segunda-feira, dezembro 18, 2017

Rumo a Norte (Uma Crónica de 2014)

E porque recordar também é viver, depois de andar por aqui a vasculhar os meus arquivos fotográficos, encontrei o registo de uma viagem que fiz em 2014 e que me deixou um valente sorriso nos lábios na altura em que a vivi, e agora que a recordei. Como tal, achei por bem partilhar por aqui em estilo "crónica requentada", o que não deixa de ser um exercício de memória interessante...

O meu objetivo na altura foi o de viajar por terras mais a norte. Tracei então um plano para o fazer em 3 dias, com um companheiro que à última da hora "roeu a corda". Isso não foi o suficiente para me demover (apesar de lá por casa os problemas não terem achado grande piada à situação) e lá segui os meus planos iniciais, desta vez a "solo" (com a minha companheira de então, uma Kawasaki ZZR 1100 de 1997).

### Dia 1 ###



A partida foi no dia 15 de março de 2014, e o primeiro ponto de paragem foi o já na altura tradicional "Silas", para a bifana da praxe como base de qualquer pequeno almoço nutritivo.



Seguiu-se assim viagem, em direção a Tomar onde faria a próxima paragem. O Castelo de Tomar, parte integrante do Convento de Cristo, foi o lugar eleito para visitar, apreciar as vistas e esticar as pernas.





Foi depois tempo de seguir novamente viagem, agora em direção a Coimbra, onde faria nova paragem, mas desta vez para almoçar.



O local da bucha foi num restaurante mesmo em frente ao Jardim da Sereia, onde depois aproveitei para dar uma volta e tirar mais umas fotos, antes de ir visitar outros locais da cidade. Entretanto um tipo pediu-me para tirar fotografias à burra, enquanto eu almoçava, pedido a que acedi cheio de orgulho da minha velhota...



Um dos locais onde passei (e parei) foi a Igreja de Santa Cruz...





... onde se encontram os túmulos dos dois primeiros reis de Portugal.



Tendo ainda uns quilómetros pela frente, foi tempo de parar com o turismo e fazer-me novamente à estrada. Próxima paragem: Aveiro (passando junto à ria).



A indispensável visita à zona da Barra...







... onde aproveitei para beber o sumo de cevada que já me vinha a atormentar o pensamento.



E como mais quilómetros se afiguravam até ao destino final daquele dia, foi novamente tempo de montar a burra e seguir viagem, que o sol já se escondia.



Chegado ao local da pernoita (Hotel Girassol na rua Sá da Bandeira) foi tempo de desalbardar a burra e pensar num local para jantar.



Ora estando na cidade do Porto, a ementa que se impunha era óbvia: a bela da Francesinha. Como a confusão do Capa Negra não me chamava, acabei por ficar ali mais por perto, tendo corrido a coisa muito bem no restaurante Confeitaria Cunha.



Seguiu-se uma volta pela cidade para beber mais um copo, olhar para o mapa e o "roadbook" do dia seguinte, antes de voltar ao hotel para o "sono dos justos".











### Dia 2 ###

Depois de recuperadas as forças, ao sair do hotel ia tropeçando numa espécie de feira da ladra que se tinha montado ali mesmo no passeio ao longo daquela zona da Sá da Bandeira. Saltei por cima de uns quantos feirantes e dirigi-me ao estábulo da burra para a albardar devidamente antes de seguir viagem.



Como na noite anterior acabei por me deixar ficar pela zona circundante à Av. dos Aliados, decidi visitar o lado de lá do rio antes de seguir viagem.



Era bastante cedo ainda, motivo pelo qual as ruas se encontravam vazias.





já de ce cafezinho tomado, era tempo de seguir novamente viagem, sendo o próximo destino e ponto de paragem o Castelo de Guimarães.







A inevitável foto junto ao tipo com a espada...



