domingo, julho 19, 2020

Passeio Geométrico - Dia 3/4

O terceiro dia do passeio geométrico era o mais desafiante em termos de distância a percorrer. O plano geral era ir de Penamacor até Vila Real de Santo António, percorrendo uma distância ligeiramente superior a 450 kms. Sabíamos no entanto que parte significativa deste percurso, sobretudo a partir da zona do Marvão, seria relativamente desinteressante, até porque a entrada no Algarve não seria feita pelo Caldeirão. Adicionalmente, seria o dia em que o João regressaria a casa, não ficando connosco para o regresso no dia seguinte.

Posto isto, e depois de um bom pequeno almoço (ainda) em família, albardaram-se as burras e preparámo-nos para seguir viagem. Faríamos apenas uma paragem para abastecer e tomar café ainda antes de chegar a Castelo Branco, durante a qual nos apercebemos que o dia seria "agreste" relativamente à temperatura que logo de manhã se fazia sentir...

A primeira tirada da manhã foi um misto de troços menos interessantes com algumas curvas divertidas, sobretudo na N18 já depois de Castelo Branco. Fez-se de forma rápida, e lá fomos andando até à primeira paragem da manhã, no Marvão.

No Marvão, e com um olho a espreitar Espanha já ali, foi tempo de hidratação. Talvez pela proximidade do país de nuestros hermanos, era visível a quantidade de Espanhóis com que nos cruzávamos em todo o lado. Claramente não era o COVID que os ía impedir de fazer turismo em terras lusas...

Ainda era cedo para almoçar, e os princípios nutritivo-religiosos do João "empurravam-nos" para um almoço que se antecipava tardio, por isso resolvemos fazer mais uma tirada maior antes de parar para almoçar. Cortesia da COVID, e sabendo nós da existência de uma espécie de cerca sanitária em Monsaraz, onde o nosso plano inicial nos levava, resolvemos adaptar-nos e fazer um desvio alargando o percurso até Évora. A partir daí logo se via o que faríamos. Antes disso, e só naquela de respirar por uns instantes, parámos numa escassa sombra nos arredores do Crato, só para recuperar.

Finalmente chegámos a Évora. Naveguei-nos a todos diretamente para um local que já conhecia junto à Capela dos Ossos, onde antecipei poderíamos comer decentemente e sem nos embrenharmos em grandes confusões no centro da cidade. Dado o calor que se fazia sentir, levava em mente algo leve como uma salada e beber qualquer coisa fresca, mas o escanzelado do Pedro começou a lançar um olhar guloso para uma sopa de cação na mesa ao lado, e acabei por me sentir na obrigação de lhe fazer companhia... a saladinha ficou para o gordo do João.

Depois de um belo repasto no restaurante O Cruz, seria tempo de nos despedirmos do João, que faria o regresso a casa a partir dali, enquanto eu e o Pedro seguiriamos em direção a sul. Despedidas feitas, e saímos de Évora em direção a Moura, com o objetivo de uma paragem intermédia junto ao Alqueva.

Assim fizemos. Ficámos surpreendidos porque contávamos com uma temperatura mais amena nos arredores da barragem, mas não foi o caso. O calor claramente não iria dar qualquer espécie de tréguas naquele dia, e o melhor era habituarmo-nos a essa ideia.

Tornava-se novamente imperativo parar novamente para hidratar, pelo que fizemos a paragem seguinte em Moura, onde simplesmente parecia termos aterrado numa terra deserta, onde não se avistava vivalma. Valeu-nos um tasco aberto, enfiado num recanto da zona histórica, onde uma senhora com cara de poucos amigos nos vendeu umas minis, que bebemos sentados à sombra de uma árvore ali mesmo ao pé das muralhas do castelo

Uma vez hidratados, seguimos novamente viagem. O plano agora era fazer a próxima paragem próximo das minas de S. Domingos, onde existe a praia fluvial da Tapada Grande. Certamente saberia bem fazer a hidratação seguinte com direito a vista.

