segunda-feira, junho 01, 2026

Viagem pela N222 - A Crónica (Dia #1)

No passado dia 29 de maio fiz aquele que será talvez o meu único passeio de mota deste ano, digno desse nome, ao longo daquilo que seriam 3 dias de boa disposição, bom convívio, alguns comes e bebes e muitos quilómetros partilhados. Dia 29 foi uma sexta-feira, por isso o objetivo comum era chegar a Vila Nova de Gaia ao final do dia, sendo o caminho percorrido até lá mais ou menos livre de acordo com as circunstâncias e ponto de partida de cada um. 

Uns quantos já levavam alguns dias de estrada percorrida sobretudo por terras de “nuestros hermanos”… outros tiraram o dia para fazer a viagem com mais calma e tranquilidade… outros saíram do trabalho e simplesmente fizeram o caminho até lá em modo papa-léguas (nos quais eu me incluo, assim como o meu companheiro Vitor Z., com quem combinei ponto de encontro na AE de Santarém).

 

O Sérgio estava com tanta pressa de se juntar ao Alfredo, Diogo, Fernando M. e Nuno, que até perdeu as solas dos sapatos.

 

Primeiro momento de hidratação completo, e lá seguimos viagem para parar pouco tempo depois num corte de estrada devido a acidente. Uns quantos quilómetros a filtrar debaixo de algum calor, mas felizmente assim que chegámos ao local onde a BT estava a cortar o trânsito, o mesmo reabriu e pudemos seguir viagem sem grandes atrasos.

Finalmente chegámos (eu e o Vitor Z.) a Vila Nova de Gaia, onde alguns companheiros do núcleo alentejano do grupo (Fernando, Nuno, Vitor P. e Ana) já se haviam instalado no Hotel Black Tulip, não sem antes criar algum alvoroço de forma a garantir estacionamento para todas as motas, que não seriam poucas, no parque privado do hotel (obrigado Fernando R.!). O Bruno não queria ser visto com mal vestidos por isso optou por ficar no Hotel B&B para não haver cá misturas!

 

O resto da malta foi chegando a pouco e pouco, mas como tínhamos hora marcada no Restaurante Ar de Rio no cais de Gaia, fizemo-nos ao caminho (que era curto). O Paulo, o tripeiro do grupo, foi ter connosco ao restaurante diretamente, montado na sua Ducati e com o seu capacete BMW. Chegados ao cais ainda tivemos a oportunidade de ver o Douro e a ponte D. Luis com a luz do dia, enquanto o sol se ia pondo.

 

A conversa animou rapidamente como de costume, e degustadas já umas belas francesinhas, a malta ainda estava com sede, pelo que atravessámos o rio e fomos até ao Cais da Ribeira em busca de uns finos para arrematar a noite. 

 

Mais um alvoroço numa esplanada em que não tinham vontade de atender clientes, e lá descobrimos outra mais adiante no Cais da Estiva, no Wine Quay Bar, onde os finos chegaram rapidamente e fomos mais bem tratados (obrigado outra vez Fernando R.!).

 

Com isto tudo já se fazia tarde, pelo que coloquei o chapéu de organizador e comecei a imaginar o pessoal a deixar-se dormir na manhã seguinte (o Paulo pode confirmar que não seria algo inédito…) ou começar a rolar ainda com os olhos cheios de ramelas, o que representa um perigo para a condução, por isso sugeri que fossemos descansar para começar o dia seguinte pela fresquinha. Além disso o Vitor Z. estava com curiosidade de conhecer o Pedro, o seu companheiro de quarto, que optou por ir diretamente para o hotel e dormir na hora recomendada pelo Vitinho…

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

Se a Vida te Dá Limões...

Numa deslocação recente a Espanha, na sequência de um atraso no voo de partida (situação infelizmente mais recorrente do que o desejável), assisti à rápida degradação do estado de espírito de vários passageiros que, como eu, aguardaram algumas horas para poder finalmente embarcar no voo que nos levaria a todos ao nosso destino. Era visível no rosto de todas as pessoas o cansaço e a falta de paciência, mesmo após finalmente conseguirmos estar sentados no avião, aguardando a partida. E foi aqui que assisti a algo que ainda não tinha assistido antes, neste tipo de situação. Um dos assistentes de bordo iniciou as comunicações do costume, aos passageiros, mas em vez de debitar as habituais informações acerca do voo, temperatura e horário nos locais de partida e chegada, etc., recorreu à sua criatividade para desmontar o ar sisudo dos passageiros e colocar a todos um ligeiro sorriso no rosto.
 

