quarta-feira, julho 13, 2022

Regresso às Viagens (Pirinéus, 13/6)

O terceiro dia da viagem seria o primeiro com o grupo completo e estávamos todos com vontade de finalmente começar a atravessar os Pirinéus. "Atravessar" seria o termo certo, já que ao longo deste (e dos dias seguintes) faríamos uma espécie de rendilhado no percurso entre Espanha e França (passando por Andorra), o que tornaria a viagem muito mais interessante do que simplesmente percorrer a habitual rota transpirenaica que a maioria da malta faz. Cortesia dos nossos expatriados do grupo, que já conhecem aquilo de trás para a frente. O plano para o dia incluía cerca de 350 kms de estradas cuja qualidade se revelaria logo nos primeiros troços percorridos...


Começaríamos o dia com um pequeno-almoço rápido no café/restaurante Viena junto ao nosso hotel B&B (que em vez de "bed and bath" deveria querer dizer "bom e barato", ainda que sem pequeno almoço incluído) e logo tratámos da arte de albardar as burras, para seguir viagem. Por esta altura o Rui já só falava de "isto, aquilo e aqueloutro".


Os primeiros metros de estrada seriam recheados de curvas logo até à primeira paragem em Portbou. Era impossível não parar neste local para observar a paisagem e bater umas chapas do mar, das motas e dos feiosos, tudo com o enquadramento certo...




Esta seria a primeira de 4 travessias fronteiriças que faríamos naquele dia e pelo que víamos até ao momento, a coisa prometia. A partir dali faríamos mais alguns kms a acompanhar a costa francesa até começarmos a rumar mais em direção a oeste. Rapidamente chegaríamos à segunda travessia fronteiriça, parando no Col d'Ares para admirar a paisagem.

 

"Col" significa passagem de montanha, e esta seria uma de muitas que percorreríamos ao longo dos vários dias de viagem. Esta passagem tem relevância histórica relacionada com a guerra civil espanhola.


Neste local em particular, veríamos o primeiro "calhau" digno desse nome, da viagem. Um monumento com a representação de um olho, com a seguinte transcrição originalmente escrita em Catalão:

"Aos republicanos espanhóis, civis e militares; aos que atravessaram o Col d'Ares em janeiro-fevereiro de 1939. A Retirada: Epílogo de um drama humano, sem precedentes na História. É aqui que as dores de uma guerra terminam e as de um exílio que desterra começam! Que a amargura de uma saudade não faça perder a esperança! Prats Endavant, Set. 2002”


A paisagem, o percurso traçado e o bom tempo convidavam a seguir viagem. Por isso era altura de deixar de olhar para calhaus e fazermo-nos à estrada.

Quando tratei da minha logística para a viagem, achei que ir para os Pirinéus era coisa que justificava roupa mais quente. Nada faria antever que iríamos fazer a viagem numa das semanas mais quentes do ano, em que praticamente todos os dias iríamos rolar debaixo de temperaturas na casa dos 40 graus. Este primeiro dia não era exceção, por isso sentíamos a necessidade da hidratação pontual para o bem estar físico de todos...


O Rui fazia questão de meter conversa com tudo e todos. Desta feita resolveu importunar um pobre canito... um galgo escanzelado e tão ou mais feio que ele, que se fazia acompanhar pelos donos e que lá teve de levar umas festas das manápulas do espanhol. Até para se ser cão é preciso ter sorte.

Os kms continuavam a ser alegremente percorridos, o calor continuava a subir e a fome começava a dar sinal, pelo que parámos num spot já conhecido do Michel: o Ca La Paquita em Olot. Deixámos as motas à sombra (pelo menos à hora que estacionámos porque quando saímos já estavam a ferver ao sol) e fomos ver da já merecida bucha.



A parte gastronómica da viagem continuava a ser top e a fazer jus ao resto da experiência. Tenho a convicção que o dobro dos dias a andar de mota por aquelas bandas faria de mim um obeso e teria de voltar para casa num sidecar, atrelado ou algo semelhante. Mas para já seguia saboreando os "primer y segundo" que me punham à frente sem grande peso, pelo menos na consciência.