A praia fluvial efetivamente estava convidativa, mas a quantidade de pessoas junto ao bar de apoio fazia-nos pensar logo num viveiro de COVID, pelo que decidimos hidratar noutro lado qualquer menos populado. E eu já conhecia um quiosquezinho junto à estrada que serviu perfeitamente para o efeito.

O destino estava próximo, e a ideia era ainda antes de passarmos por Mértola, fazer o último abastecimento do dia e só parar só no destino final. Fizemos tudo isso, menos a parte de abastecer, que nos esquecemos. Já relativamente próximo de Vila Real o Pedro começou a temer pelo pior, quando a Tracer deixou de assinalar autonomia após umas dezenas de quilómetros já na reserva... Abrandámos o ritmo e começamos as rezas para não "morrermos na praia". E assim foi, devagarinho lá chegámos ao fresco da ria, para logo depois entrar em Vila Real e encostar nas primeiras bombas que apareceram. Tínhamos feito pouco mais de 300 kms com um depósito.

Encontrada com facilidade a residência Matos Pereira, um alojamento sem jeito nenhum e que não recomendo a ninguém, mas que foi o possível de arranjar dentro dos timings apertados em que planeei esta viagem... tomada a banhoca e recuperadas as energias, lá fomos à procura de um lugar para jantar.

Armados em finos, escolhemos um spot à maneira na marginal com vista para o rio, escolhemos um peixinho da bancada mandámos vir o branco à pressão. O Pedro estava armado em maricas com medo que as melgas atacassem, coisa que lhe afiancei com toda a confiança não iria acontecer, porque de paragens anteriores por ali nunca tal tinha sucedido. 5 minutos depois estavamos literamente a ser devorados por bicharada que apareceu vinda sabe-se lá de onde. 

A bicharada eventualmente lá desapareceu, e com umas camadas de repelente e de uma banha da cobra vinda da Tailândia, que o Pedro iria deixar esquecida no restaurante, conseguimos apreciar um belo jantar. Antes de regressarmos ao alojamento, o Pedro armou-se em macho e parámos num spot junto ao largo da câmara municipal, para comer um "picolé". Só para que fique registado, eu bebi um mojito.

Era tempo de ir descansar. Demos as boas noites às burras que ficaram à porta do nosso estaminé, e entrámos, não sem antes lavar as mãos com uma mistela que devia ser alcóol-gel, mas pelo cheiro seria mais bagaço-gel. Afinal, queríamos manter aquele estabelecimento de nível livre de COVID!

 No dia seguinte, haveria mais.

sábado, julho 18, 2020

Passeio Geométrico - Dia 2/4

O segundo dia, aquele que mais prometia, começava. O trajeto definido era o que mais (e melhores) curvas apresentava, e a paisagem era também a mais interessante.


Como o nosso alojamento não incluía pequeno almoço, rapidamente nos preparámos e fomos até à garagem desfazer o "tetris" de motas que tínhamos montado na noite anterior, para regressar à estrada.


Pouco depois de arrancar procurámos um estábulo que permitisse dar de beber a burras e comer a burros em simultâneo. Logo após passar a ponte D. Luís e percorrendo poucos metros pela marginal, encontrámos o lugar certo.


Houve quem desse uma de macho e mostrasse como é que se começa o dia à moda do Porto: com um belo copinho de leite magro...


Baterias recarregadas, rapidamente percorremos os quilómetros que se seguiam na N108, com o objetivo de chegar à N222, a célebre estrada que permite percorrer o Douro de uma ponta à outra do país.


A N108 estava um bocadinho carregada de ciclistas e o traçado não favorece situações livres de risco, pelo que apesar da beleza da envolvente, eu pessoalmente tinha mais expectativas relativamente à N222 (que já conhecia de passeios anteriores).


Percorrida a primeira tirada de quilómetros na N222, passando primeiro sobre o rio Paiva, chegámos a Pias, onde parámos num parque junto a um açude com muito bom aspeto, junto ao rio Bestança.