Começou com:
“Bem-vindos a bordo deste voo, com duração prevista de 10 horas, rumo às Bahamas…”
 

Recordo que se tratava de um voo “low cost” de curta duração com destino ao país de “nuestros hermanos”. Durante o voo, continuou a dar largas à imaginação:
“Estamos sensivelmente a meio do nosso voo, pelo que vamos dar início ao serviço de jantar, que hoje conta com dois pratos principais: lagosta e cordeiro assado no forno…”
 

Mais perto do fim, concluiu:
“Senhores passageiros, vamos iniciar a descida. Se durante a vossa estadia decidirem degustar uma paelha acompanhada de ‘una cerveza’, estarei à vossa disposição. Aproveito para referir que, para aqueles que necessitarem de viatura de aluguer, no nosso site podem encontrar Ferraris a 1 euro por dia.”
 

Ao longo da viagem presenteou-nos com várias deixas do mesmo género, estas são apenas alguns exemplos. E fê-lo sempre traduzindo em 3 idiomas, no tom formal habitual destas comunicações, o que só tornou a situação ainda mais caricata. Isto fez-me lembrar a velha expressão que diz que “se a vida te dá limões, faz uma limonada”. De facto, nem sempre as situações com que lidamos diariamente, tanto em contexto profissional como pessoal, correspondem às expectativas que geramos quando acordamos, sobre o dia que temos pela frente. Ainda assim, não somos meros expectadores passivos daquilo que nos acontece. Temos uma palavra a dizer sobre a forma como lidamos com aquilo que nos acontece, e isso faz toda a diferença. Pessoalmente, fiquei a desejar ser capaz de fazer limonadas como a que este senhor fez perante uma situação menos positiva.

sábado, dezembro 27, 2025

Leitura das Gordas

Começar por clarificar que as "gordas" não são moças anafadas, senão uma alusão aos títulos da imprensa nacional. Este trocadilho é ele próprio um exemplo daquilo que pretendo mencionar, nomeadamente, a distância que vai de ler meia dúzia de palavras que constam num título de um texto, a ler o texto em si. Hoje em dia, os guerreiros do teclado e os especialistas de coisas não hesitam em alimentar-se apenas destas "gordas" para verter a sua sabedoria de mesa de café, e deixar o resto (leia-se a informação) a quem tiver paciência para isso. Exemplos recentes são a retirada de contexto da afirmação do primeiro-ministro no seu discurso de Natal, quando referiu que o país devia assumir uma mentalidade à Cristiano Ronald, ou do ministro da educação quando referiu que a utilização do SNS pelas classes mais pobres é o que leva à degradação do mesmo. Qualquer uma das duas afirmações (retirada do seu contexto) pode dar aso a múltiplas interpretações, sendo que os previamente mencionados guerreiros do teclado ou especialistas de coisas, regra geral, têm a propensão para se afastar do significado original o mais longe possível e na direção diametralmente oposta do significado original, desde que isso lhes permita brilhar e obter algum tempo de antena.
Quanto à alusão ao Cristiano Ronaldo do PM, as críticas assumiram alarvidades como defender que o atleta não podia ser dado como exemplo, uma vez que este defende regimes ditatoriais (alusão à sua recente viagem aos Estados Unidos numa comitiva da Arábia Saudita). No caso do ministro da educação, a afirmação foi de imediato vista como altamente discriminatória e até racista, insinuando que eram os utentes que deteriorava os serviços em questão. Independentemente de o conteúdo real poder ele próprio ser naturalmente alvo de críticas (os guerreiros do teclado e os especialistas de coisas não discriminam), em nenhum dos casos houve o cuidado de uma leitura mais direta, simples e contextualizada das palavras de quem as proferiu, nomeadamente um incentivo e motivação ao alto rendimento (ao estilo de atletas de alta competição como o é o CR7) ou uma autocrítica ao modelo de gestão do SNS que privilegia pouco o investimento em serviços públicos usados por classes mais baixas.
Não faço esta leitura por ser particularmente admirador ou defensor do primeiro-ministro ou do ministro da educação. Na realidade dá-me igual serem estes ou outros os intervenientes, servem apenas como um exemplo de um sintoma, que revela que a sociedade dos dias de hoje prefere o negativo ao positivo, a crítica destrutiva à construtiva, a antipatia à empatia, o ódio ao amor. E é por isso que, de algum forma, estamos todos condenados enquanto não descobrirmos uma forma de evoluir enquanto sociedade. Porque o caminho que estamos a seguir, não nos leva a bom porto.

sexta-feira, dezembro 12, 2025

Dois Anos...

