Avozinho... um beijinho...

quarta-feira, março 30, 2022

Continua a Olhar por Mim...

Fez ontem uma semana que me despedi de ti. Quando soube que não estavas bem, senti de imediato um aperto por dentro e a necessidade de te ver o mais depressa possível, naquele momento e nem um segundo mais tarde. Uma mistura de memórias, sentimentos e um mau estar físico invadiram-me e tomaram conta das minhas ações e pensamentos. E no meio desse turbilhão de pensamentos, infelizmente, estavam os meus piores receios que se viriam a confirmar poucos dias depois...

Quando finalmente tive a oportunidade de me aproximar de ti, entristeceu-me ver-te assim e ouvir-te dizer que não querias estar ali, naquele desespero e naquele sofrimento. Não foi uma despedida feliz como nunca poderia ser... foi a despedida possível... mas ainda assim reconforta-me um pouco ter conseguido fazê-la. Vou recordar para sempre esta última vez em que te dei um beijo na testa, te afaguei os cabelos brancos e ondulados e senti o teu cheiro floral enquanto o fiz, o que me trouxe à memória os meus tempos de menino, em que passava contigo aqueles dias de férias a que na altura dava pouca importância mas que tantas saudades me fariam sentir mais tarde.

Poucos dias depois chegaria a notícia mais temida. Apesar de não ser uma surpresa, a mim que sou daquelas pessoas que (por muito racional que tente ser) não me consigo "preparar" para este tipo de coisa, fez-me desabar... Após aquele telefonema, caí sobre mim próprio e chorei... chorei mais... chorei muito. A dada altura deixei-me chorar até secar todas as lágrimas que tinha e que eram poucas para descrever a tristeza que sentia, por já não estares cá.

Inequivocamente foste uma das raras pessoas deste mundo que sempre deu tudo e nunca pediu nada, sempre teve a preocupação de ajudar e não incomodar. Sempre incluíste os outros nas tuas rezas e sempre pautaste a tua vida pelos valores mais altos das tuas crenças pessoais, religiosas e espirituais. E isso faz de ti um daqueles exemplos de vida que poucas pessoas hoje em dia têm a oportunidade de conhecer. Eu não só tive a oportunidade de te conhecer como de te ter como minha avó e por isso (entre outras coisas) sinto-me agradecido.

Sinto-me agradecido pelas memórias que guardo em mim. Das coisas grandes, dos momentos importantes, do orgulho que sentias em qualquer dos passos que dei na minha vida, mas também das coisas pequenas. Do caminho que fazíamos a pé quando me ias buscar à escola... da fruta que misturavas nas refeições que me preparavas e que eu teimava não querer comer... das pequenas brincadeiras que inventavas para mim, como uns simples barquinhos de papel num alguidar de água... mais tarde, da tua preocupação em ter a casa sempre impecável e preparada para aqueles dias de férias que ia passar contigo... do teu cuidado a preparar um bom pequeno almoço... da tua limonada feita a partir de cubos de gelo de sumo de limão... do teu sorriso constante mesmo que estivesses em sofrimento... da forma como vivias os teus pequenos prazeres como o da leitura e da costura... do altruísmo presente em cada gesto teu enquanto cuidavas dos outros.

Agora mesmo, enquanto revivo algumas lembranças tuas, as lágrimas assomam-se aos meus olhos, porque de facto sinto e sentirei para sempre a tua ausência e a tua falta. Ao longo da vida, com a partida daqueles que amo - como tu - fico com o sentimento que se vão fraturando os elos que me ligam ao meu passado, às minhas raízes, às minhas experiências e aos momentos de alegria que enquanto criança tive a felicidade de viver. Só espero poder eu próprio conseguir algum dia criar elos tão ou mais fortes para quem me vier a recordar quando eu partir, porque apesar da tristeza destes momentos, há também um sentimento de felicidade e sobretudo gratidão por tudo o resto.

