sábado, junho 26, 2021

Quando Chegares ao Cimo da Montanha...

"... continua a subir". Este é um lema com o qual tive contacto num caminho ainda curto, que comecei a percorrer há 4 anos atrás nas artes marciais, mas cuja aplicação vai muito além do contexto da prática desportiva. 

Tem sido um caminho enriquecedor, de realização, orgulho e felicidade, também por ser algo que partilho com os meus filhos. Foi com eles e em família que estive ontem e foi em conjunto que demos mais um passo simbólico mas importante, no caminho da nossa evolução. 

Sobretudo no último ano, esta parte da minha vida foi algo que me ajudou a manter a minha própria sanidade mental. E espero que assim continue a ser por muitos e longos anos.

domingo, junho 13, 2021

Rumo a Norte - Dia 4

Quarto e último dia:

Este foi o dia que começou mais cinzento. Durante a noite a chuva deixou as motas molhadas, mas agora parecia já não representar grande ameaça. Continuávamos a fazer pouco das previsões negativas e a ignorar de uma forma meio infantil o risco de apanhar uma molha das mais capazes antes de chegar a casa, vestindo diariamente o nosso equipamento não impermeável cuja única proteção que oferecia era sobre os mosquitos que se acumulavam...

O plano (que avanço já não se viria a concretizar) só foi definido meio de improviso ao pequeno almoço na pousada. A ideia era continuar longe de autoestradas e tentar percorrer também alguns caminhos que ainda não conhecíamos. No mapa, a estrada nacional 13 pareceu-nos perfeita. Na minha mente ignorante imaginava uma espécie de estrada atlântica com bom traçado e piso, e com uma vista ocasional sobre o mar. Nada poderia estar mais longe da realidade.

 

A N13 é uma estrada super movimentada, com excesso de ciclistas, ao longo da qual se sucedem as povoações, sem nunca por os olhos no mar. Para ajudar à festa, para além da quantidade exorbitante de ciclistas que muitas vezes se deslocavam em batalhão ao longo da estrada, ainda tivemos de parar num corte de estrada prolongado por causa de uma prova de... ciclismo.

Uma juvenil agente da GNR completamente atrapalhada mandava atabalhoadamente sair-nos da estrada principal, sem nos indicar qualquer desvio alternativo. Acabámos por ficar ali a aguardar que a prova passasse, até podermos seguir novamente viagem.

Quando parámos para abastecer, entre todos decidimos que o percurso escolhido não estava a funcionar, e tínhamos feito até então muito menos quilómetros do que gostaríamos para um dia que seria obrigatoriamente longo em distância. Resolvemos atalhar caminho e recorrer à autoestrada, para chegar a Aveiro a tempo de almoçar por lá. O que fizemos.

Nisto das viagens de mota, há que saber quando insistir e quando dar o braço a torcer. Por muito desinteressante que seja percorrer muitos quilómetros em autoestrada, se isso nos permitir não estragar o resto do dia ou até recuperar alguma energia (como foi o caso), mais vale seguir com a corrente.

A chegada à Praia da Barra foi um bálsamo. Parámos as motas numa sombrinha, no centro, onde demos uma volta rápida à procura de um lugar para almoçar. Os restaurantes estavam cheios, mas mesmo junto ao local onde tínhamos estacionado, o café Farol parecia convidativo o suficiente para nos sentarmos na esplanada. Lá dentro passava num ecrã gigante a prova de SBK.

 

Uma vista de olhos rápida à ementa e acabámos todos por achar que a francesinha era boa para a despedida. Não estávamos errados.

Mais uma refeição acompanhada de bom convívio onde delineámos o plano para a parte da tarde. Seguir em direção ao Luso pela N235, onde iríamos depois até Penacova e... logo se via. Por esta altura fazíamos planos curtos para nos irmos adaptando às circunstâncias.

Montamos de novo nas motas e seguimos viagem. A N235 não era nada de especial, salvo ocasionais troços como por exemplo na zona do Luso, onde parámos para hidratar. A ideia era continuar em direção a Penacova, mas pouco depois de arrancarmos, pela primeira vez sentimos a séria ameaça do mau tempo mesmo à nossa frente, quando quase parecia anoitecer de tão negras que eram as nuvens.

Mais uma vez, decidimos adaptar-nos e demos meia volta para apanhar o IP3 em direção a Coimbra e simplesmente sair dali para fora. Algumas pingas de chuva ainda nos assentaram nas costas enquanto fugíamos, mas mais uma vez... safámo-nos.