Hoje vim aqui parar não sei muito bem porquê... e apercebi-me de que já não escrevia há mais de dois anos. Dois anos sem fazer uma coisa de que gosto e, nem sei explicar muito bem porquê. Porque não faz muito sentido deixar de fazer algo de que se gosta, só porque temos de dispensar algum do nosso tempo para fazê-lo. Por essa ordem de ideias faz mais sentido evitar perder tempo com coisas supérfluas ou desnecessárias (já para não falar naquelas que não gostamos mas somos "obrigados" a fazer).

O exercício de escrever esta breve publicação foi uma demonstração que decidi fazer a mim próprio, que mesmo a meio de um dia de trabalho, enquanto se faz uma pausa para o café, um par de minutos é suficiente para o efeito. E foi. E soube bem aplicar (mais uma vez) o desfibrilhador a este tasco das letras que tantas vezes me ajudou ao longo dos últimos 20 anos. Sim, faz na próxima semana 20 anos que publiquei um texto pela primeira vez neste blogue, quando os blogues eram algo na moda, coisa que agora já não acontece. Nunca fui muito de seguir tendências por isso vejo-me perfeitamente a continuar a escrever, aqui ou noutro lado qualquer, desde que vá fazendo a mim próprio recordatórios como este, para não me esquecer da importância da escrita para a minha saúde mental.

A ver se me disciplino o suficiente para recuperar este (bom) hábito.

terça-feira, outubro 10, 2023

Estacionamento e a Importância do Zen

Nos últimos anos tenho sempre tentado fazer pender a minha abordagem em relação a tudo na vida para o lado mais zen das coisas... infelizmente não sou perfeito e por vezes essa filosofia escapa-me e não resisto a ter uma ou outra reação mais cáustica. Na realidade acho até que me proporciona um certo equilíbrio mental, pelo que em bom rigor... está bem assim.

Ontem foi o caso, quando alguém resolveu estacionar o seu carro junto ao meu, assim...

Entendo que no mundo egocêntrico em que várias pessoas vivem, fazer este tipo de estacionamento, virar costas e ir à sua vida (enquanto fica também a tapar metade da entrada das instalações de uma instituição social), possa ser razoável. Para mim não foi e admito que me fez subir a temperatura do sangue meio grau.

Como não sou um tipo violento, decidi usar o intelecto. Redigi uma carta endereçada ao estimado proprietário da viatura reunindo o máximo de dados possíveis, incluindo o nome da companhia de seguros e o número de apólice associada à matrícula do carro, que rezava mais ou menos o seguinte texto:


 

Exmo. Sr.,
Proprietário da viatura Marca Modelo (matrícula 00-XX-00),

Na sequência de estacionamento do veículo supracitado, na Rua X, no dia 9/10/2023 durante o período da manhã, venho contactá-lo face aos estragos provocados na minha viatura.

Disponibilizo assim os meus contactos (nome e telemóvel) para que possamos falar pessoalmente e proceder ao respetivo preenchimento de declaração para efeitos de envio à companhia de seguros, a par das fotos que tirei da ocorrência.

Em alternativa e caso prefira não entrar em contacto comigo por algum motivo, poderei se preferir estabelecer contacto direto com a sua seguradora (Fidelidade – Companhia de Seguros, S.A.) fazendo alusão ao seu número de apólice (XXXXXXXXX) para este efeito. Deixo assim ao seu critério a forma como podemos proceder, ficando a aguardar o seu contacto.

Com os melhores cumprimentos...