... seguida de uma visita ao Paço dos Duques de Bragança, que curiosamente nunca tinha visitado antes.











A estrada chamava-me novamente, pelo que montei de novo a burra e segui viagem em direção a Terras de Bouro.



Digamos que o mês de março surpreendeu com uns dias em que se conseguia ter bastante frio e bastante calor num curto espaço de tempo. Por esta altura já procurava alguma sombra como paragem, e nisso o Parque Nacional da Peneda-Gerês é profícuo.





E já que estava ali porque não um saltinho até à Galiza?



Mas como o objetivo não era fazer nenhuma rota internacional (ainda :)), voltei a terras nacionais e comecei à procura de local para almoçar. Honestamente não fixei o nome do restaurante onde parei, o que é um crime grave considerando a qualidade do almoço a que tive direito: uma bela posta, no ponto, com castanhas, batatas e legumes salteados. Ainda hoje salivo só de recordar...



Alimentado o burro e descansada a burra, tempo de fazer mais uns quilómetros, no meio da bela paisagem que toda aquela região proporciona.





Em alguns locais era "hora de ponta", pelo que me vi forçado a fazer alguns compassos de espera...



De resto as belas paisagens iam-se sucedendo, desde as mais naturais...



... até ao asfalto e curvas de deixar qualquer um a implorar por mais...



... até a alguns cenários inesperados!



Uma breve paragem em Ponte de Lima para mais um sumo de cevada...





... para logo depois seguir em direção a Vila Real.





Antes de chegar, uma paragem para apreciar o por-do-sol por cima das vinhas, que claramente indiciavam a proximidade do meu destino final do dia.



Em Vila Real o meu local de pernoita foi o hotel Miraneve, que tal como o nome indica, tinha uma vista que era qualquer coisa de especial. Assim como o bife que me foi servido essa noite, na tasca mesmo ao lado.



Uma voltinha noturna em busca de um "spot"...





...  para beber uma CR&F, olhar novamente para o mapa e antever o caminho do dia seguinte.



### Dia 3 ###

No dia seguinte de manhã sabia automaticamente qual seria o primeiro ponto de paragem: a Casa de Mateus.



Tive a sorte de poder entrar e visitar livremente o local, que bem merece que o visitem!





À saída, uma paragem na tasca em frente, onde um velhote simpático me serviu um belo rosé, enquanto me perguntava de onde vinha e para onde ía.



Despedi-me com um obrigado e recebi uma recomendação para fazer um ligeiro desvio ao caminho que tinha planeado e lhe tinha acabado de descrever, para visitar uma terriola de nome Provesende. Gosto sempre quando estes improvisos acontecem, porque normalmente é isto que nos faz descobrir locais interessantes e menos conhecidos.



Resolvi seguir as indicações que me tinham sido dadas, e visitar a dita aldeia vinhateira. Iria revelar-se uma das mais agradáveis surpresas da minha viagem.





O miradouro junto à entrada da aldeia, a partir do qual se podem observar as impressionantes encostas a ladear o Douro.





Mais próximo do rio...



... e passando por algumas vinhas bem conhecidas.



A estrada continuava a chamar por mim, por isso lá segui caminho, desta feita em direção a Viseu.





Uma paragem planeada na Cava de Viriato, uma misteriosa fortaleza construída em forma octagonal, sem dúvida impressionante.



Mais uns quilómetros se impunham, pelo que novamente regressei à estrada.



Uma paragem na subida à Serra da Estrela, pelo lado de Seia.



Naquele dia, aquela estrada foi só minha...







... e assim se manteve até chegar à Torre.







A fome começava a fazer-se sentir, pelo que era tempo de começar a descida em busca de local para "abastecer".





Antes de iniciar a fase final do meu regresso, o Restaurante Medieval foi o local escolhido para matar a fome.







Um último olhar para trás, já com a barriga cheia, e antes de atacar os últimos quilómetros da viagem.