O calor era realmente abrasador e mais abrasivo era o alcatrão que com ele devorava a borracha do meu pneu da frente a olhos vistos. Rapidamente percebi que não me iria escapar ao mau olhado que o Pedro me lançara logo no início da viagem e comecei a pensar que teria de fazer uma paragem para substituir o pneu que teimosamente não tinha trocado em Portugal.

Próximo do final da tarde fizemos uma paragem numa oficina que estava fechada. Enquanto esperávamos que abrisse (o que nunca veio a acontecer) aproveitámos para fazer uns telefonemas para outras oficinas alinhadas com o percurso que ainda tínhamos pela frente e comecei a temer não arranjar um pneu decente, ou um pneu de todo, para montar. Numa derradeira tentativa lá contactámos uma oficina que confirmou ter o pneu que eu queria, mas teria de chegar lá antes das 18h30 para que o montassem. Pedi para me guardarem o pneu sem sequer perguntar o preço (tinha para mim que, sendo a oficina em Andorra, teria de vender um rim para o pagar) e seguimos viagem em modo papa-léguas para não falharmos. E assim foi.


Mal cheguei à oficina Rilei em Andorra, mandaram-me entrar e puseram-me a mota nos cavaletes, já com o pneu da frente totalmente slick. Tratei de tudo com o dono da oficina falando com ele em castelhano, para no final da conversa perceber que era um português de seu nome Jorge. As instruções para chegar ao café mais próximo e beber umas cañas enquanto esperávamos pela montagem do pneu já foram dadas na língua de Camões. Surpresa das surpresas, não tive de vender qualquer orgão do meu corpo porque o pneu foi vendido a um preço mais que razoável, pelo que logo houve malta invejosa já a pensar que também seria boa ideia mudar pneu...


Mas não tínhamos viajado de tão longe para andar a fazer manutenção às motas. E como a situação ainda que desafiante até se tinha desembrulhado rápido, depois de montado o pneu ainda fomos ver as vistas conforme tínhamos inicialmente programado.

No meio disto tudo, o tempo que estivemos parados foi aquele em que caiu uma chuvinha que já não chegámos a apanhar. Subimos no entanto com precaução até Port d'Envalira, a 2408m de altitude, para evitar fazer asneira, sobretudo com um pneu novo cheio de goma a rolar em estrada molhada.



E como não queríamos deixar nada por ver, dali fomos ao miradouro do Canillo, um local impressionante com uma vista a pique para o Collent de Montaup.



Ainda só tínhamos encontrado um português desde que chegáramos a Andorra, pelo que ali foi o sítio certo para encontrar outro, também de mota, que logo aproveitámos para nomear fotógrafo de uma chapa em grupo.

 

Entretanto a estrada já estava quase seca, pelo que era boa altura para ir tratar do checkin no hotel Garden Andorra, onde pernoitaríamos, e começar a pensar na parte gastronómica. A descida foi animada por boas curvas que apanhámos novamente em direção ao centro de Andorra por onde já tínhamos passado.

Infelizmente dado o avançado da hora a que nos despachámos do checkin, banhoca, etc., os restaurantes nas proximidades estavam todos fechados ou prestes a fechar. Uma pesquisa rápida no amigo Google e apareceu-nos um que talvez salvasse a noite, pelo que fizemos um passeio noturno até ao El Raim, onde uma simpática senhora nos atendeu sem qualquer problema. O restaurante tinha boa pinta e percebia-se que a especialidade eram as carnes grelhadas, pelo que praticamente só foi necessário escolher o vinho para acompanhar...


Já de fome (e sede) saciada, agradecemos à simpática senhora que nos atendeu já um bocado fora de horas, que sozinha deu conta do nosso jantar na grelha e ainda assim nos atendeu super bem.

 

Fizemos o caminho de volta para digerir o jantar (desta feita como o Rui não estava responsável pela navegação, percorremos a distância normal) e voltámos ao hotel para descansar de um dia longo e que - graças a mim - nos tinha apresentado alguns desafios de logística que por fim foram ultrapassados da melhor forma e com o espírito de grupo e camaradagem com que já sabemos podemos contar.

terça-feira, julho 12, 2022

Regresso às Viagens (Pirinéus, 12/6)

Na continuação da rota planeada cuidadosa e minuciosamente para a viagem de ida até Figueres, apresentavam-se hoje pouco mais de 500 kms pela frente, pelo que o dia teve necessariamente de começar bem cedo. Pelo meio iriamos encontrar-nos com o Rui e o Michel, para depois rumar já como um grupo até ao destino final do dia.