Na realidade não havia qualquer dano visível no meu carro, mas ainda assim achei que não devia deixar o assunto morrer sem qualquer tipo de consequência. Imprimi, assinei a carta e, ao chegar a casa, procurei a viatura (que entretanto já tinha mudado de poiso) colocando a minha missiva no para-brisas. Nesse mesmo dia, recebi o contacto do proprietário que, cheio de razão pois não tinha feito nada de errado e era impossível eu ter qualquer tipo de estragos no carro porque nem sequer lhe tinha tocado, ainda assim se disponibilizou para falar comigo.

Veio ter comigo acompanhado por guarda-costas (a esposa) e entrou logo na conversa a pés juntos, dizendo que o que eu dizia era impossível e que não tinha sequer tocado no meu carro (apesar de pelos vistos saber claramente de qual carro se tratava). Deixei-o falar um pouco, mostrei-lhe a fotografia e perguntei se o conceito de "tocar" dele era diferente do meu. A esposa quando viu a foto fez cara de bufa, e o senhor engoliu em seco. Na fase seguinte baixou o tom, disse que não era necessário "aquela carta..." e começou a justificar-se dada a dificuldade de estacionamento na rua. Perguntei-lhe (enquanto morador da mesma rua) se se importava então que todos os dias fosse encostar o meu carro ao dele, uma vez que é extremamente difícil de estacionar. O tom foi baixando e depois de lhe explicar que não tinha qualquer dano no carro, que só tinha redigido a carta porque queria chegar à fala com ele e fazer ver que não era correta a situação, a conversa acabou com um pedido de desculpas, um "passou bem" e um "adeusinho Sr. Marco".

Moral da história: por muito bom que seja ser zen, às vezes também sabe bem ser cáustico...

domingo, setembro 17, 2023

Viagem Alternativa pelas Serras do Centro - Dia #3

Dia #3 - A sorte protege os audazes...

O terceiro e último dia ainda nos reservava um percurso interessante, que nos apresentava alguns quilómetros interessantes de passeio antes do regresso a casa.



Apesar de o dia ter amanhecido com o sol (quase) a brilhar...



... havia no entanto um conjunto de previsões pouco animadoras, como tal... houve quem achasse melhor desertar. Com base nestas perspetivas meteorológicas, o Velasquez e o Bosco decidiram assim comer a bucha matinal e fugir à chuva fazendo o percurso mais direto para casa. A brigada do reumático (leia-se eu e o Sat_on_fire) persistiu e insistiu em fazer o resto do percurso traçado até decidirmos que seria altura de deixar de o fazer.

Mais tarde e ao longo do dia provar-se-ia mais uma vez que a sorte protege os audazes, pelo que houve quem apanhasse molha a caminho de casa, mas não fui nem eu nem o Sat_on_fire...

A saída do Sabugal foi antecedida pelo abastecimento matinal e despedida da malta que iria regressar mais cedo a casa. Já de cafezinho tomado, apontámos o azimute em direção à Covilhã, observando as nuvens ameaçadoras que se iam formando em nosso redor... Mais próximo da Covilhã, apanhámos estrada molhada, mas nada de intempérie. A determinada altura, constatámos que literalmente estávamos a passar nos intervalos da chuva!



E assim foi. Seguimos em direção a Unhais da Serra onde, quando chegámos, fazia um lindo dia de sol.





O dia estava realmente bom, e aproveitámos para fazer a primeira hidratação do dia precisamente em Unhais da Serra, no bar Quiosque 3 (onde ainda que de forma meio inesperada, até deu para lavar as vistas).

Antes de seguir viagem, ocorreu-nos que na Ponte das Três Entradas um dos acessos estava cortado, o que nos poderia dar dores de cabeça para manter o percurso planeado. Optámos assim por fazer uma correção ao plano original, fazendo antes uma passagem pelo Piódão e retomando mais à frente o percurso traçado (o que se revelou uma excelente opção).

Seguimos assim em direção a Vide, virando depois em direção ao Piódão por um caminho que já merecia um tapete de alcatrão em condições (diz que é para o ano...).





Uma vez chegados ao Piódão, o Sat_on_fire decidiu fazer as compras turísticas de queijo, licor e mel, enquanto fazíamos nova reidratação. Eu fiquei-me pela cevada. No final ainda recebemos uns "tóclantes" para colar nas motas, coisa que naturalmente não fizemos. Acabámos as "mines" e seguimos viagem.



