quarta-feira, maio 29, 2019

Astúrias e Picos da Europa - Dia #4

O quarto dia da viagem foi aquele que antecipou o dia do nosso regresso a casa. Começávamos a ter aquela suave perceção de que os dias estavam a passar mais rápido do que aquilo que gostaríamos, e a vontade de aproveitar tudo ao máximo, era muita. Talvez por isso mesmo, e uma vez mais, a malta foi cumpridora e bem cedinho já estávamos todos reunidos no "comedor" do Ibis para o pequeno almoço. No briefing da noite anterior tínhamos acordado que se faria cumprir mais uma tradição nesse momento, que era a de delinear as linhas gerais do que será a viagem de 2020.





Ao pequeno almoço cruzámo-nos com outros dois "tugas" viajantes de mota, que a bordo das suas GS, estavam a fazer o percurso da Ruta de La Plata. Em primeira instância fiquei interessado e até impressionado, mas quando ouvi a descrição do tipo sobre viagem, a forma como estavam a percorrer kms e o tempo que perdiam a "picar" o ponto no passaporte da Ruta... pensei para comigo próprio: "Não obrigado, mil vezes o formato descontraído e despreocupado da nossa forma de viajar"!

Terminámos o pequeno almoço, despedimo-nos dos nossos conterrâneos e reunimo-nos à volta do mapa que o Carlos abriu sobre a mesa. Trocámos impressões sobre datas, sobre zonas já visitadas/por visitar, sobre a dimensão de cada "tirada", o cariz mais/menos moto/turístico da viagem... No final, ficámos com apontamentos suficientes para aquilo que será a viagem do próximo ano.



Trabalho de casa feito, era então tempo de seguir. Até porque ainda tínhamos o "Tetris" de motas que tínhamos montado na garagem, por desfazer... :D



O primeiro ponto de interesse do dia era o Parque Natural de Las Ubiñas-la Mesa, pelo que saímos de Oviedo seguindo a estrada em direção a Soto, onde atravessaríamos a ponte para depois apanhar a estrada que acompanha o leito do Rio Trubia, até à referida zona protegida. Quando parámos para beber o cafezinho do meio da manhã, já tínhamos percorrido algumas estradas de curvas rápidas, ainda que intercaladas com bastantes povoações. A partir daí a coisa tornar-se-ia muito mais interessante.





Cafezinho tomado e com as burras a serem admiradas onde quer que parássemos, lá nos montámos nelas outra vez para nos fazermos ao caminho. A estrada que se seguiu foi simplesmente magnífica, em envolvente e traçado. A determinada altura o Pedro achou que era tempo de eu também ter um bocadinho de roda e passou-me (pelo menos é assim que eu gosto de pensar, e não que ele estava farto de levar uma "avozinha" à frente), o que me soube mesmo muito bem! Foi mais um troço em que, chegados ao ponto mais alto no Parque Natural, a mota do Pedro verteu outra lágrima tal foi a comoção...







Aqui tirámos uns momentos para reagrupar, apreciar as vistas e tirar umas fotos, incluindo novo momento de "equilíbrio dinâmico". Houve quem pisasse neve... Eu pisei um par de bostas de vaca enquanto andava armado em fotógrafo da National Geographic. Mas as fotografias até ficaram fixes!



Seguimos de novo, mas a paisagem era de tal forma magnífica que pouco tempo depois parei só para bater mais umas chapas, incluindo do grupo, que me dava sempre prazer observar!





A estrada que se seguiu foi feita de curvas mais rápidas e abertas. O sol brilhava, o calor apertava e dava gozo rolar. Deixámos a zona do parque natural e seguimos pela estrada em direção a Ponferrada. Nova paragem para abastecimento, e em Villaseca de Laciana parámos para almoçar no restaurante La Campanona.





Ao princípio parecia que a coisa não iria correr bem, porque o restaurante aparentemente estava todo reservado, mas uma vez mais tivemos sorte e bastou-nos fazer um compasso de espera com umas cañas a acompanhar e mais rapidamente do que esperávamos estávamos sentados a escolher os pratos do nosso almoço.





De novo, uma bela experiência gastronómica, daquelas que no final do "primer" já quase que nem apetecia o "segundo"... quase! O dia até então estava a saber-nos tão bem... que tínhamos a certeza que assim continuaria durante a parte da tarde!


Depois da barrigada de (boa) comida, mal sabíamos nós que iríamos apanhar outra barrigada (igualmene boa) de curvas.