Antes de partirmos pudemos constatar mais algumas peculiaridades da povoação. Além das levadas que proporcionavam um som constante de água a correr onde quer que estivéssemos e dos estranhos cenários com duendes que se encontravam em cada virar de esquina, janela ou vaso com plantas, deu para perceber que algo de estranho se passava com o relógio da torre da igreja. Basicamente, a torre tinha não um, mas dois relógios (ambos com a hora errada e desfasada em alguns minutos entre si) que tocavam também de forma independente. O que é sempre porreiro durante a noite, porque temos direito a ouvir duas vezes as badaladas, a cada hora, sem que em nenhum dos toques a hora esteja certa.





Depois de respirar o ar fresco matinal por um bocado foi tempo de comermos umas tostadas como pequeno-almoço e albardar as burras como de costume, para seguir viagem.





O percurso deste dia estava preenchido com mais curvas que o anterior, o que permitiu rolar de forma mais animada, enquanto tínhamos acesso a uma envolvente também mais interessante. O calor continuava a fazer-se sentir, pelo que quando começámos a percorrer a estrada junto ao rio Ebro, começou a apetecer-nos parar em algum lado para refrescar.



O Pedro usou as suas avançadas capacidades de navegação para tentar chegar ao Embalse de Mequinenza, em Caspe, e meteu por uma estrada de terra batida adentro com a velha máxima alentejana em mente: “é já ali”.

Não era. Andámos até não nos ser permitido andar mais e na impossibilidade de chegar ao embalse, resolvemos antes ir beber uma caña ao parque de campismo que se nos apresentava ali ao lado. Foi a incursão de offroad possível da viagem não obstante algumas estradas de merda bem piores que iríamos apanhar mais à frente.

Nota do autor: será definido atempadamente o léxico utilizado durante a viagem para classificação técnica das estradas, que varia entre “de merda” e “das boas”, sendo que por vezes a lógica da classificação possa ser invertida, ficando a interpretação correta ao cuidado do leitor.



No dito parque de campismo, recusaram-se servir-nos o que quer que fosse porque não estávamos lá alojados, pelo que demos por finda a incursão de offroad e voltámos ao alcatrão para seguir viagem.

A hora do almoço aproximava-se e a próxima paragem seria no restaurante Ficus & Persica em Fraga. Um spot com estilo “american diner” escolhido pelo Rui, com quem nos encontraríamos para almoçar aí mesmo.



Depois de aviarmos uns hambúrgueres generosos e mandarmos abaixo mais umas cañas, enquanto começava o chorrilho de baboseiras, lérias e outras mentiras, era tempo de raspar a mosquitada da viseira dos capacetes e seguir novamente viagem debaixo do calor que não dava qualquer tipo de abébia. Por esta altura começava a ter dúvidas acerca do equipamento que levava porque estava a contar com temperaturas mais baixas do que as que estávamos a apanhar…

Uma vez mais, o ponto seguinte de paragem seriam umas bombas de gasolina nos arredores de Vic, onde nos encontraríamos com o Michel, completando assim o grupo.



Estava assim completa a formação da nossa viagem, contando com os seguintes elementos (ordenados por cilindrada):
- Michel (KTM 1290 Super Adventure)
- Rui (Honda VRF1200F)
- Pedro (BMW S1000XR)
- Marco (BMW F900R)

Enquanto abastecíamos verificámos que a típica incontinência a VFR do Rui já se estava a manifestar…



Demos-lhe o achincalho que se impunha e logo a seguir partimos animados, finalmente em grupo, para as curvas que se seguiriam. Pouco tempo depois já estávamos perdidos num acesso a um caminho agrícola sem jeito nenhum, onde aproveitámos para parar, beber água e ser comidos por nuvens de mosquitos típicos de locais onde só passam tratores ou carros a transportar animais e bosta de vaca.



Eu e o Pedro devíamos acusar algum cheiro a cavalo, talvez do tempo de viagem já longo, porque fomos o alvo de eleição da bicharada, conforme se pode constatar.





Enxotamos à bicharada, recuperámos à orientação e regressámos ao nosso caminho, até ao local da pernoita: um B&B bem em conta, em Figueres, onde aparcámos as motas à porta para não mais lhes pegar nesse dia.