Depois de chegar ao alto da serra e já começando a descer em direção a Fajão, deu para perceber que tinha havido por ali temporal do bom, já que as estradas, apesar de secas, estavam cheias de lixo arrastado pela água das chuvas. Mais à frente a própria Ponte de Fajão estava completamente atascada de lama, que deu lugar à escassa meia dúzia de metros de TT de toda a viagem...



Entretanto chegámos a Fajão onde contávamos almoçar no Pascoal. No entanto o restaurante estava fechado, pelo que nos dirigimos ao local onde anteriormente ficava o restaurante (na altura chamado Juiz de Fajão), onde dá sempre para desenrascar algum petisco. Mais uma vez, a sorte continuava a proteger os audazes. Perguntando se dava para petiscar alguma coisa, foram-nos oferecidos uns bitoques, não sem antes degustar um queijinho com marmelada.





Não sendo a melhor, foi sem dúvida a refeição mais bem servida e mais económica da viagem, tendo sido atendidos com a boa vontade de quem tinha acabado de limpar a água e lama que inundaram o restaurante na noite anterior, ao ponto de rebentar com o quadro elétrico. Mais do que satisfeitos, agradecemos a refeição e o atendimento e seguimos viagem. Também a boa vontade do S. Pedro se continuava a fazer sentir, passando incólumes pelos intervalos da chuva. Era de aproveitar.

Rumámos em direção ao Casal da Lapa, virando depois em direção à Pampilhosa onde não chegaríamos a entrar. Subimos antes em direção ao Cabeço da Urra onde fizemos uma paragem no miradouro para apreciar aquela paisagem. Fiquei surpreendido com a plantação de ervideiros que ali nasceu... bom sinal para a produção de aguardente de medronho da região!





A paragem seguinte seria em mais um local da praxe... o velho café da Picha, onde hidratámos novamente e onde tive a oportunidade de constatar que já rodava praticamente com pneus slick. Para o que faltava do caminho, já não seria grande preocupação, até porque o tempo se mantinha seco à nossa frente. A borracha seria suficiente para ainda curtir nas curvinhas rápidas em direção a Vila de Rei.



A partir daí o objetivo seria chegar a casa, fazendo os últimos quilómetros do dia por AE. Abastecimento e despedida feita em Santarém e entrámos na A1 para o troço final. Conseguimos chegar ao fim do dia sem dar uso ao equipamento de chuva e com mais uma barrigada de quilómetros por boas estradas e locais.



Um grande bem haja aos meus companheiros de viagem, pela companhia, convívio e camaradagem em mais uma aventura assim a modos que improvisada, mas que permitiu o controlo de estragos pelo facto de não termos conseguido cumprir com o nosso plano original. Tal como costumo dizer, mais vale um mau dia de férias do que um bom dia de trabalho, assim como mais vale uma viagem modesta do que nenhuma viagem. E ficaram mais uns quilómetros de estrada (no meu caso cerca de 1200...) partilhados com algumas histórias contadas e outras para contar.



Venha a próxima (... que o plano original não ficou esquecido).




PS: a borracha acabou assim...

sábado, setembro 16, 2023

Viagem Alternativa pelas Serras do Centro - Dia #2

Dia #2 – Para trás mija a burra…

O segundo dia seria mais ambicioso em termos de rota traçada, pelo que todos concordámos começar bem cedo. O percurso seria mais uma vez feito por algumas das nossas estradas favoritas, já do lado espanhol, sendo que regressaríamos a Portugal antes do dia terminar.



Pelas 8h30 já estávamos prontos para o pequeno-almoço, com as burras a espreitar lá fora e a chamar por nós…



Sairíamos rapidamente de Manteigas após o abastecimento matinal, percorrendo a N18 em direção à Guarda e apreciando aquelas curvas largas com bom piso. Tomaríamos um último cafezinho antes de rumar em direção a Ciudad Rodrigo.



No mapa tínhamos traçado um pedaço de percurso pela A25, mas sendo pouco fãs de trajetos por autoestrada, optamos por fazer antes a N16, sendo que após uns primeiros quilómetros desinteressantes, se fizeram outros tantos de algum jeito. Rapidamente chegaríamos à próxima paragem já com as necessidades de hidratação do costume…



Em Ciudad Rodrigo havia uma certa confusão com a organização da feira anual do cavalo, estando algumas das ruas de acesso ao centro cortadas. No entanto, fomos por ali ficando na conversa da treta, até que eventualmente a vontade de petiscar alguma coisa e a perspetiva de poucas alternativas nos quilómetros seguintes nos levaram a procurar poiso para antecipar o almoço.