E pouco antes de chegar a casa, numa paragem para abastecimento (da burra e do burro), enquanto observava alguns insetos que perderam a vida para que eu pudesse curtir a minha, ao longo de uns cerca de 1100 kms feitos maioritariamente por estradas que deixam muita saudade.


sexta-feira, dezembro 01, 2017

Foi Quase Há Um Ano...

... e continuo todos os dias a ter saudade e vontade de voltar para os teus braços.

sábado, novembro 25, 2017

Actuar e Cicatrizar - Parte II

Depois do que comentei aqui, chegou finalmente a altura de passar das palavras às ações. Foi o que fiz no passado fim-de-semana, levando a cabo a ação de solidariedade que coordenei juntamente com um grupo de amigos que partilham uma paixão comum: o motociclismo. A ação em questão foi para mim muito especial, pois relacionou-se com uma tragédia que se abateu sobre o nosso país, que me tocou diretamente, e da qual não havia memória.

O objetivo era contribuir para um dos municípios mais afetados pelos incêndios: Pampilhosa da Serra. Com a ajuda de 18 companheiros motards foi possível angariar um conjunto de bens cuja entrega seria feita "in loco", pela mão de 6 estarolas que abdicaram de um sábado e se dispuseram a fazer desta viagem a sua missão.

O local da recolha dos bens foi a loja de computadores de um dos companheiros do grupo - que é já ponto de encontro da praxe - onde na noite da véspera carregámos uma VW Caddy gentilmente cedida pelo meu tio, para levar a cabo esta viagem. Foi também o local da partida, onde nos reunimos na manhã seguinte, agrupando uma Yamaha Fazer 1000, uma Kawasaki Versys 1000, a minha recém reparada BMW F800R, e a Caddy, quiçá o veículo mais "rápido" desta viagem... :)


Dois dos elementos do grupo "sacrificaram-se" a ir de "enlatado", leia-se na Caddy. Após o carregamento e o atraso da praxe lá seguimos viagem. Mas como os pneus já estavam a ficar quadrados e um dos companheiros do enlatado já estava a fazer sangrar os ouvidos do outro de tanto falar, fizemos o primeiro "pit stop" para abastecimento em Santarém...


... e o segundo pouco depois das primeiras curvas do dia, já na Sertã, onde iríamos reunir com o sexto elemento da comitiva que vinha ter connosco de Leiria.


Arrancámos novamente a tentar acompanhar o ritmo estonteante da Caddy, que amiúde fazia de nós um ponto minúsculo no retrovisor... :)


Infelizmente aquilo que vinha pela nossa frente era um cenário cada vez mais escuro, curva após curva, que nos fazia sentir cada vez mais tristes por dentro. Para quem conhecia aquela zona em diferentes tons de verde, passado já algum tempo desde os incêndios, continua a ser uma visão que não deixa ninguém indiferente.



Percorridos mais uns quantos quilómetros em direção a Oleiros, seguindo depois em direção à Pampilhosa, finalmente chegámos ao nosso destino. Como estávamos um pouco atrasados em relação ao previsto, e os bombeiros que nos iriam receber estavam ainda a almoçar, resolvemos fazer o mesmo. Dirigimo-nos ao restaurante "A Caruma", onde tínhamos já lugar marcado.


Mal nos sentámos, uma lousa coberta de entradas esperava por nós, a qual atacámos de imediato. O menu já estava combinado e foi bem servido: sopa de legumes, lombo de porco assado com batatas a murro, sobremesas, bebidas e cafés. O elemento mais "conversador" preferiu a alheira, e o elemento mais "vegetariano", para compensar comeu só carumas de pinheiro.


Depois de ensinarmos um empregado de mesa a aquecer um balão de CRF, resolvemos voltar ao que nos movia e trazia ali. Reagrupámos à entrada e definimos o plano para o resto da tarde. Dirigimo-nos novamente ao quartel dos bombeiros, onde fomos recebidos pelo Rui que nos iria contar na primeira pessoa alguns episódios que se passaram durante o período mais recente do combate aos incêndios ali na zona.