A localização privilegiada deste hotel no meio de uma zona industrial sem jeito nenhum nos arrabaldes da cidade, proporcionou-nos uma alegre caminhada noturna pelo meio de um gueto culturalmente interessante, até chegarmos a um restaurante decente para poder jantar.

O Rui, exibindo as suas inigualáveis skills de navegador, conseguiu transformar o que seria uma caminhada de uns 1 ou 2 kms no dobro, o que nos permitiu a todos chamar-lhe muitos nomes e ficar a conhecer melhor aquela zona onde nos situávamos.

Por fim chegámos ao restaurante. Um local castiço chamado Pollo Pollo, onde adivinhe-se… comemos frango, numa agradável esplanada exterior onde tentámos escapar ao calor com a ajuda de mais umas cañas.



Foi altura do tradicional briefing de início da nossa viagem, com uma visão mais abrangente do que iríamos fazer nos próximos dias, focando já com mais detalhe no trajeto do dia seguinte.



Mais tretas para cá, baboseiras para lá, mentiras sobre “isto, aquilo e aqueloutro” e entretanto já se fazia tarde. Resolvemos regressar ao hotel, desta vez pelo caminho mais curto e com direito a uma paragem para um geladinho na esplanada de um McDonalds (alegrem-se aqueles que já julgavam que iam ouvir uma história de copofonia qualquer). Assim se terminava o dia da congregação do grupo de viajantes e se antecipava com expectativa o que iria começar bem cedo no dia seguinte.

domingo, julho 10, 2022

Regresso às Viagens (Pirinéus, 11/6)

As saudades de abrir asas e a vontade de viajar de mota por terras mais distantes há muito que se vinha a intensificar. As paranóias pandémicas foram limitando a nossa liberdade e para quem preza sentir-se livre, como eu prezo, não poder fazer aquilo que mais gostamos é um preço demasiado alto a pagar. Felizmente este ano houve finalmente oportunidade de recuperar algum do tempo perdido e a viagem que passo a relatar foi um dos pontos altos nesse sentido.

Há cerca de um mês atrás, os feriados de junho deram o mote e com apenas 3 dias de férias conseguiu-se delinear um plano de 9 dias a rolar por estradas lusas, espanholas e até francesas. O objetivo? Percorrer os Pirinéus. A companhia? Partiria de terras lusas com um bom amigo e companheiro de estrada, mas alguns dos camaradas com quem faria o resto da viagem vivem por terras de nuestros hermanos, pelo que a própria ida (e volta) até ao seu encontro, já seria boa parte da aventura.

Este é o relato desse início de viagem não menos mítico que os restantes dias que teríamos pela frente ao percorrer os Pirenéus de uma ponta a outra.

O plano foi delineado cuidadosamente com recurso à sapiência, experiência prévia, informação privilegiada, conhecimento ancestral… facilmente obtenível por qualquer um a partir do Google Maps. A rota traçada era mais ou menos isto, até porque normalmente sai qualquer coisa ao lado.



Eu tive de fazer uma viagem antes do dia da partida, não saindo por isso de Lisboa, pelo que o ponto de encontro com o Pedro seria nas bombas do Couço, pelas 8h.



Eu cheguei primeiro e logo a seguir chegou o Pedro com uma notícia trágica… esta viagem começaria com uma tragédia do pior tipo: um falecimento.



Fizemos o nosso momento de luto… e logo a seguir o Pedro removeu os restos mortais da carcaça de um pardal que ornamentava a lateral direita da sua ventoinha, com um pau.

Abrimos as hostilidades das “selfies” que iriam ser uma constante ao longo da viagem, tomámos um cafezinho e fizemo-nos à estrada com ganas (sem no entanto esquecer que não se devem ultrapassar traços contínuos nas barbas da GNR de Estremoz - um episódio anterior, a não repetir).



A primeira paragem para abastecimento seria em Badajoz como manda a regra. Não comprámos caramelos porque ouvi dizer que o combustível está muito caro, que o dinheiro não chega para tudo e que há que definir prioridades. No meu caso, consegui fazer esta viagem porque não comi um único caramelo enquanto rolámos durante estes 9 dias. Foi duro, mas valeu a pena.