Deixámos o restaurante La Campanona, saímos de Villablino e seguimos a estrada junto ao Embalse de Las Rozas, em direção a Ponferrada. Uma valente dosa de curvas rápidas com o excelente tempo que se fazia sentir a ajudar, colocaram-nos novamente com uma excelente boa disposição. Assim que parámos no primeiro cruzamento para reagrupar, estávamos todos ligeiramente eufóricos com o trajeto que tínhamos acabado de fazer! :nice:

Mas como dia de viagem que se preze não se passa sem pelo menos uma peripécia, desta feita foi a minha vez de contribuir para esse peditório. Ao desmontar enquanto esperava que a malta reagrupasse toda, deixei a mota com o descanso lateral mal colocado, e ela resolveu deitar-se um bocadinho como que a descansar das curvas que tinha acabado de fazer... olhei para ela no chão e tive um "dejá vu" de uma viagem anterior, quando num episódio semelhante dei por mim com um seletor partido e a necessidade de o "reconstruir" para poder seguir viagem. Felizmente desta vez o seletor retrátil da SW-Motech que entretanto adquiri, não partiu. Levantei a burra do chão, sacudi-lhe o pó do lombo e toca a andar, que "p'rá frente é que é caminho"!

... julgava eu. Assim que arranquei, percebi que algo se passava. O seletor estava preso em segunda. Procurei uma sombra, encostei e dei novamente largas à minha recém-descoberta veia de mecânico de berma de estrada. Verifiquei que o seletor tinha dobrado ligeiramente e prendia no movimento ascendente. Ocorreu-me desmontar aquilo tudo e trocar uma anilha exterior para a parte interior do pedal, de forma a criar espaço. Aproveitei e reposicionei o peso esquerdo. A manete estava partida na extremidade, mas funcional. Já com tudo operacional, e em pouco mais de 5 minutos estávamos novamente a rolar!



Com o problema do seletor resolvido, o calor e a estrada chamavam-nos. Fomos rolando descontraidamente, até que urgia repor alguns fluidos. Junto a Ponferrada, procurámos um local para descansar e parámos numas bombas de gasolina onde nos refrescámos e descontraímos um pouco.

O Ricardo aproveitou para mimar a sua princesa com uma sombrinha... (há quem diga que tinha medo que os tacos do pneu de trás derretessem)



O Diogo aproveitou para ser o vândalo irresponsável do costume...



O Luís aproveitou para se dedicar à apicultura... (e nesse dia não seria o único)



Houve quem simplesmente fosse mijar ao WC do Marquez...



Repostos fluidos e energias, era tempo de seguir em direção a Viana do Bolo. Retomámos a viagem, e pouco depois o meu GPS trocou-me novamente as voltas, levando-me por uma estrada com vários túneis junto à entrada na Galiza, em vez do caminho que tinha planeado fazer. Ainda assim, não correu mal. Chegados ao cruzamento próximo de Petín, antes de atravessar a ponte sobre o Encoro de San Martino, resolvi proporcionar mais um episódio de entretenimento ao grupo.

Comecei a sentir umas ligeiras picadas no braço, que foram subindo e agudizando, até sentir uma valente ferroada de abelha no ombro. Parei ali em pleno cruzamento, com o grupo todo atrás de mim, e depois de ter explorado a minha vertente de "mecânico de berma de estrada", achei que era altura de enveredar pelo "stripper dos cruzamentos". O ridículo episódio acabou comigo em tronco nu, a barrar a passagem a 11 motas e com o grupo todo a rir-se de mim. O Luís inclusive colocou-se estrategicamente na estrada não fosse surgir a necessidade de parar o trânsito! O pior de tudo... ficou registado em vídeo (um grande bem haja, Pedrosa .|.)!

Depois de mais um momento de entretenimento do dia, e já recuperado da ferroada que levei, reagrupámos e seguimos viagem. A estrada que nos levaria mais a sul, até A Gudiña, foi para muitos a melhor estrada do dia, sobretudo na parte final. O pessoal rodou livremente, ao ritmo que a cada um apetecia, e sabia bem estar na estrada. A paisagem envolvente continuava a ser top, não podíamos pedir muito mais. Em A Gudiña reagrupámos novamente, antes de virar em direção a Pereiro, rumo ao destino final do dia.