Explicámos o que trazíamos, pelo que nos levaram até um dos armazéns onde fazem a recolha, que maioritariamente tem material de construção e cultivo. Enquanto esperavamos que nos abrissem o portão, ficámos todos boquiabertos quando, ao comentar que levavamos uma motosserra, o bombeiro desabafou connosco que a corporação não tinha nenhuma... nem 30 segundos depois o conversador de serviço tinha enfiado a motosserra que levávamos no carro dos bombeiros, atitude apoiada por todos nós, dizendo: "esta já não vai para mais lado nenhum".



Finalmente lá nos abriram a porta do armazém, onde iríamos descarregar a Caddy.


Em conversa com o responsável da câmara, o próprio referiu que preferiam que as pessoas doassem bens em vez de dinheiro, o que só veio confirmar que nos tínhamos organizado da forma certa. Ficámos ainda com a convicção de que os bens estavam efetivamente a ser distribuídos por quem deles necessita, e também confortados ao saber que têm existido doações bastante generosas, sobretudo ao nível de material para ajudar na reconstrução das habitações que foram consumidas pelas chamas (e que a reconstrução já está a acontecer para as primeiras habitações).


Depois de nos despedirmos dos nossos anfitriões, e uma vez que eu levava alguns recados da minha família (regar umas árvores recém plantadas e fechar um pipo), fizemos mais alguns quilómetros até à aldeia de Pescanseco Cimeiro. Passado mais de um mês, continuo a ter dificuldade em percorrer aquela estrada sem me emocionar...



Apesar da desertificação daquela terra, mal estacionámos surgiram logo algumas pessoas para nos cumprimentar. O Ti' Manuel... a Ti' Isaura... o Júlio... Oportunidade para mais uns dedos de conversa e para quem me acompanhava ficar a conhecer em primeira mão aquelas pessoas e aquela terra, que com as suas casas de xisto foi outrora digna de postais, mas que agora apresenta um cenário total de devastação.


Tratados os meus "recados" foi tempo de ir até à adega que sobreviveu às chamas, e abrir uma garrafa de Favaios que um dos companheiros fez o favor de levar consigo, para brindar a melhores dias. Por esta altura o Júlio já era o melhor amigo do conversador de serviço, e apesar da revolta que é ainda uma constante no seu discurso, fez o favor de nos acompanhar nesse brinde.


O sol começava a desaparecer, e o dia tinha sido bastante intenso, pelo que era tempo de regressar. Feitas as devidas despedidas seguimos viagem. Última paragem para abastecer na célebre Picha, onde comemos a bifana da praxe, enquanto começávamos a descomprimir e a "digerir" aquele dia, o que tínhamos feito... o que tínhamos visto.


Como já não havia muito mais curvas pela frente e a hora era adiantada, o resto da viagem foi feito em "fast forward". Despedimo-nos ali mesmo e seguimos também de regresso a Lisboa.

Sinceramente, aquilo que fizemos foi para mim particularmente especial. Poder contribuir com o pouco que seja para uma realidade que me é tão próxima, inserido num grupo de amigos como este, que se tem vindo a fortalecer, com pessoas que se conheceram simplesmente por partilharem um gosto comum... faz-me acreditar na humanidade. Foi um dia de "mixed feelings" com alguns momentos menos alegres, outros de orgulho e alguns de verdadeira emoção. Um grande bem haja a todos os que se disponibilizaram para ajudar de alguma forma, e um abraço especial aos 5 malucos que me acompanharam neste dia e nestes cerca de 500 kms. Um grande abraço e um grande bem haja a todos. É um privilégio conhecer-vos e ser vosso amigo.