O calor já se fazia sentir, e bem, mas ali em particular estava uma ventania tal que até levantou um chapéu de sol pelos ares!


E apesar de andarmos a passear, como motards bonitos, asseados e bonzinhos que somos, cumprimos sempre com as regras impostas pela ditadura da COVID-19!


Desta vez houve quem abdicasse dos copos de leite, e optasse por algo à base de cereais, nomeadamente cevada, no que diz respeito à hidratação. Não deixa de ser uma opção saudável. Repostos os níveis de hidratação, lá fomos nós outra vez.

A paisagem e a vista do douro enquanto percorremos a N222 é sempre sublime. Sem dúvida uma das melhores estradas para fazer mototurismo do país. Fácil perceber porquê.


O destino do final da manhã era o Pinhão, onde pretendíamos almoçar. O calor já era abrasador e nem a proximidade do rio, aliviava a coisa. Tivemos de reposicionar as burras na tentativa de lhes arranjar alguma sombra, o que deu origem a mais um momento Tom Cruise da viagem...


Estacionadas as burras na sombra possível, sentámo-nos numa esplanada que mais parecia uma estufa, tal era o calor que se fazia sentir. A sede era tanta que achámos por bem ser "higiénicos" na escolha do que iríamos comer e beber, caso contrário ficaríamos ali a hibernar o resto da tarde. Uma saladinha e coca-cola zero para todos! Não é algo de que me orgulhe muito, mas aqui fica o registo fotográfico desta situação pouco comum e inusitada...


Como nos sentíamos melhor em andamento do que parados, terminada a refeição fizemo-nos de novo à estrada. Apesar de no nosso roadbook a ideia ser começar já a descer em direção a sul, a N222 estava a saber-nos bem, e numa inversão o Pedro convenceu-me facilmente a percorrer mais uns quilómetros seguindo a placa em direção a S. João da Pesqueira.


As encostas do Douro são realmente uma paisagem que me impressiona sempre, e é sempre com prazer que as percorro de mota. Sem diminuir o mérito da paisagem, os quilómetros seguintes também foram recheados de curvas das boas, e o dia continuava a saber-nos a todos muito bem.

Como volta que é volta não se faz sem nos enganarmos pelo menos uma vez no caminho, eu na qualidade de navegador fiz-nos desviar uma dúzia de quilómetros da rota. Quando começámos a percorrer retas que mais pareciam tiradas da paisagem alentejana, percebi que estávamos mal e demos meia volta para voltar ao nosso caminho.


Mais uma barrigada de quilómetros e pouco antes de chegarmos ao parque natural da Serra da Estrela, parámos num tasco à beira da estrada para mais um momento de hidratação.



Nesta altura eu e o João aproveitámos para continuar a achincalhar a ave agoirenta do Pedro, que tinha passado o dia inteiro a dizer que éramos capazes de apanhar mau tempo, e até então a única coisa que tínhamos apanhado era sol e um calor abrasador. O achincalho passou por sacar de material impermeável...


Como não nos ocorriam mais formas de gozar com o Pedro, lá nos fizemos novamente à estrada, porque estávamos com vontade de percorrer a N18 que contorna parte do parque natural da Serra da Estrela pelo lado Este. Esse troço sem dúvida que viria a corresponder às nossas expectativas.

A paragem seguinte seria já em Belmonte, a poucos quilómetros do nosso destino final daquele dia. Mais uma paragem para hidratação, depois de outra bela barrigada de curvas.



Estava eu a degustar a minha cerveja artesanal à base de cereja, da região, eis senão quando... nuvens... pingos de chuva... trovoada... sacana de ave agoirenta... quem se ri agora?


Escusado será dizer que, apesar de tentarmos sair dali à pressa, apanhámos um temporal de chuva e vento que nunca imaginaríamos ser possível tendo em conta o dia que tínhamos passado, e tudo com o nosso equipamento de verão, em nada impermeável. Até troncos que caíram para a estrada tivemos de andar a desviar!