Nesta altura o Pedro começou a armar-se em ave agoirenta, a olhar para o meu pneu da frente com malícia, a escarnecer da condição da borracha e tal… mas eu disse-lhe que ele estava mas era armado em mariquinhas e mandei-o dar uma curva. Ele acabaria por dar várias ao longo desta viagem.

Depois de abastecer e olhar de relance para um saquinho de caramelos que o demónio colocou mesmo ali para me atentar, voltámos à estrada porque a distância a percorrer no primeiro dia ainda nos deixava atentos às horas, mesmo que pouco.

Mais uns quantos kms percorridos e a necessidade de abastecer juntou-se à necessidade de comer. Felizmente encontrámos as duas coisas no mesmo sítio: na povoação de Don Rodrigo, em Cidade Real.



O restaurante “escolhido” (aquele que por mero acaso estava em frente às bombas) foi o El Pilar. Como ainda faltavam uns minutos para as 13h, mandámos vir umas cañas para abrir as hostilidades, ao que nos deixaram abancar de imediato e fazer o nosso pedido.

Entrámos em modo gastronómico espanhol, com direito ao menu com “primer y segundo”, modelo que nos acompanharia na maioria das refeições que faríamos nos dias seguintes.



O Pedro estava tão entusiasmado com a refeição, que depois de muito escolher entre o vasto leque de opções de sobremesa... saiu-lhe na rifa um corneto da Camy. Ainda assim correu-lhe melhor que uns japoneses na mesa ao lado que acabaram por comer uma merda qualquer ao calhas, já que os espanhóis são sobejamente conhecidos pelas suas capacidades linguísticas e se esforçam imenso por se fazer entender.

Mas não estávamos ali (só) para comer, pelo que tínhamos de voltar à estrada. Por esta altura já fazia um calor do caraças e o meu pneu da frente começou a padecer em virtude do mau agoiro do Pedro, esfarelando-se em bocados de borracha no alcatrão a ferver sempre que lhe era dada essa oportunidade… não fora este mau olhado e tudo teria corrido bem nesta viagem, mas um gajo nem sempre pode escolher com quem viajar.



Na paragem seguinte deu para nos distrairmos um pouco, quer com uma jeitosa que dava água fresquinha a um canito, quer com uma família de marroquinos que entrou pelas bombas adentro e levou um pino consigo debaixo do carro como se nada tivesse acontecido.

Quem faz uma viagem de mais de 800 kms de mota num dia, sabe que a maioria das paragens são feitas em estações de abastecimento, sobretudo quando vão acompanhados de alguém como eu, que tem uma mota com um depósito do tamanho de um copo de shot…



Mas nem sempre foi assim. O Pedro lembrou-se que trazia um saco de amendoins a que era preciso dar despacho, pelo que as cañas seguintes tiveram dois acompanhamentos diferentes.





Dado o primeiro desbaste ao saco dos amendoins, estávamos finalmente próximos do local de pernoita: a Hosteria La Barbacana, em Teruel. O local foi fácil de encontrar e aparcar quase à porta não foi tema. Soube-nos bem parar as motas por aquele dia e aproveitar a envolvente.





Tramacastiel, onde ficámos, é uma pequena povoação situada num beco sem saída no meio de um vale. Para entrar e sair dali tem de se percorrer a mesma estrada curvilínea até chegar à via principal. A configuração da povoação é sui generis e existe muito pouco que ver além da hospedaria onde ficámos, das levadas de água que entram e saem de algumas casas e da decoração peculiar que encontrámos ao longo das ruas da povoação.



Bebemos mais umas cañas enquanto a nossa simpática anfitriã tratava do nosso check-in. Relaxámos um bocado da viagem na esplanada mesmo em frente e depois seria tempo de nos alimentarmos com um excelente jantar no mesmo local (mais um “primer y segundo”).



O jantar correu bem, mas quando tentámos passar à parte dos digestivos lá nos deram a provar umas merdas licorosas e uma bagaceira reles, completamente ao lado do que pretendíamos. Os espanhóis não sabem o que é uma aguardente de jeito. Bebemos whisky.

Este dia tinha sido longo e o seguinte não seria muito diferente, pelo que depois de umas voltas a observar aquela terra e as suas peculiaridades, era tempo de descansar.



quarta-feira, março 30, 2022

Continua a Olhar por Mim...