domingo, outubro 29, 2017

sexta-feira, outubro 27, 2017

Actuar e Cicatrizar

Do alto dos meus defeitos há uma caraterística minha da qual me orgulho: a capacidade de acção quando me proponho a isso. Dito assim parece uma verdade de La Palice, e algo nada especial, mas a acção tem efeitos medicinais na vida das pessoas (e há muitas que não se apercebem disso). Como seria difícil de evitar, o tema de hoje é o mesmo dos últimos tempos: os incêndios do país e a forma como a tragédia se abateu sobre a minha família. Em que medida isto se relaciona com o que escrevi: muito pouco (para já) a não ser motivação.

Depois de ver o que vi e aqui relatei, sei que tenho de ser paciente para que certas inércias se ultrapassem e as coisas acabem por se resolver de uma maneira ou de outra. Por outro lado apetecia-me fazer algo relacionado com o tema, então ocorreu-me que se avizinha uma época do ano profícua em solidariedade. E falando de solidariedade (natalícia ou não) que melhor alvo de uma acção que os bombeiros e um dos municípios mais afetados do país? Assim fiz. Envolvi um grupo de amigos com interesse comum (motas) e neste momento tenho cerca de 20 pessoas (a crescer) dispostas a contribuir de uma forma ou de outra, com bens ou dinheiro. Falei também com a corporação de bombeiros local e com o município, e agendei já uma visita para dia 18 de novembro, altura em que nos deslocaremos ao local em caravana motard e entregaremos o que conseguirmos reunir até lá. Estou a organizar todos os aspetos logísticos da coisa, e isso de alguma forma acalma o meu espírito, pelo que vou continuar.


Não tendo poder para resolver os meus próprios problemas, posso ainda assim contribuir para resolver alguns problemas dos outros, e este pensamento transmite-me uma sensação de controlo sobre o meu próprio futuro.

sábado, outubro 21, 2017

quarta-feira, outubro 18, 2017

Casa é Onde o Nosso Coração Está


Dia 16 de outubro de 2017. O dia em que aquilo que ao longo dos anos me habituei a ver nas notícias, se tornou literalmente uma dura realidade. Tudo começou com um telefonema ao início da manhã, que me dava conta de que a aldeia (visível na imagem) tinha ardido por completo, e que em particular a casa que viu uma família inteira nascer, crescer e viver todo o tipo de acontecimentos, situações e emoções, tinha sido consumida pelas chamas violentas de um incêndio florestal, transformando-se em pouco mais do que umas frágeis paredes a albergar um enorme vazio. Dois dias passaram desde então e continuo sem conseguir digerir as imagens que vi quando me desloquei ao local, para ver com os meus próprios olhos aquilo em que o meu coração não queria nem podia acreditar. A minha reação foi incontrolável, não conseguindo fazer muito mais do que ajoelhar-me em frente a ela e chorar compulsivamente como uma criança.

E é precisamente de criança que me vêm as memórias, emoções e sentimentos que causaram essa mesma reação. É por ainda hoje recordar ao mais ínfimo detalhe e pormenor, quer a história quer as caraterísticas físicas daquele local que era mágico para mim, que não consigo ainda eliminar esta dor que arde lentamente cá dentro, como as chamas que consumiram tudo ali mesmo, naquele local. É para mim um incêndio que pode ter sido dado como extinto, mas que ainda não parou de arder.