Podia ainda falar sobre a tua devoção, mas prefiro não o fazer, porque é só tua e demasiado preciosa para alguém ignorante na matéria, como eu, comentar. Só me ocorre dizer que se o paraíso existe e se alguém tem direito ao seu lugar nele, esse alguém és tu. Espero que seja aí que estás agora mesmo, a olhar por todos nós como sempre fizeste. Um beijinho.

terça-feira, dezembro 08, 2020

8 de Dezembro de 2016

Foi há 4 anos que não cheguei a tempo de dizer adeus... mas a verdade é que nunca me quis despedir de ti. Algumas pessoas que vi partir, talvez por esta simples relutância de aceitar que já não estão aqui ou por um nível de espiritualidade qualquer que não sei bem descrever, sinto que se mantém de alguma forma por cá, na nossa vida. Tu és uma delas. Dou por mim a pensar de vez em quando o que pensarias se me visses fazer isto ou aquilo, se sentirias orgulho, felicidade... o que pensarias dos teus bisnetos e das suas surpreendentes ações e reações. Acho que serias feliz e isso faz de mim feliz também. E é essa felicidade que se sobrepõe a alguma tristeza e a uma saudade indescritível que perdura por mais que os anos passem. Quando as coisas resultam assim, é sinal de que fizemos algo de bom na nossa vida, e esse sem dúvida foi o teu caso. Um beijinho muito grande para ti, Avó, de onde quer que estejas a ver e a assistir a todas coisas boas e também algumas trapalhadas que andamos a fazer por aqui...


domingo, setembro 23, 2018

segunda-feira, fevereiro 26, 2018

Agarrado ao Passado

Tal como aqui no blog, estou com dificuldade em começar a viver de forma efetiva este ano, na minha cabeça, além daquilo que é a minha rotina diária. Já passaram 2 meses e continuo a levantar-me todos os dias para repetir a mesma rotina vezes sem conta, sentindo que a maior parte do tempo não estou por cá. Exceção feita aos pezinhos pequenos que cirandam cá por casa e que fazem ainda assim sentir que tudo vale a pena.

O ano que passou foi para mim difícil... um dos mais difíceis que me recordo, senão o mais difícil de todos, por mais do que um motivo. E em vez de me conseguir catapultar para a frente, sinto que a minha mente, as minhas divagações e recordações me puxam sistematicamente para trás. Sinto-me agarrado ao passado, sendo que esse passado é repleto de boas recordações e lembranças, e talvez por isso seja tão difícil libertar-me dele para me concentrar mais no presente e no futuro. Enfim, é um exercício que sinto não tenho ninguém que me possa ajudar a fazê-lo, pelo que terei de percorrer este caminho eu próprio, de alguma forma que no momento presente me escapa. Lá chegarei, espero eu. Para já, aqui fica uma lembrança trazida por uma divagação a meio do dia que passou, e que não foi fácil.


Era eu uma criança, pequena o suficiente para ver aventura nas pequenas coisas da vida, graúda o suficiente para os meus pais terem a confiança para me deixar embarcar numa viagem de 300 kms de autocarro, sozinho. O momento: final do ano letivo e início do que então era um período de férias considerável. O destino: a terra natal dos meus avós maternos e da minha mãe, onde com muito gosto passava aquelas semanas de verão pelas quais ansiava anos após ano, sem exceção.

A aventura começava com os meus pais a acompanharem-me até ao antigo terminal do expresso, que ficava em plena avenida Casal Ribeiro. Hoje em dia trabalho ali mesmo ao lado, e não há um único dia que percorra aquela avenida que não me lembre do calor do verão e do cheiro a combustível no ar, dos autocarros ligados à espera do embarque dos passageiros que antecedia uma odisseia de várias horas, com várias paragens, para percorrer uns míseros 300 kms. Feitas as despedidas fora do autocarro, seguidas dos acenos de adeus comigo já sentado lá dentro, era tempo de seguir viagem.

Já em andamento, e mal saíamos do centro de Lisboa, era tempo de sacar do meu walkman e começar a ouvir as cassetes com coletâneas de música que tinha preparado para aquelas férias. Por vezes folhear um ou outro livro de Uma Aventura, mas apenas naqueles quilómetros com menos curvas, senão era enjoo pela certa. Quase sempre havia lugar a conversa com desconhecidos, regra geral alguns velhotes que regressavam também a casa por aquela altura, para umas férias merecidas do trabalho na cidade... Educado que fui e sou, nunca deixei de responder nem conversar com ninguém, apesar de a conversa regra geral me interessar pouco. Por outro lado, sempre ajudava a entreter naquilo que parecia ser uma longa odisseia. O dia esvaía-se entretanto para dar lugar ao lusco fusco. Depois de todas as paragens em terriolas, algumas das quais nunca mais visitei, o cheiro das giestas lá fora começava-se a fazer sentir. E isso era sinal que o destino daquele mastodonte sobre rodas que não raras vezes avariava, estava próximo.