Fez ontem uma semana que me despedi de ti. Quando soube que não estavas bem, senti de imediato um aperto por dentro e a necessidade de te ver o mais depressa possível, naquele momento e nem um segundo mais tarde. Uma mistura de memórias, sentimentos e um mau estar físico invadiram-me e tomaram conta das minhas ações e pensamentos. E no meio desse turbilhão de pensamentos, infelizmente, estavam os meus piores receios que se viriam a confirmar poucos dias depois...

Quando finalmente tive a oportunidade de me aproximar de ti, entristeceu-me ver-te assim e ouvir-te dizer que não querias estar ali, naquele desespero e naquele sofrimento. Não foi uma despedida feliz como nunca poderia ser... foi a despedida possível... mas ainda assim reconforta-me um pouco ter conseguido fazê-la. Vou recordar para sempre esta última vez em que te dei um beijo na testa, te afaguei os cabelos brancos e ondulados e senti o teu cheiro floral enquanto o fiz, o que me trouxe à memória os meus tempos de menino, em que passava contigo aqueles dias de férias a que na altura dava pouca importância mas que tantas saudades me fariam sentir mais tarde.

Poucos dias depois chegaria a notícia mais temida. Apesar de não ser uma surpresa, a mim que sou daquelas pessoas que (por muito racional que tente ser) não me consigo "preparar" para este tipo de coisa, fez-me desabar... Após aquele telefonema, caí sobre mim próprio e chorei... chorei mais... chorei muito. A dada altura deixei-me chorar até secar todas as lágrimas que tinha e que eram poucas para descrever a tristeza que sentia, por já não estares cá.

Inequivocamente foste uma das raras pessoas deste mundo que sempre deu tudo e nunca pediu nada, sempre teve a preocupação de ajudar e não incomodar. Sempre incluíste os outros nas tuas rezas e sempre pautaste a tua vida pelos valores mais altos das tuas crenças pessoais, religiosas e espirituais. E isso faz de ti um daqueles exemplos de vida que poucas pessoas hoje em dia têm a oportunidade de conhecer. Eu não só tive a oportunidade de te conhecer como de te ter como minha avó e por isso (entre outras coisas) sinto-me agradecido.

Sinto-me agradecido pelas memórias que guardo em mim. Das coisas grandes, dos momentos importantes, do orgulho que sentias em qualquer dos passos que dei na minha vida, mas também das coisas pequenas. Do caminho que fazíamos a pé quando me ias buscar à escola... da fruta que misturavas nas refeições que me preparavas e que eu teimava não querer comer... das pequenas brincadeiras que inventavas para mim, como uns simples barquinhos de papel num alguidar de água... mais tarde, da tua preocupação em ter a casa sempre impecável e preparada para aqueles dias de férias que ia passar contigo... do teu cuidado a preparar um bom pequeno almoço... da tua limonada feita a partir de cubos de gelo de sumo de limão... do teu sorriso constante mesmo que estivesses em sofrimento... da forma como vivias os teus pequenos prazeres como o da leitura e da costura... do altruísmo presente em cada gesto teu enquanto cuidavas dos outros.

Agora mesmo, enquanto revivo algumas lembranças tuas, as lágrimas assomam-se aos meus olhos, porque de facto sinto e sentirei para sempre a tua ausência e a tua falta. Ao longo da vida, com a partida daqueles que amo - como tu - fico com o sentimento que se vão fraturando os elos que me ligam ao meu passado, às minhas raízes, às minhas experiências e aos momentos de alegria que enquanto criança tive a felicidade de viver. Só espero poder eu próprio conseguir algum dia criar elos tão ou mais fortes para quem me vier a recordar quando eu partir, porque apesar da tristeza destes momentos, há também um sentimento de felicidade e sobretudo gratidão por tudo o resto.

Podia ainda falar sobre a tua devoção, mas prefiro não o fazer, porque é só tua e demasiado preciosa para alguém ignorante na matéria, como eu, comentar. Só me ocorre dizer que se o paraíso existe e se alguém tem direito ao seu lugar nele, esse alguém és tu. Espero que seja aí que estás agora mesmo, a olhar por todos nós como sempre fizeste. Um beijinho.

domingo, março 20, 2022

Mentalmente...

Sentirmo-nos bem connosco e com os outros.
Sermos capazes de lidar de forma positiva com as adversidades.
Termos confiança e não temermos o futuro.