Naquela casa viveram-se nascimentos, casamentos, divórcios, aniversários, natais, tristezas, festas, discussões, amizades, alegrias... sobretudo muitas alegrias. E este é o ponto: a casa para onde poderíamos sempre voltar, independentemente do que acontecesse. Enquanto criança passava um número significativo de meses naquele local. E na altura não preferia estar em qualquer outro. Vou para sempre recordar o seu aconchego durante o inverno e a sua frescura durante o verão. Vou para sempre recordar aquelas paredes e as suas irregularidades ao pormenor. Os soalhos de madeira torta. As mobílias que ao longo dos anos foram mudando e transformando o seu interior, entre louceiros, sofás, móveis de televisão, mesas e cadeiras. As escadas que subiam para os quartos, onde tantas vezes me sentei a brincar, à espera que fosse meia noite para abrir os presentes de natal junto à árvore, ou até daquela vez em que caí de lá e um dos meus dentes de leite desapareceu para nunca mais ninguém o encontrar. A sapateira por baixo da escada, onde me cheguei a esconder quando era pequeno. O relógio a que o meu avô dava corda como se de um ritual se tratasse. O toque desse relógio, imediatamente seguido do toque do relógio da igreja. Uma carpete comprida com duas tiras vermelhas onde fazia estradas para os meus carrinhos de brincar. Aquele gira-discos velho com "cartuchos" que punha a tocar nos primeiros dias das férias de verão, como uma antecipação das festas de São Bartolomeu que chegariam no mês seguinte. As noites de verão dormidas com os meus avós no chão da sala, nas camas feitas de cobertores, improvisadas pela minha avó. A risota ao adormecer com as histórias contadas por eles. Os pequenos quartos ao cimo das escadas, onde tanta noites passei. Os vidros das janelas embaciados no inverno, ao acordar. A escrivaninha de madeira onde fazia os trabalhos de casa das férias. As camas de ferro. As cómodas de madeira. A estátua de um tigre que a minha mãe ganhou em tempos e que trazia sempre uma história de como a minha avó encheu de porrada um tipo que vinha atrás dela. As reentrâncias das janelas que foram emparedadas. As outras janelas abertas para a rua. As argolas metálicas na parede exterior onde em tempos existiram vasos. A adega antiga, mais tarde transformada em loja de arrumos, onde se almoçou, jantou, dormiu, e até um hamster que tive fugiu da gaiola e por lá se refugiou numas arcas de madeira. A porta de madeira virada para a cozinha, pintada de azul ou de castanho, com uma cunha para que se segurasse aberta. O telefone de disco preto dos TLP com o número 53202, que mais tarde seria substituído por uns quantos mais modernos que não duraram um terço do que aquele durou. Os papéis do meu avô desarrumados pelas gavetas. O quadro elétrico antigo que disparava aos primeiros sinais de trovoada. A asa protetora da minha avó por cima de mim sentado no sofá, enquanto fazia uma oração a Santa Bárbara para que a tempestade se fosse. O meu avô sentado a ler com dificuldade, por vezes com os óculos da minha avó, pequenos fascículos com histórias antigas. As conversas mais sérias e as galhofas mais divertidas de uma família inteira confinada a um espaço reduzido. As travessas de comida a entrarem na sala vindas da cozinha ao lado em dias de reunião. Os jantares à nossa espera quando chegávamos de viagem. Os almoços de despedida quando partíamos.

Sinto que se quisesse podia continuar para sempre, tal é a nitidez das memórias que vivem na minha cabeça, e que cada vez que revisito ateiam o lume da dor que hoje carrego. Outros há a quem certamente o leque de memórias será ainda menos complacente que o meu, pelo que quero acreditar que quando a dor passar, as memórias que agora parecem acendalhas se possam transformar em suaves recordações, e que a dor seja substituída pela alegria de as ter vivido e passado por elas. E quem sabe aquela casa que agora se encontra vazia de recheio mas ainda cheia de recordações, possa ainda vir a ser reerguida para albergar muitas mais, criadas nos anos vindouros. Pelo menos eu gostava que assim fosse...