Uma vez chegado ao destino, a paragem final na vila, a aventura continuava. Do alto da amostra de gente que ainda era, o objetivo seguinte passava por conseguir ser dos primeiros a apanhar um dos taxis que esperavam religiosamente a chegada do expresso, para fazer mais 8 quilómetros até ao destino final. Por vezes não conseguia e tinha de esperar pela segunda ronda. Regra geral esperava que fosse o Luís a levar-me, porque era um tipo mais novo e simpático, que já me conhecia e à minha família, e mostrava preocupação para comigo. Regra geral, tinha sorte. Mais 8 kms de conversa, desta vez mais interessante, e finalmente o cenário familiar começava a aquecer-me o coração, fazendo-o bater mais depressa, antecipando a surpresa que se seguia.

Paragem no largo da aldeia que sempre me pareceu parada no tempo, pronta a confidenciar as histórias de um passado recente ali vivido... o pagamento do táxi ao Luís, acompanhado de um passou-bem com obrigado, um adeus e um "boas férias", e aqueles metros finais a pé por entre as casas de xisto, até abrir o portão que dava para a cozinha, com os sacos de viagem na mão, para ser recebido com invariável surpresa e genuína alegria por dois velhotes que se levantavam da mesa onde jantavam para me abraçar, beijar e fazer sentir a melhor pessoa do mundo. Imediatamente abdicavam de tudo o que faziam naquele momento (e nas semanas que se seguiriam) para se dedicarem a mim de forma incondicional (e eu a eles), obrigando-me a sentar e comer qualquer coisa porque devia estar cheio de fome, bombardeando-me com perguntas e comentando aquela última carta que lhes tinha enviado e que tinham gostado muito.

Seguiam-se semanas de felicidade genuína que em nada ficavam atrás deste prelúdio que era a viagem até lá. Seguia-se por fim o regresso a casa, só para começar a antecipar a próxima oportunidade que teria para repetir toda esta experiência, sem tirar nem por, do princípio até ao fim. E assim aconteceu, durante algum tempo. Enfim... deve ser possível ter vivido isto, e evitar ficar agarrado ao passado. Simplesmente ainda não consegui perceber como.

sexta-feira, dezembro 01, 2017

Foi Quase Há Um Ano...

... e continuo todos os dias a ter saudade e vontade de voltar para os teus braços.

quarta-feira, outubro 18, 2017

Casa é Onde o Nosso Coração Está


Dia 16 de outubro de 2017. O dia em que aquilo que ao longo dos anos me habituei a ver nas notícias, se tornou literalmente uma dura realidade. Tudo começou com um telefonema ao início da manhã, que me dava conta de que a aldeia (visível na imagem) tinha ardido por completo, e que em particular a casa que viu uma família inteira nascer, crescer e viver todo o tipo de acontecimentos, situações e emoções, tinha sido consumida pelas chamas violentas de um incêndio florestal, transformando-se em pouco mais do que umas frágeis paredes a albergar um enorme vazio. Dois dias passaram desde então e continuo sem conseguir digerir as imagens que vi quando me desloquei ao local, para ver com os meus próprios olhos aquilo em que o meu coração não queria nem podia acreditar. A minha reação foi incontrolável, não conseguindo fazer muito mais do que ajoelhar-me em frente a ela e chorar compulsivamente como uma criança.

E é precisamente de criança que me vêm as memórias, emoções e sentimentos que causaram essa mesma reação. É por ainda hoje recordar ao mais ínfimo detalhe e pormenor, quer a história quer as caraterísticas físicas daquele local que era mágico para mim, que não consigo ainda eliminar esta dor que arde lentamente cá dentro, como as chamas que consumiram tudo ali mesmo, naquele local. É para mim um incêndio que pode ter sido dado como extinto, mas que ainda não parou de arder.