Acabámos por ir parar ao Méson La Paloma, restaurante onde já tinha tentado ir no passado sem nunca conseguir mesa. Mais uma vez os benefícios de viajar em alturas menos movimentadas. Desta vez um bom tinto da região (Cabras Pintas de 2018) pareceu satisfazer as exigentes papilas gustativas do Velasquez…



Mas nem só de comezaina vive o motociclista e uma vez degustados os nossos bifes de vaca, era tempo de seguir viagem até à próxima paragem. Até ao momento, S. Pedro mantinha-se do nosso lado, e apesar de umas nuvens ameaçadoras pelo caminho, conseguimos passar incólumes até à paragem seguinte no santuário de Nossa Senhora de Francia.



Mais uma vez, não andava ninguém por ali, pelo que aparcámos as burras onde quisemos e apreciámos as vistas o melhor que pudemos.



Aliás, a pouca companhia que tivemos foi cortesia de uma cabra montesa que vagueava livremente no interior do santuário e que nos fez companhia até ao miradouro de Santiago…



Quando entrei no miradouro, como que por magia tinha desaparecido… mas quando olhei para o lado, ficou o mistério explicado.



À saída do Santuário o nosso navegador de serviço achou que estávamos folgados em quilómetros a percorrer, e levou-nos por uma incursão serra abaixo… para o lado errado. Só nos apercebemos do erro em Monsagro… 15 kms depois. Se como diz o ditado, “para trás mija a burra”… no nosso caso para trás regressaram os burros, porque a alternativa não era viável.



Retomado o percurso planeado, era tempo de curtir mais uma barrigada de curvas. Depois de abastecermos seguimos caminho, passando por La Alberca e pelo “mini Stelvio” em Las Batuecas.



Por esta altura (e uma vez mais a meio de uma viagem) o meu pneu da frente entregou a alma ao criador… Ao contrário dos meus companheiros de viagem que calçaram todos sapatinhos novos nas suas meninas, eu levei os sapatos de sempre e, se por um lado fiquei satisfeito por finalmente acabar com eles (adquiri um ódio de estimação por aqueles PR4), por outro faltava-me fazer o resto da viagem e a perspetiva de rolar assim não era muito animadora. Ainda assim, não perdi o sono por causa disso.

Lá continuámos a bom ritmo e sempre com boa estradinha pela frente. A paragem seguinte foi em Pinofranqueado, numa esplanada catita do Hotel El Puente, que - admirem-se - fica junto a uma ponte, sobre o rio Los Angeles.

Enquanto o Velasquez fazia psicanálise às pastilhas da frente da sua menina, a RS do Bosco vinha tão emocionada com a viagem que até deu alguns sinais de incontinência…



Ainda havia alguns quilómetros pela frente, e Valverde del Fresno e Navasfrías esperavam por nós. Assim que entramos em Portugal, mais uma vez aquela sensação que por cá não se sabe fazer bom alcatrão… Seguimos em direção a Foios onde parámos no Ganguilhas para uma última reidratação antes de rumar ao destino final do dia.

Chegámos finalmente ao Sabugal, onde nos dirigimos à hospedaria Robalo. O atendimento ali não podia ter sido melhor. É o senhor que dá nome ao estabelecimento que faz a casa e colocou-nos totalmente à vontade, oferecendo-nos inclusive aparcamento privado para as motas e dando-nos indicações sobre onde jantar… nomeadamente no restaurante que também é seu!





Depois do momento Tom Cruise do dia, fomos instalar-nos nos respetivos alojamentos e saímos em busca do local da janta, leia-se, atravessámos a estrada. Saímos da hospedaria Robalo e entrámos no restaurante Robalo, onde se comem refeições confecionadas pelo Sr. Robalo, e onde fomos efetivamente muito bem servidos. O prato de eleição foi a costeleta de novilho, e houve algum cuidado com a escolha do vinho para não ofender as papilas gustativas do Velasquez.