Quando achámos que a coisa estava a ficar mais perigosa do que devia, procurámos abrigo numas bombas, estacionámos as burras no telheiro da lavagem automática e fomos até ao café beber uns copos enquanto o pior do temporal não passava.


O temporal nunca chegou a passar, mas abrandou o suficiente para ganharmos coragem para os 40 quilómetros que faltavam. Lá vestimos o equipamento encharcado para o encharcar um pouco mais, e fomos seguindo viagem penosamente até ao destino final. Ao chegar a Penamacor já conseguia vislumbrar aquele oásis que a casa dos meus sogros iria proporcionar a estes três gatos pingados (literalmente). E assim foi, a melhor forma de terminar o dia, com direito a um banhinho quente e um jantar em família.

No dia seguinte haveria mais.

sexta-feira, julho 17, 2020

Passeio Geométrico - Dia 1/4

Habitualmente e de há uns anos para cá, reservo sempre uns dias para fazer uma viagem "internacional" de mota, em que rodo muitas vezes mais quilómetros pelo país de nuestors hermanos do que em terras lusas. Este ano, cortesia da COVID-19, esses dias foram passados de forma mais caseira como férias tradicionais em família. O espírito é que não se sossegou com a falta de quilómetros percorridos em duas rodas, e acabei por ir buscar um projeto à gaveta que foi logo assinado em baixo por dois amigos que padeciam da mesma ressaca de andar de mota que eu.

Intitulei esta rota de "passeio geométrico", porque a ideia era percorrer o país num formato mais ou menos retangular. Ainda assim, quando se começaram a afinar os pormenores, o desenho retangular foi-se esbatendo e acabámos por selecionar partes da rota que considerávamos mais interessantes e outras que evitavam que o caminho percorrido fosse tão cansativo ou aborrecido. Ainda assim ficámos com uns 1600 kms para percorrer em 4 dias (sem recurso a autoestradas).

Juntaram-se assim três estarolas com as suas respetivas burras: a minha fiel BMW F800R (a melhor), uma Yamaha Tracer 900 e uma Aprillia Shiver 900, todas elas prontas (mais do que nós) a apanhar uma caloraça nos dias que se iriam seguir (quase sempre...). O primeiro dia seria feito junto à costa da zona centro e norte, com destino a Vila Nova de Gaia, o primeiro local de pernoita.


O ponto de encontro definido foi o mercado municipal de Torres Vedras, onde se comem umas bifanas saborodas, mas bem salgadas, a puxar a imperial que as acompanha: a base de qualquer pequeno almoço nutritivo. Já eu tinha deglutido a minha quando apareceu o Pedro que logo a mim se juntou.


Havia quilómetros a percorrer e vontade de rolar, pelo que não nos detivemos muito por ali e seguimos para o percurso de aquecimento que nunca desaponta: as curvas até ao Bombarral. Os pneus começavam a agradecer e ansiávamos pelo afastamente daquela parte da zona oeste na esperança de ver sol. Chegados ao Bombarral fizemos uma paragem rápida para abastecer e seguimos em direção a São Martinho do Porto, onde faríamos nova paragem.


Em São Martinho do Porto, o tempo continuava tinhoso e o sol meio escondido. Não que isso impedisse a malta de estar ali na praia. Parámos a espreitar o mar por um bocado enquanto comíamos mais qualquer coisa numa esplanada. A parte seguinte da viagem seria feita pela estrada atlântica, que apesar do traçado menos interessante proporciona sempre uma paisagem envolvente muito porreira.

Passámos ao lado de Leiria, pela zona florestal que revela ainda as cicatrizes dos últimos incêndios e seguimos em frente até à paragem seguinte, na famosa praia do Cabedelo. Neste último troço finalmente o sol deu um ar da sua graça, com a promessa de calor. Parámos, vimos novamente o mar e procurámos um spot porreiro para almoçar.