Uma vez chegados ao Hotel Restaurante Cazador, fizemos de imediato o checkin e disponibilizaram-nos local para guardar as burras. Ainda era cedo, pelo que combinámos ir reagrupando na esplanada após as devidas banhocas. Assim fizemos. Conforme fomos chegando fomos aviando mais umas cañas, enquanto se ouvia o relato do jogo.



Enquanto esperava pela malta fui dar um giro e ver a envolvente do hotel, que tinha "muy buena pinta".



A hora da janta aproximava-se, pelo que nos fomos acercando do "comedor", onde já nos esperava a nossa mesa. A moral estava muito elevada e sentiamo-nos todos realizados com a viagem que estava agora na sua reta final.



Uma derradeira refeição em Espanha que não ficaria atrás das restantes. Abancámos por debaixo de uma cabeça de "rubia galega", raça bovina da região, cuja carne integrou alguns dos pratos pedidos essa noite.







No final resolvi armar-me em esperto e pedir uma tarte gelada não-sei-do-quê que, julgava eu, era uma cena altamente que a mesa do lado tinha pedido. Uns quantos tansos foram atrás do meu raciocínio falhado, e acabámos todos a comer umas fatias merdosas de vianetta, que ainda assim não foram más o suficiente para estragar o belo jantar.

Juntamo-nos ainda mais um pouco na esplanada exterior. O tempo assim o permitia, e a noite estava agradável. Fizemos uma espécie de "debriefing" dos dias passados, os pontos melhores, os bons, e os a melhorar. Revemos a viagem na nossa cabeça e em grupo. Degustámos (alguns) mais um pouco de whisky e fomos descansar. O dia seguinte ainda teria direito a muitos e bons kms.

terça-feira, maio 28, 2019

Astúrias e Picos da Europa - Dia #3

O terceiro dia nasceu, e com ele a vontade de andar mais de mota. A equipa de matrecos pagou cara a degustação de whisky da noite anterior, nomeadamente eu que claramente não tinha ido aos treinos o suficiente. Acordei com uma cabeça do tamanho do mundo. Claramente não era o único, já que ao pequeno almoço o Pedrosa fez acompanhar as torradas de Guronsan (e que teve a bondade de partilhar). O mais fresco e fofo ainda assim era o Pedro "al tiempo", que se não estava na maior... parecia. A ressaca era generalizada, mas não impeditiva de estarmos todos com uma vontade do caraças de nos fazermos de novo à estrada!



Lá fora as motos esperavam por nós, por isso era tempo de lhes fazer a vontade, arrumar os tarecos, montar e seguir. Despedimo-nos dos simpáticos proprietários do hostal e restaurante que tão bem nos acolheu, e fomos albardar as burras.



Nesta altura e como apesar de não estar a chover, o tempo ainda tinha um aspeto ameaçador, houve malta mais mariquinhas que resolveu fazer o desfile da coleção Outono-Inverno da Moda Hi-Viz...



Mesmo com o tempo meio farrusco, à saída de Riaño a paisagem era simplesmente espetacular. A água parada fazia um efeito de espelho, que tenho pena de não ter capturado em foto, sendo que só um pouco mais à frente parei para a bater a chapa de grupo.



O objetivo seguinte era chegar a Cangas de Onís ainda durante a manhã, desviar até Covadonga e se possível fazer uma visita aos lagos Enol e Ercina. Rumámos em direção a norte, uma vez mais por uma estrada com uma envolvente espetacular, sobretudo a passagem pelo Desfiladero de los Beyos e todo o troço em que fomos acompanhando o leito do Rio Sela.





A manhã foi feita de andar muito e parar pouco. A distância não era grande, mas o piso molhado não dava margem para grandes aventuras em termos de ritmo. Foi pena porque com tempo seco seria algo digno de um parque de diversões. Fomos andando, e assim que chegámos a Covadonga, a primeira coisa que fizemos foi procurar onde beber mais um cafezinho, há muito desejado (sobretudo pelos elementos da equipa de matrecos). Seguimos as instruções de um elemento da guardia civil para estacionar as motas, e continuámos a pé.





Constatámos que os acessos aos lagos estavam fechados ao público, sendo necessário alugar um serviço de transporte para visitar os mesmos, o que implicaria cerca de uma hora de visita guiada em autocarro... Uma vez que estávamos ali para andar de mota e não de autocarro, optámos por abdicar da visita aos lagos e deixar como motivo para regressar noutra ocasião ao local, que assim o pede. Deixámo-nos estar mais um bocadinho à conversa, com as habituais brincadeiras e mentiras, enquanto íamos absorvendo a envolvente espetacular do local.