Naquela casa viveram-se nascimentos, casamentos, divórcios, aniversários, natais, tristezas, festas, discussões, amizades, alegrias... sobretudo muitas alegrias. E este é o ponto: a casa para onde poderíamos sempre voltar, independentemente do que acontecesse. Enquanto criança passava um número significativo de meses naquele local. E na altura não preferia estar em qualquer outro. Vou para sempre recordar o seu aconchego durante o inverno e a sua frescura durante o verão. Vou para sempre recordar aquelas paredes e as suas irregularidades ao pormenor. Os soalhos de madeira torta. As mobílias que ao longo dos anos foram mudando e transformando o seu interior, entre louceiros, sofás, móveis de televisão, mesas e cadeiras. As escadas que subiam para os quartos, onde tantas vezes me sentei a brincar, à espera que fosse meia noite para abrir os presentes de natal junto à árvore, ou até daquela vez em que caí de lá e um dos meus dentes de leite desapareceu para nunca mais ninguém o encontrar. A sapateira por baixo da escada, onde me cheguei a esconder quando era pequeno. O relógio a que o meu avô dava corda como se de um ritual se tratasse. O toque desse relógio, imediatamente seguido do toque do relógio da igreja. Uma carpete comprida com duas tiras vermelhas onde fazia estradas para os meus carrinhos de brincar. Aquele gira-discos velho com "cartuchos" que punha a tocar nos primeiros dias das férias de verão, como uma antecipação das festas de São Bartolomeu que chegariam no mês seguinte. As noites de verão dormidas com os meus avós no chão da sala, nas camas feitas de cobertores, improvisadas pela minha avó. A risota ao adormecer com as histórias contadas por eles. Os pequenos quartos ao cimo das escadas, onde tanta noites passei. Os vidros das janelas embaciados no inverno, ao acordar. A escrivaninha de madeira onde fazia os trabalhos de casa das férias. As camas de ferro. As cómodas de madeira. A estátua de um tigre que a minha mãe ganhou em tempos e que trazia sempre uma história de como a minha avó encheu de porrada um tipo que vinha atrás dela. As reentrâncias das janelas que foram emparedadas. As outras janelas abertas para a rua. As argolas metálicas na parede exterior onde em tempos existiram vasos. A adega antiga, mais tarde transformada em loja de arrumos, onde se almoçou, jantou, dormiu, e até um hamster que tive fugiu da gaiola e por lá se refugiou numas arcas de madeira. A porta de madeira virada para a cozinha, pintada de azul ou de castanho, com uma cunha para que se segurasse aberta. O telefone de disco preto dos TLP com o número 53202, que mais tarde seria substituído por uns quantos mais modernos que não duraram um terço do que aquele durou. Os papéis do meu avô desarrumados pelas gavetas. O quadro elétrico antigo que disparava aos primeiros sinais de trovoada. A asa protetora da minha avó por cima de mim sentado no sofá, enquanto fazia uma oração a Santa Bárbara para que a tempestade se fosse. O meu avô sentado a ler com dificuldade, por vezes com os óculos da minha avó, pequenos fascículos com histórias antigas. As conversas mais sérias e as galhofas mais divertidas de uma família inteira confinada a um espaço reduzido. As travessas de comida a entrarem na sala vindas da cozinha ao lado em dias de reunião. Os jantares à nossa espera quando chegávamos de viagem. Os almoços de despedida quando partíamos.

Sinto que se quisesse podia continuar para sempre, tal é a nitidez das memórias que vivem na minha cabeça, e que cada vez que revisito ateiam o lume da dor que hoje carrego. Outros há a quem certamente o leque de memórias será ainda menos complacente que o meu, pelo que quero acreditar que quando a dor passar, as memórias que agora parecem acendalhas se possam transformar em suaves recordações, e que a dor seja substituída pela alegria de as ter vivido e passado por elas. E quem sabe aquela casa que agora se encontra vazia de recheio mas ainda cheia de recordações, possa ainda vir a ser reerguida para albergar muitas mais, criadas nos anos vindouros. Pelo menos eu gostava que assim fosse...