A vida noturna do Sabugal não se adivinhava muito melhor que a de Manteigas, ainda assim lá demos com um bar onde deu para jogar mais uma matraquilhada e beber uns copos a acompanhar a conversa da treta.



Entretanto houve quem desertasse e os resistentes foram em busca de outro poiso, mas a oferta era escassa e pela primeira vez durante a viagem a chuva e trovoada davam um ar da sua graça, pelo que mais uma vez neste dia resolvemos arrepiar caminho e voltámos ao mesmo sítio onde começámos, para acabar a noite…



Muitas, mas mesmo muitas aldrabices de alta qualidade depois, era tempo de dar o dia por terminado, fazer a reza ao S. Pedro para nos viabilizar o dia seguinte (até então a sorte protegera-nos, mas a coisa não parecia famosa para o dia seguinte) e descansar umas horitas até lá.

sexta-feira, setembro 15, 2023

Viagem Alternativa pelas Serras do Centro - Dia #1

Dia #1 – Se a vida te dá limões, faz uma limonada…

Depois de algum tempo a planear em grupo uma viagem mais alargada, que obrigava a disponibilidade de alguns dias de férias e cuja rota já estava traçada com alojamentos marcados e tudo, eis senão quando as previsões de tempo mais negativas se confirmam junto à data prevista e nos obrigam a improvisar um pouco…

Havendo ainda a probabilidade de o mau tempo se manifestar, optámos por rumar mais ao centro em vez de ao sul, mantendo a ideia de rolar entre Portugal e Espanha, numa rota mais curtinha em distância e duração (apenas 3 dias em vez de 5) por locais familiares. Assim, se algo corresse menos de feição climatericamente, também o regresso antecipado seria mais fácil.

Tecidas estas considerações, traçou-se um novo percurso no mapa e fizeram-se as devidas reservas de alojamento. E toca a albardar as burras que era tempo de aproveitar aquilo que o S. Pedro permitisse e que 3 diazinhos na estrada nos pudessem oferecer. Este seria o primeiro, ainda que apenas pelo nosso “quintal”.



A partida foi na quarta-feira, dia 13. Eu, o Sat_on_fire e o Velasquez (a.k.a. núcleo “motorradiano” composto por duas “manas” R1200RS e uma S1000XR) seguiríamos de Lisboa, com ponto de encontro na estação de serviço de Aveiras. O Bosco (a.k.a. núcleo “avariliano” unipessoal com a sua RS660) viria do Porto, juntando-se a nós na Sertã. Saímos cedinho para aproveitar bem o dia e uma vez feita a primeira hidratação à base de cevada, acompanhada por uns rissóis de leitão, por volta das 10h já estávamos juntos e prontos a seguir viagem.



Saindo da Sertã, o percurso seria já bem conhecido de todos. Rumo a Oleiros, passando pelo Estreito e com paragem no Orvalho. O sol brilhava e claramente neste dia não S. Pedro não nos daria qualquer preocupação a ter com o mau tempo. Chegados a Orvalho, o calor até já se fazia sentir e bem, mas para mal dos nossos pecados o restaurante Pérola do Orvalho estava fechado e nas bombas não se vendiam minis. Não deixámos por isso arrefecer os pneus e seguimos viagem em direção à Pampilhosa da Serra.

Uma vez chegados à Pampilhosa, a sede tinha aumentado, por isso fomos diretamente para a esplanada da churrasqueira Arco Íris, onde fizemos mais uma hidratação bem merecida. O sossego na vila contrastava com a azáfama que ainda há poucas semanas se fazia sentir, entre as festas locais de verão e a concentração de Góis. Agora quase não se via vivalma na rua.

Hidratação concluída e não perdemos muito tempo a seguir viagem. Saímos da Pampilhosa na direção de Góis, não sem antes fazer uma paragem pelo caminho para saudar o nosso camarada Pedrosa…



Curvinhas para cá, curvinhas para lá, chegámos a Góis. Mais uma vez também ali o sossego contrastava com a azáfama recente. Ainda assim a dificuldade que adivinhávamos em arranjar poiso para almoçar não se confirmou. Já sabíamos de antemão que o Silvério estava fechado, mas mesmo ao lado o Alvaro estava a funcionar e bastou apenas aguardar um pouco enquanto reidratávamos na esplanada para nos arranjarem uma mesa onde iriamos degustar um empadão, o único prato do dia que restava, mas que até nos soube bem. Fizemos por não deixar o branquinho aquecer com o calor que se fazia sentir e uma vez concluída a refeição, ala que se faz tarde.