Depois do valente manguito que fizemos ao mau tempo, despedimo-nos uns dos outros já na área de serviço de Pombal para percorrer os últimos quilómetros juntos, antes de cada um seguir o seu caminho. Tinham sido quatro dias excelentes, com mais de 1600 quilómetros percorridos, na excelente companhia de amigos com quem já não rolava há mais tempo do que considero razoável. O dia do regresso tem sempre este misto de satisfação com nostalgia antecipada, pelo que ficou o conforto de chegar a casa e deixar a "burra" repousar na garagem, cheia de mosquitos e a precisar de pneu novo.

Venha a próxima!

sábado, junho 12, 2021

Rumo a Norte - Dia 3

Terceiro dia:

O terceiro dia, à semelhança do anterior, começou com o sol a brilhar. Dizem que a sorte favorece os audazes e parecia ser o caso. Tomámos o pequeno almoço no hotel, albardámos as "burras" e rapidamente nos fizemos de novo à estrada.

Iríamos rumar em direção a oeste, percorrendo mais uns excelentes caminhos e paisagens, passando por Chaves e em direção ao Gerês.

Foi já próximo do Gerês que decidimos parar para almoçar. Depois de alguma hesitação, tivemos mais uma vez sorte e arranjámos uma esplanada com vista no restaurante Cabreira Terrace (nome meio pomposo para o local em questão), onde até deu para deixar as "burras" à sombrinha. Ainda que fosse repetição de ementa, a posta convenceu-nos de novo e foi a eleita.



Depois do almoço as raízes pareciam estar a criar-se nos nossos pés, talvez fruto do "peso" da posta no estômago e da frescura da esplanada no meio de mais um dia de calor. Por isso resolvemos contrariar a inércia e regressar à estrada. Estávamos já no Gerês, do qual somos todos fãs, e a paisagem convidava.


Seguimos entretanto por uma estrada que se revelou a mais castigadora para o pandeiro de cada um. Foram cerca de 12 kms de empedrado até voltar a ver alcatrão. Valeu a paisagem envolvente com direito ao avistamento de (muitos) cavalos à solta, o tipo de cenário que faz do Gerês um local mágico.


Findo o massacre do traseiro proporcionado pelo caminho municipal percorrido, parámos em Entre Ambos os Rios onde tomei banho numa fonte, e repus o nível de cerveja num café.


Seguimos novamente em direção a Melgaço, Monção e faríamos nova paragem em Paredes de Coura. Depois de alguma desorientação na paragem para abastecimento (o calcanhar de Aquiles da minha mota é a autonomia, já que tem uma amostra de depósito de combustível que raras vezes permite percorrer mais do que apenas 200 quilómetros) e de reorientação na procura da praia fluvial, descobrimos este espaço refrescante onde habitualmente se realiza o festival de Paredes de Coura. Senti alguma inveja daquelas pessoas que estavam ali a banhar-se, fazer piqueniques ou simplesmente descansar à sombra das frondosas árvores do parque. Mas depois lembrei-me do que estava a fazer nestes dias e deixei de sentir inveja!


O dia e o tempo continuavam a sorrir-nos. Sentíamos novamente raízes a sair dos nossos pés, pelo que voltámos a montar nas motas e seguir rumo ao destino final do nosso dia: Vila Nova de Cerveira. Antes de chegar à pousada da juventude que nos acolheria, passámos pelo Miradouro do Cervo que nos proporcionaria uma vista brutal sobre a terra.

O caminho até lá proporcionou-me a já tradicional oportunidade de espetar com a mota no chão, o que desta vez e graças à ajuda do Diogo, não aconteceu. Um caminho esgravatado em terra batida, um carro em sentido contrário e uma hesitação da minha parte, fizeram-me ficar num limbo entre não conseguir tirar a mota do sítio e ter de deixá-la assentar no chão. Um empurrãozinho e lá saí dali sem qualquer mazela, chegando são e salvo ao miradouro que, por aquela altura, estava infestado de "hermanos" espanhóis.


Mais uma vez, era ao final do dia que o tempo se tornava mais ameaçador, no entanto por um motivo que nenhum de nós consegue explicar muito bem, continuava a não ser tema de preocupação. Já na pousada da juventude, foi-nos possível arrumar as motas por esse dia, já que estávamos uma vez mais bem próximo do centro, onde iríamos jantar e visitar o castelo, essa noite.