Até o Bicabagaço do Xico deu um ar da sua graça! :)



De seguida aproveitámos para visitar o Santuário de Covadonga, que é composto por uma capela construída dentro de uma gruta no interior do Monte Auseva, com um lago subterrâneo. O nome Covadonga deriva precisamente de "cova de onnica", que significa "rio da cova".









Depois de visitar o santuário, estava na altura de começar a pensar no almoço. Tivemos de fazer um compasso de espera porque o Pedrosa perdeu novamente as chaves, desta vez da mota. Foi nesse momento que ficou oficialmente apelidado de "o porta-chaves". Quando por fim percebeu que as tinha penduradas ao pescoço, conseguimos então sair dali.



Enquanto o Ricardo albardava a sua Super Duke, passou uma senhora por ele que, olhando para a mota, não se inibiu de dizer em voz alta:


- Esta mota é grande merda! a GT é que é...


Mal sabíamos nós que a dita senhora era uma ave agoirenta, que mais tarde iríamos recordar...


Saímos de Covadonga novamente em direção a Cangas de Onís, e fomos em busca de um restaurante com "buena pinta" que o Pedro tinha topado pelo caminho, e que servia também os típicos menus com "primer y segundo" em modo bom e barato. Finalmente encontrámos o restaurante La Palmera. Aparcámos as motos e fui tratar da logística.





- Hola! Somos 12... tienes comida para nosotros?- Sí! Os preparo una mesa!

E lá fomos nós para mais um excelente momento gastronómico, dos muitos (praticamente todos) que fizeram parte desta viagem!



Um dos "primeros" que marcharam, foi o típico prato asturiano "fabada", que nos deixou logo com pouco armazenamento para os "segundos". Muitos mais dias a comer assim e claramente regressaríamos todos com necessidade de uma boa dieta!



Enquanto degustávamos mais uma refeição do caraças, com boa companhia e boa conversa, íamos observando o desfile "motorrad" que passava lá fora. Sentíamos que aquela zona estava um bocadinho sobrepovoada de motas e estávamos felizes por nos irmos afastar daquela área mais turística assim que terminássemos o almoço. Não contávamos no entanto com a surpresa que teríamos durante a parte da tarde...


Já com a barriga cheia (e bem) a estrada chamava novamente por nós. Fomos pagando a refeição e saindo gradualmente para o estacionamento das motas, onde o céu limpo e o sol nos esperavam. Enquanto a malta albardava as burras, as miúdas do grupo resolveram tirar as medidas à mota de cada uma...



Não posso deixar de fazer uma menção especial a estas duas grandes mulheres que integraram o grupo.

Cátia... Cada vez que tenho o prazer de rolar contigo fico sempre impressionado com a tua evolução enquanto motociclista e a forma como vives isto tudo. Parece que foi ontem a primeira vez que te vi andar na tua CB500X durante a primeira viagem em que participaste, e agora... quem te viu e quem te vê!

Sara... Surpreendeu-me a tua coragem e determinação. Mesmo tendo tu receios resultantes da reduzida experiência em viagens maiores, não tiveste problemas em atirar-te de cabeça numa aventura destas. Ao longo da própria viagem foi evidente a tua evolução e vontade em alargar a tua zona de conforto.

Um grande beijinho a ambas, pela coragem, determinação e atitude, e por darem o exemplo mostrando que isto das motas não é uma cena exclusiva de gajos feios, porcos e maus. Bem haja!

Voltando à viagem... Arrancámos do restaurante e mal fizemos meia dúzia de kms, chegados ao primeiro desvio, demos por falta de dois elementos do grupo. Uma SMS do Luís no meu telemóvel dizia o seguinte:
Ricardo com furo. Na rotunda à saída do restaurante.

Demos meia volta e regressámos ao seu encontro. O Ricardo olhava desanimado para a sua KTM forrada a fita carbono, com o seu pneu de trás praticamente vazio. Tentámos perceber onde estava o furo, tarefa que não foi fácil já que não havia sinais de pregos, parafusos ou outros objetos eventualmente espetados no pneu. Finalmente encontrámos um pequeno golpe que se veio a confirmar ser o responsável pela perda de ar do pneu. Impunha-se mais uma reparação de berma de estrada!