domingo, dezembro 18, 2016

Meia Hora Atrasado

Nunca me esquecerei que no teu dia, no dia da Imaculada Conceição, no dia em que decidiste finalmente descansar, cheguei meia hora atrasado. Os 20 quilómetros que nos separavam, no momento em que recebi a notícia, ainda tornaram a mesma mais dolorosa. O murro violento mesmo no meio do peito, que me retirou a respiração e os sentidos durante instantes, não terá sido nada comparado com aquilo que o teu companheiro de uma vida inteira sentiu, quando ali mesmo o olhei nos olhos e lhe disse que tinha recebido um telefonema... Aqueles 20 quilómetros foram os mais longos e demorados de sempre que percorri. Pela primeira vez na vida senti que me dirigia em direção ao vazio, ao nada... mas continuava a caminhar como aqueles que percorriam o mesmo caminho que eu, e que tal como eu chegaram meia hora atrasados, até nos unirmos e deixarmos o nosso mundo desabar em conjunto, nos abraços, lágrimas e ombros uns dos outros. E assim o fizemos. Chorando e desabando à vez, enquanto a multidão que ali passava naquela porta de hospital, estupefacta, observava. Lá nos fomos apoiando, outras vezes isolando, até recuperarmos a respiração e os sentidos. Recordo o desespero de ver os outros desesperados, e sobretudo de o ver a ele, incrédulo, sem norte. A angústia de ver os outros angustiados, a incapacidade de preencher o vazio.
Porque é que não esperaste apenas meia hora mais? Porque é que não nos deixaste ter a oportunidade de te dar vida com a nossa presença? Porque é que não estavas em condições para te podermos telefonar? Porque é que não nos deste um pré-aviso do que se iria passar? Porque é que não aguentaste apenas mais uns dias... mais um Natal? E sobretudo porque raio é que não podias viver para sempre? Porque é que não podias ser para sempre, aquele refúgio forte, quente e macio da minha meninice? Aquele colo bom? Aquela voz melódica a cantar as cantigas do antigamente? E porque é que não voltas? Porquê??? PORQUÊ???
Lembro-me de engolir em seco, enxugar as lágrimas, pegar no telefone e começar a tratar de coisas. Lembro-me de pensar nos outros, porque seria o que tu querias que eu fizesse. Eu, o teu netinho. Porque a vida é um ciclo. Foste para mim. É apenas justo que seja para ti ou por ti, e isso nunca será suficiente. Não foi suficiente. Mas foi duro, muito duro. O dia seguinte, mais. Ver-te finalmente, ali, a mais serena de nós todos. A realidade a apoderar-se de nós, e a revelar toda a sua brutalidade, que nos deixa completamente indefesos. Uns atrás dos outros, mais do que uma vez, fizemos a despedida possível que não era aquela que queríamos fazer. Observámos-te e dissemos a nós mesmos que seria bom que a tua partida tivesse sido tranquila, pacífica, como a expressão que tinhas naquele momento. A todos nós nos parece justo que depois de uma vida de luta, dificuldades, obstáculos, integridade, bondade... em que FAMÍLIA foi muito mais do que uma palavra... em que o legado deixado está mais do que à vista, uma partida suave como a da espuma das ondas que se dissolvem na areia praia, é o mínimo que se pode desejar.
O regresso a casa (seja lá isso onde for), ao trabalho, à rotina... a realidade a tomar conta de nós nos dias que se seguiram... foi tudo demasiado duro. Que o diga a outra parte de ti, que já cá não quer estar sem ti, mas que ainda tanta falta nos faz. Sei que têm muitas saudades um do outro, mas deixa-o connosco mais uns tempos... só porque seria mais duro ainda... muito mais... perdê-lo assim, agora, também. Falei com ele ontem. Não sei se me conseguiu ouvir naquela cama de hospital, enquanto dormia. Por isso se puderes dá-lhe uma palavrinha... nem que seja um ralhete dos teus... e diz-lhe que ainda é cedo. Explica-lhe que não há pressa, que terão muito tempo para conversar, e que os filhos, netinhos e bisnetinhos ainda precisam dele. Explica-lhe que o que todos nós sentimos por ele e por ti é forte, muito forte. Tão forte como o que vocês sentem por nós.
Passaram 10 dias... 10 dias... e ainda não acredito que aconteceu. Não acredito que da próxima vez que nos reunirmos não estarás na cabeceira da mesa a observar-nos a todos, entregue aos teus pensamentos, enquanto nós papagueamos disparates em voz alta, rimos, gritamos, choramos. Não acredito que não me despedirei novamente de ti, contigo a olhar para mim com a ternura nos olhos de quem vê algo de especial em nós, de quem nos conhece melhor que nós próprios. Não acredito que as tuas mãos cheias de histórias não me vão voltar a envolver o rosto, enquanto sorris e me perguntas se agora vou deixar crescer a barba. Não acredito que não vou voltar a sentir a alegria do reencontro, da chegada, do abraço, dos beijos e da felicidade por voltar a ver-te e ainda estares cá. Não estás. Dói pensar nisto... dói escrever estas palavras. Choro. Tenho chorado bastante, quando ninguém está a ver. Se estivesses chorava no teu colo. Imagino-te passares-me a mão pelo cabelo e cantares uma daquelas cantigas de embalar que gostavas de cantar, a filhos, netos e bisnetos. A seguir levantava-me, olhavas-me a rir, com aquele sorriso tranquilo, e eu dava-te um beijo na testa. Sentia-me melhor.
Gostava de conseguir escrever aquilo que sinto e penso, mas sinceramente e pela primeira vez na vida, sinto que não consigo expressar-me. O turbilhão ainda é demasiado grande. A realidade ainda não a tenho completamente absorvida, nem sei se alguma vez terei. A tua falta faz-se sentir sobretudo através de momentos e instantes. Muitos. Todos os dias. Várias vezes durante o dia, e noite. Será que ainda existe a possibilidade de isto ser tudo um sonho? Será que ainda posso acordar para uma realidade diferente? Começo a pensar que não...
Já te disse que lamento ter chegado meia hora atrasado?