Durante o jantar no restaurante Cantinho dos Amigos, fizeram-se sentir as primeiras (e escassas) gotas de chuva do dia. Não passou de um ameaço que um mero toldo de esplanada conseguiu suportar e mais uma vez sentimo-nos bafejados pela sorte que nos vinha a acompanhar ao longo de toda a viagem. De facto, parecia que passávamos todos os dias pelos intervalos da chuva.

Os quilómetros percorridos durante o dia e o vinho verde bebido durante o jantar faziam-me sentir as pernas pesadas, não sei bem porquê, pelo que depois do passeio noturno pelo interior do castelo, estava na hora da caminha. Regressámos à pousada onde as nossas burras tinham entretanto ganho a companhia de outra meia dúzia de motas, no estacionamento. Era tempo de descansar, ainda com a perspetiva positiva de ter mais um dia de passeio pela frente (mesmo que sendo o de regresso a casa).

sexta-feira, junho 11, 2021

Rumo a Norte - Dia 2

Segundo dia:

A saída de Trancoso fez-se bem cedinho. Tivemos de sobreviver ao mercado que estava montado mesmo à porta do hotel e que criou um reboliço em toda a envolvente que contrastava com a pasmaceira da noite anterior. Antes de nos fazermos à estrada, ainda deu para fazer umas ruas em sentido contrário à procura de um qualquer bazar chinês para comprar carregadores de telemóveis que ficaram esquecidos em casa...

A primeira paragem foi junto ao Castelo de Marialva. Resolvemos perder-nos nos arredores da muralha e acabámos por descobrir um café acolhedor onde, inspirados numa conversa da noite anterior sobre bebidas que raramente bebemos, pedimos um cálice de porto. O dono do café disse que tinha algo melhor que isso e deu-nos a provar licor de uva local, que de facto nos soube bem melhor.

Paisagens e castelo vistos, licor de uva bebido, era tempo de aproveitar o tempo (bom) e seguir viagem. A Cátia trazia uma iguaria escondida que tinha comprado de madrugada em Trancoso, antes de sairmos, e que serviria de mote ao piquenique improvisado que fizemos no meio do nada antes da paragem seguinte: sardinhas de Trancoso (há que dar desconto à palavra "sardinhas", porque não tem nada a ver...)!


Não fiz o devido registo fotográfico do almoço, mas durante a parte da tarde, continuou o bom tempo, a boa paisagem e a boa estrada. Aliás, uma das melhores estradinhas que fizemos e que nos supreendeu a todos (enquanto fazíamos um "swing" de motas)!

Próximo de Vinhais o traçado continuava bom, mas piso podia ser um pouco melhor... Foi precisamente em Vinhais que parámos, mais uma vez com um calor do caraças, e nos refastelámos numa esplanada com vista que tinha um aspersor a mandar água para cima de nós... top!

Antes de chegarmos a Bragança, faltava apenas uma paragem: Montesinho. Mais uma terra perdida no meio do nada com um traça muito caraterística da região. Parámos para beber umas minis e comer o que restava das sardinhas de Trancoso.

O tempo continuava a dar-nos uma valente abébia, já que só ouvíamos falar em temporais e trovoadas e granizo, mas a nós ainda não nos tinha tocado nada disso. Mas volta e meia parecia ameaçador. Por esta altura, parecia-nos que se nos iria acabar a sorte, pelo que seguimos em direção a Bragança cientes da possibilidade de apanhar uma molha até lá. Felizmente não foi o caso, e fizemos o check-in no hotel Santa Apolónia ainda bem sequinhos! Banhoca tomada e desta feita tivemos de voltar a pegar nas motas para ir até ao centro histórico, onde iríamos jantar.

Neste dia, por algum motivo, não estava virado para o registo fotográfico das refeições, mas o que é certo é que comemos uma bela de uma posta no restaurante Poças, no centro histórico, acompanhada a um verde tinto (pelo menos por alguns de nós...) que nos soube pela vida. Houve até quem pedisse umas entradas com sotaque (uns tais de "cogumelos shitake", que deram que falar)...