Ali começámos a picar o nosso terceiro companheiro que só se juntaria a nós ao final do dia, em Vila Nova de Gaia. Roído que estava por ainda estar a trabalhar aquela hora, era fácil espicaçá-lo. O almoço foi leve, à base de umas tostas e baguetes. Fome saciada, lá seguimos outra vez.



Mais uns quilómetros de estrada percorridos junto ao mar, e o próximo destino seria a última praia visitada do dia: praia da Vagueira. O calor aqui já se fazia sentir e bem, apesar de o vento e o mar batido daquela praia ajudarem a refrescar um pouco. Mais hidratação, e confirmámos que o nosso terceiro elemento do grupo já estava de saída para uma viagem em modo pápa-léguas até Vila Nova de Gaia por AE, onde nos encontraríamos.

O último troço da nossa viagem foi do mais aborrecido que possa haver. Estrada nacional com semáforos, trânsito de semana e pesados aos pontapés. Lá fomos percorrendo estes últimos quilómetros de forma penosa, até finalmente entrarmos em Gaia. Dirigi-me à Av. da República e parei para procurar no mapa o nosso hotel. Olho para o meu lado direito e estava em frente a ele. Pontaria. Fizemos checkin.



Feito o checkin e enquanto esperávamos pelo João, era tempo de mandar finalmente umas canecas abaixo. Procurámos um spot porreiro com vista para o rio e para as motas (fator sempre importante a ter em consideração) e vieram as primeiras canecas e os primeiros tremoços. Passado um pouco o João tentava desesperadamente juntar-se a nós, mas as sinuosas ruelas de sentido único e/ou proibído da zona ribeirinha de Gaia não ajudavam, assim como o GPS. Fui à procura dele e lá o avistei ao longe. Disse-lhe adeus e juntou-se a nós para mais umas canecas antes de jantar.


O restaurante escolhido não era longe, mas como queríamos ter as nossas meninas debaixo de olho, fizemos o nosso momento Tom Cruise e desviámos as burras uns metros para o lado. Ficaram quase a fazer-nos companhia na esplanada onde jantámos. Ninguém comeu o que queria (eu e o Pedro tinhamos na mente francesinha, o João tinha na mente filetes). Mas os bifes de frango e o salmão que afinal veio dourada, não estavam maus. As garrafas de Muralhas ajudaram a compensar, e o jantar durou até pouco depois das 23h.

Fez-se o regresso ao hotel, parquearam-se as burras na garagem e os burros no quarto. O primeiro dia tinha sido bom, mas o dia seguinte, prometia.

domingo, junho 28, 2020

A Culpa é Minha, Coloco em Quem Quiser

Se cada um tem aquilo que merece, creio que os portugueses em geral nada fizeram para merecer tamanho desaire e infelicidade como aqueles com fomos brindados relativamente a quem nos (des)governa. Segundo um artigo da Visão, terá decorrido recentemente uma reunião no Infarmed que contou com a presença do Presidente, do Primeiro Ministro e da Ministra da Saúde, entre outros, para fazer um ponto de situação sobre a evolução da COVID-19, sobretudo no que diz respeito ao crescimento do número de infetados na região de Lisboa e Vale do Tejo. O que aconteceu terá deixado quem estava presente perplexo e só tenho pena que não exista filme desta reunião. Basicamente, permitiria assistir a um primeiro ministro descontrolado, cuja principal preocupação é a de dizer que "se algo falhar, a culpa não será sua", e que não percebe que não pode de forma alguma desrespeitar da forma que o fez, um presidente da república... a par de um presidente da república frouxo, que não percebe que não pode deixar passar incólume uma atitude destas pela parte de um primeiro ministro. Obviamente nada irá acontecer, e vamos continuar alegremente a testemunhar o "milagre português" a tornar-se cada vez mais "milagroso"...