Vários elementos do grupo tinham vindo equipados com kits de reparação de furos... o Carlos perguntou "já alguém reparou um furo com um kit destes?", ao que a resposta foi... silêncio. Não deixa de ser cómico que, em 12 tenrinhos que andam diariamente de mota, nenhum deles tenha até hoje tido a necessidade de aplicar um taco (falo por mim que de alguma forma, das muitas vezes que furei, consegui sempre chegar a algum lado em que alguém pudesse sujar as mãos por mim). Alguma vez teria de ser a primeira, e aquilo não é propriamente "rocket science" por isso deitei mãos ao kit do Luís e assim começou a reparação.



Enquanto a reparação decorria com a ajuda de todos, o Ricardo assumiu o papel do "responsável pelo acompanhamento da obra", conforme se pode constatar pela foto... Da minha parte, como foi o primeiro furo que reparei, resolvi fazer um "taco do caralho", do qual ficou o registo fotográfico!



Despejaram-se umas botijas de ar comprimido para repor a pressão do pneu, e alguém comentou que se estivesse ali o Rui, certamente traria consigo o compressor que facilitaria o processo. Fizemos mais um par de kms para o Ricardo testar a mota. A pressão ainda estava muito baixa e não era suficiente para rolar em segurança. Entretanto reparei num sujeito subia para um trator ali ao nosso lado, e resolvi perguntar se sabia onde poderíamos encher o pneu à mota.

- Buenas! Un compañero nuestro tiene un problema con su moto... sabes donde podemos llenar su neumático?- Sí, aqui mismo! (disse, enquanto apontava para uma quinta ali em frente)

Fui com o Ricardo até ao local onde estava o compressor, que apesar de não permitir ver a pressão com exatidão, serviu para encher o pneu. Ofereci-me para pagar umas cañas como agradecimento pela disponibilidade, mas recusaram com um sorriso e despediram-se de nós. O ar de preocupação na cara do Ricardo começou a desaparecer. Comentámos que a "ave agoirenta" que em Covadonga tinha apelidado a SD de "grande merda", provavelmente feito ali mesmo a sua macumba. Rimos todos e, por fim, seguimos viagem.

À saída da povoação de Corao, onde nos encontrávamos, a estradinha que se seguiu foi novamente magnífica. Um traçado estreito com curvinhas bem técnicas, quintas, animais e paisagem em geral foram uma constante ao longo deste percurso, que nos levaria até à zona mais a norte da península, onde iríamos poder observar o Golfo de Biscaia. Numa paragem intermédia percebi no entanto que o Ricardo vinha novamente com cara de poucos amigos. A telemetria da sua mota indicava que o pneu continuava a perder ar lentamente, e sabíamos que não era pelo local onde tinha sido aplicado o taco. Combinámos parar no ponto de interesse seguinte e logo decidir o que fazer.

Chegámos por fim a Bufones de Pría. Estacionámos as motas e descemos até à Playa de Guadamia, onde nos deparámos com mais uma paisagem magnífica. Naquela zona desagua o rio Guadamia, e a rebentação forte das ondas lá ao fundo, cria um cenário espetacular.





Era tempo de mais uma fotografia em "equilíbrio dinâmico", para registar o momento.



Por esta altura o Ricardo estava cada vez mais preocupado com a situação do pneu, no qual já não tinha confiança, e todos nós partilhávamos essa preocupação, por isso decidimos ir até às bombas de combustível mais próximas para reavaliar a situação. Assim fizemos. Saímos dali e cerca de 10 kms depois parámos numa estação de serviço, aproveitando também para abastecer.

Era quase estúpido não percebermos por onde raio o pneu estava a perder ar. voltámos a tentar descobrir alguma outra fuga, verificámos a válvula, e nada... não conseguíamos dar com o raio do furo. Decidimos encher o pneu e procurar um local onde nos pudessem ajudar, eventualmente desmontando o pneu e reparando-o de uma vez por todas. Contactámos meia dúzia de locais, até que finalmente nos confirmaram disponibilidade para reparação numa oficina Feu Vert em Gijón, que estava aberta até tarde. Como ficava próxima de Oviedo, onde tencionávamos pernoitar, não hesitámos.

Antes de arrancar enchemos novamente o pneu. Descobrimos que o ar em Espanha... paga-se. 1 euro para ter direito a 5 minutos de compressor e/ou água. Operação que tivemos de repetir a meio caminho, pelo que aos consumos de combustível do Ricardo, há que somar mais 2 ou 3 euros para ar e água e um kit de reparação de furos.