Já de barriguinha cheia voltámos ao hotel para recarregar baterias para o dia seguinte, que desejávamos continuasse a correr tão bem ou melhor como tudo até ali.

quinta-feira, junho 10, 2021

Rumo a Norte - Dia 1

Depois de uma longa temporada sem fazer viagens de duração superior a um ou dois dias, surgiu meio de repente a oportunidade de, com amigos, poder matar saudades de um mototurismo um bocadinho mais a sério e tirar a barriga de misérias. Em pouco mais de um par de dias se conversou, pensou e planificou, e definiu um excelente passeio para 4 dias, aproveitando um dos feriados de junho. A ideia era percorrer a zona mais a norte do país. Os mapas foram traçados, os alojamentos foram reservados e nem a previsão do mau tempo nos assustou.

Primeiro dia:

O plano era sair bem cedinho de casa e ir ao encontro do Diogo e Cátia, os meus amigos leirienses, numa estação de serviço já em Pombal. O caminho até aí seria feito por AE sem grandes floreados, porque de Pombal em diante é que começaria a diversão. E assim foi. O reencontro com abraços sem receios covidianos, o abastecer das motas e um cafezinho, seriam suficientes para apreciar os quilómetros que se seguiriam.


Nesta fase, zonas já bem conhecidas de todos serviram para tirar as "galinhas" dos pneus, passando pela Pampilhosa... Oleiros... Orvalho... e a paragem da praxe nos grelhados do Paúl para matar a fome. Depois de um joelho de porco mais saboroso que aquilo que esperava, debaixo de um calor que nos confortava quanto às previsões meteorológicas mais negativas, era tempo de seguir rumo à serra.

Por muito pequeno que seja Portugal, a probabilidade de encontrar várias vezes um companheiro de estrada, de cada vez que resolvemos subir a Estrela, será necessariamente baixa. No entanto, mais uma vez, aconteceu. Uma breve paragem em Loriga para ver os veraneantes na praia fluvial, e eis senão quando o Hugo aparece e pára junto a nós.

Rimos muito do insólito da situação que já se repete por várias vezes (no meu passeio anterior encontrei-o em Alvoco da Serra), trocámos uns dedos de conversa, e já que estávamos todos ali, decidimos subir à Torre na companhia uns dos outros.

Conversa para cá e conversa para lá, era tempo de seguir que ainda tínhamos alguns quilómetros pela frente até Trancoso. Despedimo-nos do Hugo e seguimos o nosso caminho. O tempo teimava em deixar-nos na dúvida se iríamos apanhar as malfadadas trovoadas anunciadas para os 4 dias ou não, mas fizemos sempre questão de ignorar o mau augúrio (tanto que nem fomos equipados para chuva) e lá seguimos em direção a Celorico da Beira, para logo depois chegar ao destino final do nosso dia: Trancoso. Ficaríamos no Hotel Turismo de Trancoso, que parecia aberto ao funcionamento só para nós, muito bem localizado próximo da zona antiga. Depois da banhoca da praxe fomos a pé até à zona do castelo/muralhas, e começámos por saborear uns filetes de polvo, no restaurante São Marcos, servidos pelo empregado de mesa com menos imaginação e mais monosilábico de sempre.


Felizmente os filetes souberam bem melhor que a interação com o empregado e saímos dali satisfeitos o suficiente para dar uma volta pelo castelo, ver a vista espetacular e ainda beber um licor beirão abaladiço numa esplanada estrategicamente colocada em terra de ninguém, antes do regresso ao quarto de hotel.

Era tempo de descansar, já que o dia tinha sido longo (em duração e em distância percorrida). A expectativa do percurso do dia seguinte era animadora, e se o tempo não nos tinha deixado ficar mal, não seria agora que nos ia falhar...

sábado, março 20, 2021

Dia do Pai com Pai

Além de ter sido o Dia de São José, ontem, 19 de março, foi também o Dia do Pai. E é justo que aqui fale dele, porque ao longo de 40 anos tenho tido a felicidade de o poder sistematicamente festejar, com o meu. Mais recentemente a celebração multiplicou-se, porque além de filho sou também pai, e a festa torna-se mais "alargada". Assim foi ontem: a feliz oportunidade de estar com todos. Um bom jantar carregado de chicha da boa, uma vinhaça à maneira, umas boas risadas e melhores conversas. E não é preciso muito mais do que isto. Uma troca de prendas simbólica que regra geral tende a evidenciar o potencial alcoólico que existem em mim (o que muito contente me deixa, não é uma reclamação) e assim se passa um bom serão, alheios a novelas covidianas e outras que tais. Espero que assim seja por muitos e longos anos, até porque vale sem dúvida a pena celebrar o Pai que tenho. Espero que os meus filhos assim pensem também ao longo da sua vida, será sinal que alguma coisa de jeito terei feito. Para todos os pais por aí, espero que tenham tido a mesma sorte que eu.