terça-feira, outubro 03, 2017

Outono em Duas Rodas Por Terras Lusas e Espanholas

No passado fim-de-semana foi tempo de mais uma voltinha de mota, aproveitando a distração do São Pedro no que diz respeito à chegada do Outono com tempo de Verão. Depois de alguns dias a agoirar, a chuva não apareceu e o sol ajudou a aquecer pneus para me fazer às curvas com uma mão cheia de amigos que partilham a paixão pelas duas rodas. O plano nasceu de um deles (um grande bem-haja, Diogo, ainda que provavelmente não me "leias" por aqui) e rapidamente ganhou tração (no sentido literal e figurado): sair de casa sexta-feira à noite, para nos dirigirmos ao ponto de encontro em Castelo Branco. No dia seguinte, partir em direção a Béjar (Espanha) para pernoitar nos arredores em Cantagallo. No dia seguinte, partindo de Cantagallo, fazer o caminho de regresso com direito a mais umas curvinhas, até entrar de novo em Portugal e fazer o percurso até casa (a tempo de ir votar...).



E assim foi. A primeira noite foi muito bem passada, com direito a um belo jantar no Restaurante 14 e pernoita no Guest House Hostel Esplanada. No dia seguinte, sair pela fresquinha e fazer aquilo que mais gostamos de fazer... rolar!


Depois de alinhadas as burras e alimentados os burros, lá nos montámos nelas e fizemos à estrada, que já chamava por nós. Abastecimento, passagem pelo Sabugal e paragem para um favaios bem fresco.


A primeira paragem em Espanha foi em Valverde Del Fresno, depois de fazer uma descida de curvas e contracurvas fantástica, que tínhamos conhecido há dois anos, mas - na altura - com direito a chuva. Desta feita o tempo estava fantástico, e as condições para fazer as curvas com outra emoção foram excelentes.


Alguns quilómetros de boa estrada depois (fico sempre admirado com a diferença da qualidade das estradas desta região espanhola, face às que temos em Portugal...), foi tempo de encher a barriga. Por acaso e durante um abastecimento, obtivemos uma dica de um restaurante que não era muito caro. Espanto o nosso quando nos deparamos com um restaurante de estrela Michelin no hotel rural A Velha Fábrica, onde tivemos que nos deter mais tempo que o esperado tal era a qualidade dos pratos e sobremesas que nos foram servidas!


Mas como o que nos movia não era só a gastronomia e o convívio, a estrada chamava por nós... e nós respondemos.


Mais uns quilómetros de boa estrada e melhores curvas, e o calor começava a pedir uma paragem para umas cañas. Paragem num tasco de beira de estrada de nome Oásis Bar, em frente a um lagar de azeite onde já se descarregava a azeitona que deixava um suave aroma no ar.


Nova barrigada de quilómetros e curvas já em direção a Sierra de Francia, onde também revisitaríamos um troço que já conhecíamos e que muito nos agrada, e que carinhosamente batizámos de "mini stelvio", em honra ao célebre Passo do Stelvio em Itália (basta olhar para a configuração da estrada para perceber o porquê).


Como tenho a mota no "estaleiro" há mais de 3 meses, esta volta foi feita com uma "jovem" ZZR 1100 emprestada, com 24 anos de idade, mas que se portou de forma exemplar ao lado das "teenagers" do grupo, quer nas curvinhas do mini Stélvio, quer nas estradas mais abertas.


Chegados a Béjar, o sol já desaparecia e as primeiras luzes iluminavam aquela bela povoação, que todos os anos alberga os amantes de ski que ali se deslocam para a prática da modalidade.


Apesar de já ir nos vapores e há muito ter ultrapassado a linha vermelha do indicador de reserva, a fome era tanta que decidimos fazer o checkin no El Tirol, lugar fantástico e pitoresco nos arredores de Béjar, em Cantagallo, para logo de seguida irmos em busca de lugar para jantar. Mais uma recomendação dos locais, e fomos a uma antiga e abandonada estação de comboios, agora transformada no restaurante Estación Béjar Verde.


Ali comemos umas belas tapas e bebemos umas quantas cañas, que por milésimos de segundo nos pesariam na consciência quando, ao arrancar para regressar ao hotel, nos cruzaríamos com a Guardia Civil a olhar para aquele grupo de motas com ar guloso. Felizmente nada se passou, e a noite foi de descanso.