sábado, junho 27, 2020

Sair para Esticar as Rodas

O confinamento faz-me mal. Habituado que estava a rolar um mínimo de 50 kms por dia, desde que a cegada começou deixei de andar diariamente de mota e os poucos passeios que fiz (alguns meio que a medo) contam-se pelos dedos de uma mão. Só serviu para me aperceber a falta que me faz. Não sei explicar porquê, mas simplesmente pegar na mota e percorrer quilómetros faz-me sentir bem. Sei que parece algo irracional, até talvez infantil, mas é o que é. Por isso mesmo hoje ainda estou a saborear a voltinha que, de improviso, dei ontem. Saí de casa de manhã e encontrei-me com um par de amigos que padecem da mesma dependência que eu. Sabíamos que a voltinha não seria muito extensa, por isso deu para parar com mais frequência do que é habitual, ir petiscando pelo caminho e sobretudo por a conversa em dia. Saída de Loures, bifana extra salgada em Torres Vedras com imperial a acompanhar, as tradicionais curvas do Bombarral, paragem para uma tosta XL na Serra de Montejunto, uma ginja bem aviada na Serra do Socorro, o regresso pelo Gradil, Mafra e por fim a chegada a casa. Nem um depósito gastei, mas ainda assim soube bem, soube muito bem. Como eu costumo dizer, era capaz de me habituar a fazer isto todos os dias.

domingo, junho 21, 2020

Somos Aquilo Que Pensamos

Li há já alguns anos a edição em inglês de um livro intitulado "As a Man Thinket", de James Allen. Mais tarde viria a encontrar a edição em português, com o título traduzido de "Tu És Aquilo Que Pensas". Curiosamente é um dos 2 livros que tenho neste momento na minha cabeceira, e que julgo poderei ler mais um par de vezes. Não por ser um livrinho pequeno (que é)... não por ser de fácil leitura (que é)... mas sim pelo conceito fundamental que expressa, de que o nosso pensamento e as nossas ideias, que povoam a nossa mente, condicionarem de forma determinante aquilo que somos. Não podemos decidir simplesmente de um dia para o outro que nos queremos sentir sempre felizes, que nos queremos sentir sempre corajosos, que nos queremos sentir sempre aventureiros, que queremos ser o melhor profissional, o melhor pai, o melhor marido, ser isto ou aquilo. Mas o cérebro, tal como um músculo, é "exercitável". E pode ser exercitado se tivermos uma palavra a dizer sobre os pensamentos que nos ocorrem ou no raciocínio que a partir daí desenvolvemos sobre eles. E com o passar do tempo, fazendo este exercício, ganhamos a capacidade de sermos mais permeáveis e mais recetivos a pensamentos que contribuem para a nossa felicidade, a nossa satisfação, realização, o nosso sucesso, e menos permeáveis a pensamentos que nos levem no sentido inverso.

A nossa saúde mental pode ser impactada por questões que estão para lá do nosso controlo (ex.: doença física ou desequilíbrios do nosso corpo) mas por outro lado depende de nós em larga medida (as circunstâncias que nos rodeiam e aquilo que retiramos delas, com que alimentamos a nossa mente). Imaginando que os nossos pensamentos são a alimentação da nossa mente, podemos estabelecer o paralelismo com comida saudável e "fast food". Se alimentarmos a nossa mente com um belo peixe grelhado e legumes salteados (leia-se bons pensamentos) a nossa mente cresce e mantém-se saudável. Se todos os dias lhe dermos um Big Mac, a mente vai ficar desequilibrada e vai ganhar a vontade de comer mais e mais "porcaria". Curiosamente, este exercício de alimentar de forma saudável a nossa mente, é frequentemente desconsiderado e muito pouco discutido nos dias que correm. Quem tem problemas resultantes desta falta de saúde mental é frequentemente tratado com químicos, sem que haja um trabalho alternativo de pelo menos tentar impor uma "dieta" da mente, que poderia trazer efeitos muito mais saudáveis e duradouros...