domingo, março 14, 2021

Para Certos Males Não Há Vacina

Li hoje que nos EUA, num só dia, foram vacinadas contra a COVID 4,5 milhões de pessoas. Serão no meu entender aqueles que efetivamente estão mais bem posicionados para o mais próximo que existirá do tão desejado "regresso à normalidade". Cá em Portugal certamente não temos a mesma capacidade logística que nos permitira em pouco mais de 2 dias ter a população inteira do país vacinada, mas de qualquer forma é claro que não há pressa e também não é por aí que se quer investir. Não quando a ditadura do confinamento e da repressão é tão conveniente aos fins obscuros dos nossos governantes e em particular do nosso PM. Por cá, opta-se por orçamentar 87 milhões de euros de receita em multas só para o ano de 2021, opta-se por investir 8,5 milhões de euros em novos radares sincro de controlo de velocidade, opta-se por abrir concurso para admissão de mais 1200 polícias. Parece-me clara a orientação do nosso governo e por contraste bastante negro o futuro que nos espera a todos. E ainda há quem pense que o perigo do regresso a um sistema ditatorial e opressivo está nas extremas políticas.

sexta-feira, março 12, 2021

Cá se Fazem...

 ... cá se pagam, já diz o ditado. Que raio de sociedade é esta em que os pais só pensam em ver os filhos pelas costas? Será de recriminar que um dia, mais tarde, esses mesmos filhos também virem as costas aos pais?

Saiu recentemente mais um balde de merda de medidas desconexas, meramente tentativas e aleatórias de desconfinamento, produto da gestão tirana e acéfala de um (des)governo qualquer, cujo principal foco foi o regresso à escola das crianças do pré-escolar e primeiro ciclo e que será seguido alguns dias depois do regresso dos restantes alunos. Rapidamente os canais de comunicação e redes sociais se inundaram de mensagens de regogizo por tal facto, com piadas sobre o assunto (tal como aquela que aqui apresento ao lado).

Honestamente, esta é uma das medidas que (salvo pelo facto de considerar que as crianças estão melhor servidas na escola em termos de aprendizagem), a nível de logística familiar me faz menos diferença. Pelo contrário, vou sentir falta das "visitas" dos meus filhos nos intervalos das aulas Zoom, sentando-se ao meu colo a meio de uma videochamada do trabalho a espreitar com um sorriso com quem eu estava a falar (algo que nunca impedi que acontecesse) ou simplesmente quando ía ter com eles, lhes dava um beijinho e perguntava se estava tudo a correr bem e se precisavam da minha ajuda. Esta proximidade que as circunstâncias nos impuseram, será sem dúvida algo que devia ser visto como um fator positivo e não negativo.

Talvez por ter a felicidade de os meus filhos não serem umas bestas e de gostarmos todos uns dos outros, não desgosto desta rotina de os ter mais perto de mim. Aprecio-a até (apesar de todas as dificuldades e trabalho extra que representa). Por isso (e uma vez mais repito) salvo pelo facto de as aulas Zoom não terem a mesma eficácia pedagógica para crianças desta idade que as aulas presenciais, a presença dos meus filhos em casa não era nem nunca foi um problema para mim. Durante este tempo em que convivemos no mesmo espaço (e tal como já tinha acontecido no passado) nunca houve lugar a problemas por esse motivo. Sempre nos demos bem, sempre houve entreajuda, carinho entre todos, disciplina e respeito.

Para aqueles que estão contentes por verem os seus filhos pelas costas, entregues a quem tome conta deles em espaço alheio, à sua maneira e com os riscos inerentes da situação atual, talvez não fizesse mal uma breve reflexão interior para pensar o que possa eventualmente estar errado nesta linha de raciocínio...

segunda-feira, março 08, 2021

Dia Internacional da Mulher


Poster alemão datado de 1914, alusivo à comemoração do Dia Internacional da Mulher, no qual se reclama o direito ao voto feminino. Passados mais de 100 anos, continua a existir a necessidade de reivindicação de direitos. Historicamente e de um ponto de vista generalizado, as mulheres sempre fizeram mais e melhor do que os homens, por isso continua a fazer sentido prestar-lhes homenagem, não apenas neste dia, mas em todos, quanto mais não seja com respeito e amor. Um beijinho muito grande para as mulheres da minha vida, presentes e ausentes.

