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segunda-feira, fevereiro 26, 2018

Agarrado ao Passado

Tal como aqui no blog, estou com dificuldade em começar a viver de forma efetiva este ano, na minha cabeça, além daquilo que é a minha rotina diária. Já passaram 2 meses e continuo a levantar-me todos os dias para repetir a mesma rotina vezes sem conta, sentindo que a maior parte do tempo não estou por cá. Exceção feita aos pezinhos pequenos que cirandam cá por casa e que fazem ainda assim sentir que tudo vale a pena.

O ano que passou foi para mim difícil... um dos mais difíceis que me recordo, senão o mais difícil de todos, por mais do que um motivo. E em vez de me conseguir catapultar para a frente, sinto que a minha mente, as minhas divagações e recordações me puxam sistematicamente para trás. Sinto-me agarrado ao passado, sendo que esse passado é repleto de boas recordações e lembranças, e talvez por isso seja tão difícil libertar-me dele para me concentrar mais no presente e no futuro. Enfim, é um exercício que sinto não tenho ninguém que me possa ajudar a fazê-lo, pelo que terei de percorrer este caminho eu próprio, de alguma forma que no momento presente me escapa. Lá chegarei, espero eu. Para já, aqui fica uma lembrança trazida por uma divagação a meio do dia que passou, e que não foi fácil.


Era eu uma criança, pequena o suficiente para ver aventura nas pequenas coisas da vida, graúda o suficiente para os meus pais terem a confiança para me deixar embarcar numa viagem de 300 kms de autocarro, sozinho. O momento: final do ano letivo e início do que então era um período de férias considerável. O destino: a terra natal dos meus avós maternos e da minha mãe, onde com muito gosto passava aquelas semanas de verão pelas quais ansiava anos após ano, sem exceção.

A aventura começava com os meus pais a acompanharem-me até ao antigo terminal do expresso, que ficava em plena avenida Casal Ribeiro. Hoje em dia trabalho ali mesmo ao lado, e não há um único dia que percorra aquela avenida que não me lembre do calor do verão e do cheiro a combustível no ar, dos autocarros ligados à espera do embarque dos passageiros que antecedia uma odisseia de várias horas, com várias paragens, para percorrer uns míseros 300 kms. Feitas as despedidas fora do autocarro, seguidas dos acenos de adeus comigo já sentado lá dentro, era tempo de seguir viagem.

Já em andamento, e mal saíamos do centro de Lisboa, era tempo de sacar do meu walkman e começar a ouvir as cassetes com coletâneas de música que tinha preparado para aquelas férias. Por vezes folhear um ou outro livro de Uma Aventura, mas apenas naqueles quilómetros com menos curvas, senão era enjoo pela certa. Quase sempre havia lugar a conversa com desconhecidos, regra geral alguns velhotes que regressavam também a casa por aquela altura, para umas férias merecidas do trabalho na cidade... Educado que fui e sou, nunca deixei de responder nem conversar com ninguém, apesar de a conversa regra geral me interessar pouco. Por outro lado, sempre ajudava a entreter naquilo que parecia ser uma longa odisseia. O dia esvaía-se entretanto para dar lugar ao lusco fusco. Depois de todas as paragens em terriolas, algumas das quais nunca mais visitei, o cheiro das giestas lá fora começava-se a fazer sentir. E isso era sinal que o destino daquele mastodonte sobre rodas que não raras vezes avariava, estava próximo.

Uma vez chegado ao destino, a paragem final na vila, a aventura continuava. Do alto da amostra de gente que ainda era, o objetivo seguinte passava por conseguir ser dos primeiros a apanhar um dos taxis que esperavam religiosamente a chegada do expresso, para fazer mais 8 quilómetros até ao destino final. Por vezes não conseguia e tinha de esperar pela segunda ronda. Regra geral esperava que fosse o Luís a levar-me, porque era um tipo mais novo e simpático, que já me conhecia e à minha família, e mostrava preocupação para comigo. Regra geral, tinha sorte. Mais 8 kms de conversa, desta vez mais interessante, e finalmente o cenário familiar começava a aquecer-me o coração, fazendo-o bater mais depressa, antecipando a surpresa que se seguia.