Seguimos por Arganil, Coja e Avô, até à passagem pela Ponte das Três Entradas, onde percebemos que havia um acesso cortado que nos poderia obrigar a replanear um passo da nossa viagem mais à frente, mas na altura não pensámos mais nisso. Pensámos sim em reidratar de novo e aproveitámos para a primeira matraquilhada da volta (onde as skills de uns contrastam invariavelmente com a inépcia de outros, leia-se… eu).



A fome ainda não era muita, mas a ideia de petiscar qualquer coisa na Torre já nos piscava o olho, por isso continuámos o nosso caminho pelas estradinhas do costume, já bem conhecidas e muito apreciadas (e percorridas como sempre em ritmo animado).

O tempo na Torre também estava cinco estrelas e mais uma vez não havia quase ninguém à vista. As vantagens de se viajar em dias que não há grande movimento. Batemos umas chapas das motas, para manter a tradição e fomos ver da bola. Infelizmente na loja dos enchidos serranos explicaram-nos que naquele dia não havia e deram-nos o contacto para avisar quando formos em dias menos movimentados que possam não ter para nos prepararem uma antecipadamente. No entanto, não morremos à fome por causa disso. A bela da sandocha com presunto e queijo acompanhada a tinto foi uma alternativa mais do que satisfatória para todos.



Já “lanchados” com direito a cafezinho e licor, o que restava da viagem eram meia dúzia de quilómetros até ao poiso do final do dia em Manteigas. Também em local onde alguns já tinham pernoitado e jantado no passado, mais especificamente no hotel Vale do Zêzere. Tínhamos a hora limite das 19h para fazer o check-in, o que cumprimos com facilidade.

Percebemos que o restaurante do hotel que conhecíamos e era bastante bom, entretanto tinha fechado permanentemente, pelo que após deixarmos as burras no estábulo e nos acomodarmos nos nossos alojamentos, começamos a ver de sítio para a ceia.

Entretanto o Velasquez, um dos gajos novos mais velhos que conheço, começava a acusar a intensidade de uma lesão que trazia consigo. Como a idade não perdoa (e não tendo nós levado “El Químico” connosco nesta viagem), fizemos uma paragem técnica numa farmácia para comprar um medicamento de efeito analgésico, preferencialmente daqueles cujo efeito não fosse cortado por bebidas de teor mais alcoólico.

Constatou-se que quem é feito para andar de mota, muitas vezes não é feito para andar a pé. Era o nosso caso e isso notou-se uma vez mais na “navegação”. Se bem me recordo, alguém disse à saída do hotel que a distância prevista até ao restaurante que escolhemos era de uns 500m, já ali… o que rapidamente se constatou serem quase 2 km a subir.



Deu para ganhar apetite, que saciaríamos no restaurante Central, a comer um naco com queijo da serra e a beber um belo tintinho, que obteve uma classificação por parte do Velasquez, digna de “bom para temperar bifanas”. Ele há públicos difíceis…

Depois de jantar, constatámos o óbvio. A vida noturna em Manteigas é assim a modos que para o “limitada”. Ainda assim logo por cima do restaurante havia um bar mais ou menos jeitoso, de seu nome (pretensioso) Granittus Caffe, que fica junto à (despretensiosa) Pensão Estrela, e que teria de servir o nosso propósito.



Foi aí que optámos por beber o nosso digestivo e continuar os intensos debates sobre temas diversos, variados, polémicos e relevantes da sociedade atual, sendo que a conclusão alcançada é que a postura ideal a ter nos dias que correm sobre a maioria dos assuntos se resume a dizer… safoda.

Uma vez assente este racional, fizemos mais uma incursão até ao outro bar de nome Casa da Árvore, onde se contaram mais umas aldrabices e no qual encerraríamos a noite com uns Hendricks, antes de regressar ao hotel. Demos as graças pela abébia que o tempo nos tinha dado até então (e pelo facto de o caminho de regresso aos nossos alojamentos ser agora sempre a descer) e fomos recuperar energias para o dia seguinte.