segunda-feira, outubro 20, 2014

Tempo - O Dia Chegou

Hoje foi o meu último dia de licença, em que tive oportunidade de estar com os meus filhos, para os meus filhos, na plenitude do tempo e do "estar". Por mais cansativo e fisicamente duro que tenha sido o último mês, não consigo deixar de sentir já uma ponta de saudade e nostalgia ao pensar que a partir de amanhã tudo será diferente. De qualquer forma há uma coisa que desejo manter e até melhorar a partir de agora, sobre a qual pensei (com alguma ajuda) e que se foi tornando mais evidente nas diversas ocasiões e momentos de partilha: é mais importante a qualidade do que a quantidade do tempo que passamos junto dos nossos filhos. Para quem tem habitualmente pouco tempo, torna-se mais natural gerir o pouco que se tem de forma mais eficiente. No entanto não tenho dúvidas que exista muita gente que tendo muito tempo para os filhos, não o aproveita da melhor forma possível. Já aqui falei várias vezes dos inimigos do costume, como a televisão e outras coisas mais que são fatores de distração destruidores. Por ter esta consciência não me sinto desanimado e vou continuar a dar o meu melhor na gestão de tempo que posso e quero fazer para que os meus filhos sejam o mais felizes possível (e já agora, eu também).

sábado, outubro 18, 2014

Tempo

Está a chegar ao fim um período importante da minha vida, em que estive sobretudo dedicado ao meu filho mais novo, Pedro. No início da próxima semana regressarei ao trabalho, depois de um mês inteiro em casa, em que tive a oportunidade de "desligar" o cérebro (quase) de assuntos profissionais e focar-me na minha vida pessoal e familiar. Foi um mês muito intenso e cansativo, em que passei a maior parte do tempo a cuidar dos meus, mas em que também tive algumas oportunidades para pensar em mim e na forma como encaro a vida a diferentes níveis. Apesar deste mês ter sido importante, penso que o equilíbrio do ritmo normal que se avizinha será também importante para enquadrar melhor ainda tudo aquilo em que refleti. Uma espécie de aplicação de resoluções de ano novo ainda que fora de época, e sobretudo focada em pequenas coisas capazes de fazerem uma grande diferença. É um percurso que ainda está a ser (e estará) percorrido, mas estou a conter a minha pressa para dar todos os passos ao ritmo certo. Não consigo no entanto deixar de sentir uma nostalgia e saudade antecipada pelo fato de deixar esta rotina, que em tantas ocasiões me deixou feliz, como noutras me deixou à beira da loucura e do cansaço extremo. Entretanto, é tempo de viver o presente, apreciar o fim-de-semana que aí vem e entrar com o pé direito na semana seguinte. Um bom fim-de-semana a todos!