domingo, março 07, 2021

Eu, Burguês, Me Confesso

Sobretudo nos últimos tempos tenho tentado fazer uma dieta mental através da filtragem e do tempo que dedico a notícias e conversas sobre temas que considero tóxicos. A COVID tem sido prolífera no que diz respeito a muito deste lixo mental do qual é praticamente impossível tentarmos esquivar-nos, por temas direta ou indiretamente relacionados. O elevado número de "especialistas" em matérias variadas e diversas tem aumentado exponencialmente a cada mês de pandemia que passa, e os jornais e os programas televisivos têm cedido espaço e tempo de antena a muita desta gente que na falta de saberem fazer alguma coisa de jeito, fazem de conta que sabem. Infelizmente não consigo ignorar tudo o que gostaria de ignorar.

Recentemente partilhei entre amigos uma capa de jornal que fazia referência a um artigo de opinião de uma economista de seu nome Susana Peralta, cujo título era uma das frases da autora: "a crise devia ser paga por toda a burguesia do teletrabalho". Por algum motivo esta frase foi proferida por uma economista, e não por uma socióloga ou antropóloga ou outra "óloga" qualquer. Com os devidos descontos da praxe (que os dei, ao ler o artigo), sobre a descontextualização possível da frase e toda a explicação inerente à mesma, este tipo de afirmação é tão justo quão justa é a generalização que nela está implícita (e que dúvidas houvesse, é injusta).

Numa situação atípica como a que vivemos, não pode haver lugar a generalizações deste género como justificação para tomadas de decisão, porque a verdade é que cada um de nós, sejamos dos que perderam o trabalho, dos que viram o seu rendimento reduzido a uma fração do que era, ou dos que tiveram de se adaptar para continuar a trabalhar, vive neste momento dificuldades variadas e de níveis diferentes, independentemente da situação. Conheço que esteja desempregado há meses e não esteja para já preocupado com a situação. Conheço quem já esteja reformado e viva com receio de sair de casa e com receio pelo futuro. Conheço quem esteja em casa, a receber o seu salário a 100% enquanto funcionário público e a fazer 1 (sim, "um") dia de trabalho a cada duas semanas. Conheço quem esteja há um ano a trabalhar a partir de casa e a fazer "malabares" para apoiar a sua família enquanto faz ginástica para continuar a ser produtivo.

O termo "burguesia" só por si soa inevitavelmente a insultuoso nos termos em que foi proferido (por muito que a autora o tentasse justificar, incluindo-se ela própria nesse grupo), quando muitas das pessoas que estão realmente a trabalhar no dito regime de teletrabalho, estão sob uma pressão imensa resultante da falta da separação entre trabalho/família, resultante da falta ou inexistência de horários, resultante da intensidade de trabalho (maioritariamente de caráter intelectual) realizado em regime de clausura. É um sobresforço que muita gente faz, ciente como eu da sorte que tem em poder manter o seu trabalho (e vencimento) em tempos difíceis, mas que tem o seu preço. E esse preço é elevado, e será tão mais elevado quanto o tempo que esta situação durar. É por isso que quando leio um texto de uma pseudointelectual de esquerda armada aos pingarelhos e cujo principal objetivo será o de ganhar notoriedade (conseguiu), a sugerir que a crise deve ser paga pelos privilegiados e felizardos como eu, numa altura em que o estado "derrete" dinheiro das formas mais estapafúrdias que se possa imaginar, num país com a carga fiscal como aquela que temos, só me ocorre uma resposta: "bardamerda"!

São tempos sem dúvida difíceis para todos. Para uns mais do que outros. Para alguns até (porque os há sempre) será uma época de prosperidade. Mas claramente o critério para determinar quem é o mais "sortudo" e "beneficiado" e "privilegiado" nos dias que correm, não será certamente o de quem simplesmente conseguiu manter o seu trabalho. Eu por exemplo nesta altura dava tudo para ser aquele funcionário público que referi, e que recebe o seu salário por inteiro para trabalhar apenas 1 dia a cada duas semanas. Em vez disso luto por conseguir desligar do meu trabalho de "burguês" pelo menos ao fim-de-semana para me poder dedicar à minha família ou simplesmente a mim próprio (e nem isso consigo fazer).