Paragem no largo da aldeia que sempre me pareceu parada no tempo, pronta a confidenciar as histórias de um passado recente ali vivido... o pagamento do táxi ao Luís, acompanhado de um passou-bem com obrigado, um adeus e um "boas férias", e aqueles metros finais a pé por entre as casas de xisto, até abrir o portão que dava para a cozinha, com os sacos de viagem na mão, para ser recebido com invariável surpresa e genuína alegria por dois velhotes que se levantavam da mesa onde jantavam para me abraçar, beijar e fazer sentir a melhor pessoa do mundo. Imediatamente abdicavam de tudo o que faziam naquele momento (e nas semanas que se seguiriam) para se dedicarem a mim de forma incondicional (e eu a eles), obrigando-me a sentar e comer qualquer coisa porque devia estar cheio de fome, bombardeando-me com perguntas e comentando aquela última carta que lhes tinha enviado e que tinham gostado muito.

Seguiam-se semanas de felicidade genuína que em nada ficavam atrás deste prelúdio que era a viagem até lá. Seguia-se por fim o regresso a casa, só para começar a antecipar a próxima oportunidade que teria para repetir toda esta experiência, sem tirar nem por, do princípio até ao fim. E assim aconteceu, durante algum tempo. Enfim... deve ser possível ter vivido isto, e evitar ficar agarrado ao passado. Simplesmente ainda não consegui perceber como.

segunda-feira, setembro 11, 2017

Mais Uma Vindima

Tive mais uma vez o privilégio de, tal como tenho conseguido fazer quase todos os anos desde que me recordo, participar numa vindima. Cada vez aprecio mais o facto de o conseguir fazer, porque cada vez me parece mais próximo o momento em que posso deixar de o conseguir fazer. As vinhas vão desaparecendo... as pessoas vão deixando de as poder cuidar... e subitamente surge a perceção de que tudo pode terminar. Confesso que é um sonho meu um dia ter uma vinha minha - não precisa de ser de grande dimensão nem muito variada, bastam duas ou três castas... - para todos os anos poder reunir um grupo de familiares e amigos e fazer uns quantos litros de vinho. Todo o processo, convívio e por fim o resultado final, são ingredientes de uma receita que me continua sempre a fazer feliz. Pequenos pormenores como o cheiro da uva esmagada, a prova do vinho doce, o cansaço saudável no final de um dia de trabalho, contribuem para uma experiência ímpar e que deve ser valorizada. Para já não vale a pena preocupar-me muito com as oportunidades vindouras e se as mesmas se vão realizar ou não, mas sim registar mais uma lembrança e saborear os momentos vividos durante o último fim-de-semana. Espero que os mais pequenos também se recordem um dia destes momentos com o mesmo carinho com que eu me recordo daqueles que vivi, e com quem os vivi. Porque também é tempo de criar lembranças, além de as ter.

sábado, outubro 11, 2014

Por Vezes

Por vezes fecho os olhos e transporto-me para outro lugar. Por vezes imagino que não estou onde estou. Quando o que é parece demais, imagino-me no meio de uma qualquer recordação boa. Algo tão simples quanto o sol quente de um dia de verão a bater-me no rosto, enquanto respiro uma brisa marítima. Algo tão simples como uma manhã fria a contrastar com o calor de uma cama preenchida pelos corpos de duas pessoas. Algo tão simples como o som de uma música que se ouve pela primeira vez e que nunca mais se esquece. Algo tão simples como a primeira vez que se visita um local tão magnífico que fica gravado para sempre na nossa retina. Por vezes o que é agora é demais, ou então a menos. E sentimos que podia ser outra coisa. E pode ser. Basta fechar os olhos e transportarmo-nos para outro lugar. E aí o outro lugar passa a ser o lugar do agora. E isso é bom. E isso é melhor. Espero aprender a transformar o melhor no passado, presente e futuro, para que possa sempre sentir-me assim.