Mente sã em corpo são.

Segundo a ABEB esta é uma definição de "saúde mental", um termo que nos últimos anos passou a estar na moda, mas que aparentemente ainda ninguém sabe ao certo do que se trata nem dá a devida importância. Mas devia.


Nunca foi tão evidente, no contacto com família, amigos ou colegas de trabalho, a gravidade deste problema, e o pior é que a maioria das pessoas nem se apercebe de que isto é efetivamente um problema, logo pouco ou nada faz para se defender e se proteger. Temos todos uma palavra a dizer naquilo que deixamos entrar na nossa mente, na forma como o interpretamos e no efeito que isso possa ter em nós. É no mínimo redutor viver a vida de forma passiva como meros recetores da informação que alguém decide enfiar-nos pelos olhos e ouvidos adentro.

Existe uma tendência para o exagero, a dramatização, o alarmismo, o pânico generalizado, que resulta do somatório de todos os meios de comunicação, redes sociais e conversas polarizadas que preenchem o nosso dia-a-dia. Aquilo que as pessoas parecem esquecer, é que esta forma de "comunicação" e "informação" a que temos acesso deturpa a realidade e no final coloca-nos a todos num ponto onde, em situação normal, ninguém gostaria de estar.

Devia ser tempo de dizer basta! Cada um de nós individualmente, devia ser capaz de filosofar um bocadinho. Desligar-se por uns minutos do dia do resto do mundo e simplesmente falar com os seus botões. Pensar, raciocinar e (expectavelmente) chegar a conclusões lógicas sobre esse raciocínio que lhe permitam lidar melhor com o passado, presente e sobretudo, o futuro.

Os eventos recentes deviam ser suficientes para perceber que mesmo uma pandemia como a COVID-19 não foi suficiente para acabar com o mundo, e que apesar de todas as situações trágicas que ocorreram e que tocaram quase toda a gente de forma direta ou indireta, de facto a maioria de nós ainda por cá está para contar a história. Qual é então o motivo para o declínio na saúde mental das pessoas resultante do acontecimento da COVID-19 adquirir agora uma dimensão maior e mais problemática do que o acontecimento em si?

Eventos ainda mais recentes serão uma oportunidade que teremos para combater este declínio ou acentuá-lo ainda mais. Parece-me que estamos a seguir pelo segundo caminho, mas gostaria de assistir a uma inversão e ver a opção pelo primeiro.

Há mais de 10 anos atrás participei num evento durante cerca de 3 dias, do qual retive algumas aprendizagens que até hoje vou relembrando pontualmente e tento não esquecer. Uma delas, é perceber que há coisas que posso influenciar através da minha ação direta e que, em oposição, há outras que não. A segunda parte deste raciocínio, é uma constatação óbvia: se há coisas para lá do meu controlo, de que serve preocupar-me e martirizar-me por elas? Não será um exercício muito mais produtivo focar a minha energia e atenção nas coisas que posso efetivamente mudar? Será que, para além do efeito negativo que tem em mim a preocupação sobre um problema que será sempre impossível de conseguir resolver e consequentemente tem o potencial de me atormentar e frustrar para sempre, esse foco não está a desviar a minha atenção de tudo o resto? Do meu trabalho, da minha família, dos meus amigos, da minha saúde?

Exemplo prático: devo viver aterrorizado, angustiado e deprimido com os perigos e os efeitos de uma guerra além-fronteiras que, por muito dramática e trágica que seja, ainda não colocou a minha vida e a daqueles que me são próximos em risco, e sobre a qual pouco mais posso fazer do que ajudar aqueles que mais vão precisar? Mesmo que nos venha a afetar diretamente no futuro, deve ser uma preocupação a ter já nos dias de hoje? Não advogo a indiferença, mas sim a consciência de que aquilo que podemos influenciar neste contexto tem limites e que existem acontecimentos e momentos certos para deixarmos a nossa preocupação manifestar-se.

Porque é que temos então esta tendência para nos focarmos no drama, na tragédia e no impossível, em vez de darmos atenção a tudo de bom que nos rodeia e que pede igualmente a nossa atenção? Ou temos dúvida que podemos ter um sentimento de realização por dedicarmos mais tempo a fazer o que temos para fazer? Ou a dar atenção aos nossos pais e aos nossos filhos? Ou a estar mais tempo com os nossos amigos? Ou a praticar desporto e comer de forma saudável? O que causa este desequilíbrio?