Fomos percorrendo o caminho junto ao golfo, mas seguindo a lei do improviso e por razões óbvias, decidimos fazê-lo por autoestrada. O dia começava a parecer longo e queríamos resolver aquela situação de uma vez por todas. Chegados à oficina, entrei e expliquei de imediato a situação ao funcionário.

- Buenas tardes. Tenemos un problema en el neumático de una de las motos y llamamos para saber si podían hacer una reparación.- Perdón, pero no reparamos motos en este taller.
- Cómo no reparan? Cuando llamé dijeron que sí!!!
- Perdon, no lo hacemos.

Aparentemente tínhamos feito 70 kms para nada. Depois de controlar a minha vontade de dar uma cabeçada ao gerente da oficina, perguntei se ao menos nos poderiam ajudar a encontrar o furo, que o reparávamos nós. Lá nos ajudaram a procurar uma segunda micro-fissura que nos tinha escapado, e que estava finalmente encontrada. Sacámos novamente dos kits de reparação de furos, e aplicámos novo taco. Este não ficou "do caralho", mas ficou porreiro na mesma. Estávamos a ficar "prós" naquilo...



Tínhamos o problema resolvido, e o Ricardo finalmente conseguiu respirar de alívio. Foi nesta altura que ficou decidido que o seu cognome no fórum seria alusivo à quantidade de furos e tacos que trazia no seu pneu. E assim ficou apelidado de... bem... é ir ver. Conforme fiz questão de lhe transmitir na altura, estas situações acontecem, e são estas histórias que ficam para contar mais tarde, quando lembrarmos esta viagem.

Apesar da má vontade inicial dos tipos da oficina, agradeci a ajuda (e o compressor) e reagrupei o grupo para sairmos dali para fora em direção ao hotel que nos esperava. A distância até Oviedo era curta, e já me apetecia uma banhoca e um belo jantar.

Chegados ao Ibis em Oviedo, dei por mim inadvertidamente a fazer um tour pelo bairro circundante até desistir e optar por passar um traço contínuo para finalmente entrarmos na garagem do hotel. Fizemos o checkin e assim que chegámos aos quartos lembrámo-nos todos do porquê da versão "budget" do Ibis existir. Algumas das camas nem estavam feitas, e o pior é que nos competia a nós fazê-las. Não era problema para o nível de resiliência que todos tínhamos, pelo que pouco tempo depois já estávamos de banhoca tomada a fazer análises à urina na receção do hotel...



Numa alusão à edição anterior da viagem, percebemos que por ali também havia "tumarcos"!



A malta foi-se juntando, e as rodadas de cañas foram-se repetindo. No final, a simpática senhora do bar perguntou-nos quantas cañas tínhamos bebido porque tinha perdido a conta. O Pedro inicialmente respondeu 6, mas como o grupo era de 12, a história não pegou. Assim sendo, a conta ficou-se mesmo pelas 12... :D

Entretanto já tinha indagado acerca de restaurantes de jeito ali perto. Houve um que me pareceu interessante. O Restaurante Monte Naranco, que servia cozinha tradicional asturiana. A temperatura estava agradável e a noite apetecível, pelo que soube-nos bem ir a pé até ao restaurante. Chegámos ao restaurante, e novamente houve pronta disponibilidade para nos prepararem uma mesa.



Pouco tempo depois já tínhamos umas garrafas de cidra em cima da mesa, a melhor cidra que bebi... naquele dia. Mudei logo para cañas.



Novamente uma experiência gastronómica memorável. Entre os vários pratos que pedimos, servidos em doses extremamente generosas, a destacar aquele que o Carlos batizou de "o prato do Carlos Cruz". Um prato parecido com "cordon bleu", em que é servido um gigantesco e saboroso bife panado com queijo e fiambre, acompanhado de batatas fritas, e que na cozinha asturiana se denomina por... "cachopo".





O espírito de camaradagem era forte, e a boa disposição continuou ao longo da refeição e da noite... Já de barriguinha cheia, decidimos terminar a noite no bar do hotel, com mais umas "análises à urina" e a fazer o briefing da praxe para o dia seguinte (gabo a paciência que a malta teve para me ouvir ao longo destes dias todos...).



Lá fomos dormir nos quartos minimalistas do Ibis, para recuperar energias para o dia seguinte, que ainda não sabíamos mas seria simplesmente... do caraças!