Na manhã seguinte as burras já estavam alinhadas debaixo de uma latada recentemente vindimada, no pátio do El Tirol, enquanto tomávamos um belo pequeno almoço composto por umas tostas com um molho de tomate regado com azeite e sal, aparentemente típico daquelas bandas.


Uma olhadela rápida no mapa para perceber onde estávamos, e para onde iríamos...


... à qual se seguiria uma passagem pelo centro de Béjar, que no dia anterior dada a hora de chegada não tínhamos tido a oportunidade de visitar.


Uma vila lindíssima que respira antiguidade e onde encontraríamos mais uns quantos pormenores pitorescos, incluindo umas estátuas em tamanho real de D. Quixote e Sancho Pança.


Após o cafezinho da praxe lá nos fizemos novamente à estrada, percorrendo um caminho estreito e curvilíneo pelo meio de uma densa vegetação a fazer lembrar o Gerês, que nos levaria a Puerto de Honduras, onde faríamos nova paragem para respirar o ar fresco e puro daquela paisagem a cerca de 1500m de altitute.


Seguimos caminho e alguns quilómetros a bom ritmo depois, resolvemos parar em Plasencia para encher a barriga que a fome já apertava. Como o tempo escasseava optámos por uma solução de compromisso (hambúrgueres) ficando combinado que assim poderíamos parar ainda um pouco em Cáceres, para umas cañas de despedida.

Depois de uma última paragem para abastecer o estômago em terras de "nuestros hermanos", concordámos em abastecer as "burras" em Badajoz para aproveitar a poupança no combustível, e seguir daí para Portugal. Como o dever cívico preocupava alguns, o regresso foi feito com mais ritmo por autoestrada, depois do abraço da despedida e do desejo de realizar um passeio semelhante o mais breve possível.


Para minha alegria a montada de empréstimo com que me aventurei a fazer estes mais de 1100 quilómetros em apenas dois dias portou-se à altura do desafio. Chegou a casa quase sem óleo, quase sem combustível e quase sem pneu de trás, mas chegou, trouxe-me com ela e em segurança, com a barriguinha cheia de curvas e o espírito cheio de satisfação.



Venha o próximo (passeio e pneu, que este já deu o que tinha a dar...)!

segunda-feira, outubro 02, 2017

Adaptação... Mudança...

Tive hoje o prazer de, num evento profissional em que participei hoje, conhecer Billy McLaughlin e a sua história. Para quem tiver 6 minutos pode conhecê-la também em maior detalhe aqui, mas resumidamente, trata-se de um músico que se entregou à guitarra desde os 12 anos. Passados cerca de 20, quando finalmente tinha uma carreira como virtuoso da guitarra, discos gravados, contratos com discográficas, etc., começou a sentir dificuldades a tocar, nomeadamente a controlar a sua mão esquerda. Algumas idas ao médico depois, foi-lhe diagnosticada distonia focal, uma doença rara que afeta um músculo ou músculos específicos, e que é irreversível. Basicamente o seu lado direito do cérebro deixou de controlar a sua mão esquerda. Até ser diagnosticado, passou um mau bocado, viu a vida que tinha construído ruir, perdeu o seu trabalho, os seus amigos e família acharam que tomava drogas... Só passado algum tempo de ter o diagnóstico e de conseguir começar a lidar com a situação é que conseguiu algo fascinante: adaptou-se. O facto de ser um virtuoso contribuiu de forma determinante para esta adaptação. Depois de deixar completamente de tocar, passou a fazê-lo de forma... digamos... diferente. Aqui fica este exemplo da capacidade do ser humano fazer muito mais do que aquilo que achamos ser possível. Senhoras e senhores, Billy McLaughlin tocando Hold On To Forever...