A minha resposta é que não sabemos dizer "não". Estamos demasiado habituados a que nos digam o que temos que fazer, aquilo que devemos pensar. Não questionamos as coisas de uma forma efetiva, simplesmente assumimos uma posição sobre um determinado tema, muitas vezes mal fundamentada e tendo por base informação deficiente, e defendemos essa posição como se a nossa vida dependesse disso. Não abrimos mão de ter uma opinião vincada sobre tudo em detrimento de querer saber mais e assumir que poderíamos estar errados sobre algo. E todos nós sabemos que uma opinião é tão mais vincada quanto o dramatismo e a veemência que incutirmos no nosso discurso.

É tempo de baixarmos o nosso próprio volume. É tempo de desligar a televisão ou pelo menos mudar de canal. É tempo de escolher ver um filme alegre em vez de notícias trágicas requentadas. É tempo de ouvir música em vez de gritos e lamentos. É tempo de ir para a rua respirar ar puro em vez de nos encerrarmos em casa em isolamento. É tempo de conversar com alguém em vez de falar para alguém. É tempo de sairmos do lugar do passageiro, sentar no lugar do condutor e dirigirmos a nossa vida na direção certa.

 

A quem possa interessar, deixo aqui um link para o Kit Básico de Saúde Mental, disponível no site www.manifestamente.org


domingo, novembro 28, 2021

Semana de Bricolage Motard

E na última semana e meia, foi mais ou menos assim...

A sair do trabalho... "olha, o pneu de trás em baixo!"... depois de me desenrascar à conta de um compressor portátil emprestado e encher o pneu duas vezes no caminho para casa (falha minha não levava nem o meu compressor nem o kit de reparação de furos comigo naquele dia), depois de jantar dediquei-me à reparação do furo (no singular, julgava eu).

"Olha, está aqui mais um... e vão 2!"

"E aqui mais um... e vão 3!"

Contagem final, 3 furos diferentes no mesmo pneu, cortesia de um total de 5 pregos (3 deles espetados no mesmo sítio). Devo ter passado por cima de uma caixa de pregos de pistola e não dei por isso, a caminho do trabalho.

Mais tarde, nessa mesma semana... de manhã chego à mota e noto algo estranho... aparentemente no regresso a casa do dia anterior, fiquei mais leve pelo caminho. Esta matrícula já tinha voado uma vez na zona de Oleiros, mas na altura foi recuperável... desta feita, ficou em parte incerta.

 

Resultado, 12 euritos numa matrícula nova e mais bricolage agarrado à mota. Bem feitas as contas não me saíram muito caras estas surpresas, deu para me entreter um pouco agarrado à mota, e em ocasião alguma fiquei apeado (cortesia de ter uma segunda mota em que pegar quando a primeira não estava em condições). Tudo está bem quando acaba bem. Lucky man!

sábado, novembro 13, 2021

Força de Vontade

Desde o regresso ao trabalho presencial (... a 100%...), dei por mim com menos tempo útil por dia e a sentir falta dele. Em parte, um dos motivos pelos quais também não tenho tido tempo para escrever por aqui. Mas para além disso, tornou mais desafiante a tarefa de me levantar todos os dias (ainda mais) cedo para a minha atividade física matinal... A chegada do inverno, o nascer do sol tardio e a descida de temperatura, são alguns dos obstáculos mais recentes que tenho de ultrapassar diariamente quando dou as primeiras pedaladas. Com a mudança de hora, a coisa amenizou um pouco... agora pelo menos já chego a casa com (alguma) claridade em vez de noite cerrada. Entre as 6h e as 7h o sol ainda não nasceu mas em breve conto voltar a vê-lo. Tive de comprar iluminação para ver melhor o caminho, já que nos trilhos por onde passa pouco ou nenhum ruído luminoso chega para ter visibilidade suficiente para circular em segurança. Posto isto tudo, com alguma força de vontade tenho prevalecido neste meu compromisso comigo próprio e quando chego a casa depois da voltinha dada, nunca me arrependo nem dou por desperdiçado o tempo e esforço de abdicar de 1 hora de sono no quentinho do vale de lençóis...