Apesar de não conhecer mais do que qualquer outra pessoa que o tenha visto na televisão, foi com tristeza que assisti ontem às notícias sobre Pedro Lima, conhecido ator, novo, saudável, com uma bonita família em seu redor, partir de forma tão inglória e injusta... Foi com tristeza que assisti a alguém que (apenas aparentemente) tinha tudo para ser feliz, e afinal era de tal forma infeliz que desistiu de tudo. Foi com consternação que confirmei aquilo que já sabia: que a nossa mente é o nosso bem mais importante, aquele que devemos defender e proteger com unhas e dentes de tudo e de todos. Nos dias que correm, há muita gente preocupada com a aparência física e com o seu próprio corpo (o que não é mau), mas tão pouca gente preocupada na mesma medida com o bem estar mental e emocional, não percebendo que no limite, quando o corpo deixar de ser o que é, a mente ainda estará cá para ter de lidar com ele (e nós próprios com ela).

Espero honestamente conseguir manter a minha saúde mental até ao final da minha vida. Será ela que, se ou quando tudo o resto falhar (até a saúde física), me poderá "salvar". Espero poder moldar a minha mente ao longo dos anos, de forma a que nela não se instale o ócio, a raiva, a angústia, o rancor, a tristeza, o pessimismo, o desespero e tudo o mais que a pode contaminar tal qual um cancro pode contaminar o nosso corpo. Vejo com frequência pessoas em meu redor a quem isso já aconteceu, está a acontecer ou vai acontecer no futuro - espero não ser uma delas. Há que cuidar de nós, agora, já, para garantir que não desistimos de tudo e todos.

Descansa em paz, Pedro Lima.

segunda-feira, junho 15, 2020

Ditatura do Politicamente Correto

Não sou racista.

Posto isto, ocorrem-me várias constatações sobre os recentes eventos despoletados pela estúpida, injustificável e incompreensível perda de uma vida no decorrer de uma intervenção policial:

Estranho mundo este em que oportunistas se aproveitam de um caso de violência policial para incendiar o mundo com violentos protestos anti-racismo, para proveito da sua própria agenda política ou social ou qualquer outra que seja. Qual a explicação para as imagens de um mayor ajoelhado a chorar compulsivamente junto ao caixão de uma pessoa que não conhece? Qual o critério inequívoco que nos faz distinguir entre racismo e violência/brutalidade policial?



Estranho mundo este em que se destroem monumentos alusivos a figuras históricas, todas elas com a devida importância que tiveram. A história deve ser preservada, e nunca, mas nunca deverá ser apagada, quanto mais não seja para que nos lembremos de erros cometidos no passado, e evitemos cometê-los no futuro.



Estranho mundo este em que a ignorância permite a descontextualização dos acontecimentos e personalidades do passado, para promover o ódio, a violência e o vandalismo. Aguardo com expectativa e temor o dia em que ouvirei a notícia da decapitação da estátua de D. Afonso Henriques, pelas suas convicções anti-muçulmanas.

Estranho mundo este em que se instiga a inação das forças policiais sob a ameaça constante da acusação de racismo ou de outro preconceito qualquer. No dia em que precisarmos deles, e eles não agirem por receio de uma qualquer acusação, talvez valorizemos de forma diferente o trabalho da polícia (e não, não estou a justificar a brutalidade cometida sobre George Floyd por aquele agente da autoridade, simplesmente me recuso a generalizar).



Estranho mundo este em que choramos a morte de uma pessoa num país distante, sem olhar às vítimas que sucumbem diariamente ao nosso lado, por motivos ainda piores. Com o devido respeito pela vida humana, George Floyd era um toxicodependente detido por usar dinheiro falso e Rayshard Brooks apontou um taser a um polícia enquanto fugia. Independentemente das circunstâncias, fugir parece cada vez mais ser o comportamento "standard" quando um agente da autoridade interpela alguém, nos dias que correm.


Estranho mundo este, o da ditadura e censura a bem do politicamente correto.